Análise: Hesitação do EUA na Síria abriu caminho para extremistas na região

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Falta de ação do Ocidente no conflito Síria pode ter alimentado avanço de militantes e crise no Iraque, analisa correspondente

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Desde que os EUA desistiram de realizar ataques aéreos na Síria, um ano atrás, na sequência de um ataque com gás sarin contra civis atribuído ao governo do presidente Bashar al Assad, o número de mortos no conflito dobrou, superando 191 mil.

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AP
Militantes anunciaram criação de um Estado islâmico em partes da Síria e do Iraque


Ontem: Sírios se sentem esquecidos um ano após ataque químico

Além do assustador custo humano, muitos acreditam que a relutância naquela ocasião teve também consequências geopolíticas para a região, permitindo o fortalecimento de grupos radicais que hoje desembocaram no autodenominado Estado Islâmico (EI).

Hoje, os EUA usam seu poderio aéreo para tentar mudar o equilíbrio de forças na região - mas não na Síria, e sim no Iraque, considerado um Estado que se desmorona diante da ameaça dos grupos radicais islâmicos.

Uma das questões que se destacam é se a falta de ação militar na Síria, um ano atrás, fomentou o caos regional a que assistimos hoje.

Hesitação na Síria

Um ano atrás os eventos na Síria ainda eram vistos como uma extensão da Primavera Árabe. Em outros países, líderes que ocupavam o poder havia anos tinham sido derrubados pela pressão popular. Na Síria, o presidente Bashar al-Assad estava determinado a manter sua posição.

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As divisões na oposição síria jogaram a favor de Assad e complicaram as dimensões regionais do conflito. Países sunitas, como a Arábia Saudita, apoiaram várias facções opositoras, enquanto o Irã apoiou o regime de Assad.

O Ocidente flertou com grupos opositores, mas a desunião deles e a falta de resolução das nações ocidentais impediram uma decisão sobre fornecer ou não armas a esses grupos.

Foi então que Assad aparentemente usou armas químicas contra seu próprio povo. Diferentemente de outras ocasiões, as provas deste ataque eram claras e exigiam uma reação. O presidente americano, Barack Obama, estava sob pressão para responder ao desrespeito de uma "linha vermelha" que ele próprio estabelecera: o uso de armas químicas por parte do governo sírio contra sua população civil.

Veja fotos da ocupação dos militantes no Iraque

Membros do Exército feminino treinam habilidades de combate antes de combaterem o Estado Islâmico em acampamento militar no Iraque (18/09). Foto: ReutersMilitar curdo lança morteiros em direção Zummar, controlada pelo Estado Islâmico, em Mosul, Iraque (15/09). Foto: ReutersMilitantes do Estado Islâmico levam soldados iraquianos capturados depois de assumir base em Tikrit, Iraque (junho/2014). Foto: APObama prometeu ofensiva com ataques aéreos na Síria e no Iraque para combater EI (12/09). Foto: ReutersMilitares curdos em tanque enfrentam militantes do Estado islâmico em Mosul, Iraque (7/09). Foto: ReutersMilitante curdo dá cobertura durante confrontos do Estado Islâmico na linha de frente da vila de Buyuk Yeniga, Iraque (4/09). Foto: ReutersMilicianos xiitas do Iraque disparam suas armas enquanto celebram a quebra de cerco do Estado Islâmico em Amerli (1/09). Foto: ReutersGrupo carrega caixão de militante xiita iraquiano da Organização Badr, que foi morto em confrontos com militantes do Estado Islâmico no Iraque (1/09). Foto: ReutersCriança chora em helicóptero militar após ser retirada pelas forças iraquianas de Amerli, ao norte de Bagdá (29/08). Foto: ReutersCurdos e militantes islâmicos lutam no norte do Iraque (12/08). Foto: ReutersIraquianos carregam retratos do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki enquanto se reúnem em apoio a ele em Bagdá, Iraque (11/08). Foto: ReutersMilhares de iraquianos fugiram com avanço de militantes do EI, inclusive integrantes de minorias religiosas (9/08). Foto: APTropas curdas implantam segurança intensa contra os militantes islâmicos do Estado em Khazer (8/08). Foto: ReutersTropas curdas patrulham em um tanque durante operação contra militantes do Estado Islâmico em Makhmur, nos arredores da província de Nínive, Iraque (7/08). Foto: ReutersParentes choram a morte de homem da YPG, morto durante confrontos com combatentes do Estado Islâmico na cidade iraquiana de  Rabia, na fronteira do Iraque-Síria (6/08). Foto: ReutersVoluntários xiitas do Exército iraquiano se recuperam em hospital após serem feridos em confrontos com militantes do Estado Islâmico em Basra, sudeste de Bagdá (6/08). Foto: ReutersMulher visita túmulo de um parente em cemitério durante as celebrações do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, em Bagdá (28/07). Foto: ReutersSoldado iraquiano perto de corpo de um membro do Estado Islâmico que morreu durante confrontos com forças iraquianas em Tikrit, Iraque (19/07). Foto: ReutersBandeira preta usada pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante flamula de delegacia danificada em Mosul, norte do Iraque (1/7). Foto: APVoluntário xiita do Conselho Supremo Islâmico Iraquiano aponta arma durante treinamento em Najaf, Iraque (26/6). Foto: ReutersMembros das forças de segurança iraquianas tomam suas posições durante reforço de segurança no oeste de Bagdá, Iraque (24/6). Foto: ReutersXiitas iraquianos se preparam para patrulhar a aldeia de Taza Khormato, na rica província petrolífera de Kirkuk, no Iraque (22/6). Foto: APCombatentes xiitas levantam suas armas e entoam palavras de ordem após autoridades pedirem ajuda para conter os insurgentes em Sadr, em Bagdá, Iraque (17/06). Foto: APManifestantes gritam em favor do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em frente do governo provincial de Mosul (16/4). Foto: APCombatentes tribais xiitas mostram suas armas enquanto tomam parte de Dujail, ao norte de Bagdá, Iraque (16/06). Foto: ReutersCombatentes tribais xiitas levantam suas armas e gritam palavras de ordem contra sunita Exército Islâmico em Basra, Iraque (16/6). Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL mirando contra soldados à paisana depois de tomar base in Tikrit, Iraque. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque
. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque. Foto: APCombatentes iraquianos xiitas seguram suas armas enquanto gritam palavras de ordem contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante em Cidade Sadr, Bagdá (13/6). Foto: APVoluntários esperam para se juntar ao Exército e combater militantes predominantemente sunitas em Bagdá, Iraque (13/6). Foto: ReutersPresidente dos EUA, Barack Obama, fala sobre a situação no Iraque em pronunciamento na Casa Branca, em Washington (13/6). Foto: APImagem postada em Twitter militante mostra membro do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com sua bandeira em base militar na Província de Ninevah, Iraque (12/6). Foto: APImagem publicada por militantes no Twitter mostra combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em local na fronteira entre o Iraque e a Síria (12/6). Foto: APMuitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por insurgentes sunitas (13/6). Foto: ReutersForças de segurança curda se posicionam do lado de fora da cidade petrolífera de Kirkuk após abandono de tropas iraquianas (12/6). Foto: APVeículos queimados pertencentes às forças de segurança iraquianas são vistos em posto de controle no leste de Mosul (11/6). Foto: ReutersPolicial federal do Iraque monta aguarda enquanto colega faz buscas em carro em posto de controle de Bagdá, Iraque (11/6). Foto: APFamílias que fogem da violência na cidade de Mosul esperam em posto de controle nos arredores de Irbil, região do Curdistão iraquiano (10/6). Foto: ReutersRefugiados que deixam Mosul se dirigem à região autônoma curda em Irbil, Iraque, a 350 km a norte de Bagdá (10/6). Foto: APMilitares se preparam para assumir suas posições durante confrontos com militantes no norte da cidade de Mosul, Iraque (9/06). Foto: AP

Obama: Ataque químico da Síria é ameaça ao mundo e aos interesses dos EUA

Com se sabe, o ataque americano nunca ocorreu. O Parlamento britânico se opôs a uma ação conjunta com os EUA e enfraqueceu uma autorização semelhante que buscasse aprovação do Congresso americano para uma ação militar.

A alternativa diplomática, costurada entre Washington e Moscou com apoio da comunidade internacional, foi elaborar um plano conjunto para destruir os estoques de armamentos químicos do governo sírio.

Foi um capítulo memorável na história do controle de armas. Mas não interrompeu o derramamento de sangue no país.

A remoção do estoque de armas químicas da Síria foi, de certa maneira, uma distração: agora, as atenções estavam voltadas unicamente para a questão das armas químicas.

Enquanto isso, grupos considerados pelo Ocidente como uma "oposição moderada" foram acossados por um novo e perigoso inimigo.

Leia: Saiba os principais itens de relatório dos EUA sobre o ataque químico

Jihadistas

Extremistas islâmicos ligados a um ramo da al-Qaeda tinham sido, por muito tempo, uma fonte de preocupação no Ocidente.

A capacidade deles de cooptar islâmicos moderados e enfrentar combatentes apoiados pelo Ocidente foi um dos motivos citados para justificar a relutância em fornecer armamento ocidental a combatentes da oposição. Afinal, nas mãos de quem esse armamento poderia acabar?

Os críticos de Obama - alguns dos quais defendiam o uso de ataques aéreos não apenas para punir, mas derrubar o regime de Assad – acreditavam que a Casa Branca tinha perdido uma oportunidade para mudar o equilíbrio militar na Síria de uma vez por todas.

2013: Oposição síria acusa governo de matar centenas em ataque químico

Em vez de fortalecer a oposição moderada, eles argumentam, houve espaço para que os elementos mais radicais da oposição - os jihadistas - prosperassem. Esses grupos se expandiram e desembocaram no autoproclamado Estado Islâmico, que agora controla uma faixa de território na Síria e no Iraque.

Muitos se perguntam por que os EUA atacam o Iraque e não atacaram a Síria. Para alguns, a resposta é fácil: petróleo.

É verdade que o Iraque, por muitas razões, é visto como um país com uma maior importância estratégica. Além disso, os EUA herdaram uma responsabilidade no país que invadiram em 2003.

Os EUA são um aliado de longa data dos curdos e receberam um pedido explícito para a intervenção do governo em Bagdá. A opinião em Washington é a de que não há uma ordem constitucional no Iraque.

É difícil prever o que teria acontecido na Síria se Obama tivesse mantido sua promessa de realizar ataques aéreos. Mas ficou claro que, sem impedir a desintegração da Síria, chegou-se a uma situação em que a integridade do Iraque também está sob ameaça.

O Estado extremista que hoje controla territórios nos dois países pode um dia exportar sua violência para locais ainda mais distantes.

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