ONU conferiu que foguetes caídos em Zamalka, Ein Tarma e em Muadhamiya possuíam gás; entre 350 e 1.500 sírios morreram

BBC

Eram 2h30 da manhã em uma noite quente de verão em Damasco. O som de foguetes atingindo alvos não era nada novo.

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Pelo menos seis deles haviam explodido, um após o outro, nos distritos de Zamalka e Ein Tarma. Majed, um ativista de 26 anos da vizinha Douma, estava tentando dormir quando os pedidos de ajuda começaram a chegar.

O estudante de Direito costumava relatar os incidentes para o Centro de Documentação de Violações, organização que registra dezenas de milhares de mortes e desaparecimentos na Síria.

Mas ele não estava preparado para o que viria na madrugada de 21 de agosto de 2013, em Ghouta, cinturão agrícola em torno da capital síria.

"Havia caos por toda parte. Pessoas corriam de um lado para o outro gritando: 'gás, gás! Eles nos atacaram com gás'", lembra.

"Naquele momento, ninguém tinha percebido o que estava acontecendo. As pessoas faziam o que costumavam fazer quando havia um ataque. Elas foram para os porões, mulheres e crianças primeiro."

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"Elas procuraram abrigo no lugar mais perigoso quando há um ataque químico. O gás se concentra nas áreas mais baixas e foi aí onde o maior número de pessoas morreu."

Inspetores de armas químicas da ONU confirmariam que os foguetes que caíram em Zamalka, Ein Tarma e no subúrbio de Muadhamiya possuíam sarin, gás que pode levar à morte por asfixiação em alguns minutos.

Não se sabe ao certo quantos morreram, devido ao caos resultante da enorme quantidade de vítimas e a falta de grandes hospitais nas áreas atingidas. Estimativas sobre mortos vão de cerca de 350 a 1.500.

Muitos casos não foram documentados, já que valas comuns foram escavadas e vítimas foram enterradas sem terem sido registradas.

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Em algumas áreas, ninguém sobreviveu. Em outras, famílias inteiras morreram. Mesmo médicos que correram para ajudar morreram após inalarem o sarin que continuava no ar.

Um ano depois, a guerra na Síria continua e avançou para países vizinhos. O número de mortos aproxima-se agora de 200 mil, segundo ativistas.

'O mundo falhou'

A esperança desapareceu para muitos sírios, que vêem a atenção do mundo se voltar para outros conflitos, como no Iraque e em Gaza.

"O mundo falhou com o povo sírio", diz Majed. As imagens do ataque em Ghouta chocaram o mundo.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, acusou o governo do sírio Bashar al-Assad de cruzar uma "linha vermelha" por usar armas químicas contra sua própria população.

Número de mortos por ataque é desconhecido; muitos foram enterrados sem identificação
Reuters
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Obama esteve prestes a lançar ataques aéreos punitivos contra forças de Assad quando a Rússia fez uma proposta para evitar a ação.

O acordo, com apoio da ONU, forçou Assad a entregar seu arsenal de armas químicas, mas deixou seus partidários livres para continuar usando armas convencionais contra forças rebeldes e civis.

"As pessoas esperavam que o Ocidente finalmente viria para salvá-las, mas em vez disso, eles deram Assad o sinal verde para matar mais, usando outros tipos de armas", diz Majed.

"É uma vergonha para o mundo que tal massacre tenha sido testemunhado e nada tenha sido feito. Parece que nós não somos importantes para ninguém. A questão dos direitos humanos e a da democracia são só mentiras que o Ocidente e a ONU usam quando convém aos seus interesses."

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A prontidão dos EUA de lançar ataques aéreos contra o grupo do autointitulado Estado Islâmico no Iraque para proteger membros da minoria religiosa yazidi causou mais decepção para os sírios, que sofrem as atrocidades de Assad e de militantes extremistas.

"Ninguém se preocupa conosco", é uma queixa corriqueira entre sírios, assim como: "Eles até pararam de calcular o número de mortos e refugiados entre nós".

'Só vai piorar'

Majed relembra o ataque. Ele percorreu os subúrbios de Ghouta, passando por hospitais improvisados e mesquitas para contar os mortos e tirar fotos como provas.

Antes daquela noite, o máximo de corpos que ele tinha documentado após um ataque era 27. Ele diz que o que testemunhou foi além de sua compreensão.

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"Em um único quarto em um hospital de campanha, havia 600 corpos deitados no chão. Uma criança após a outra, meninos e meninas com os olhos abertos e um líquido branco saindo dos narizes e bocas."

Imagens fortes postadas por ativistas nas horas seguintes mostravam crianças, mulheres e homens mortos. Cada corpo foi coberto por uma manta branca e recebeu um número. Em muitos casos, as vítimas não foram identificadas.

Majed queria tirar uma foto ampla da cena, para mostrar todos os corpos em uma única imagem. Mas não importava o quanto se afastava da cena, não conseguia.

"As pessoas iam para os hospitais de campanha e eram forçadas a andar para cima e para baixo entre os corpos à procura de familiares."

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Majed diz que uma cena ficou em sua memória: um pai chegou à procura de seus filhos e depois de encontrar o corpo de sua filha de oito anos, pegou a menina nos braços e caiu em prantos.

"Segurando-a em seus braços, ele continuou olhando e logo encontrou sua filha mais nova", diz Majed.

"Mas ficou completamente perdido quando viu que sua terceira filha também havia morrido. Ele largou os três corpos no chão e desmaiou."

Majed deixou a Síria, mas continua a ajudar quem ficou no país. Ele, no entanto, teme que as coisas só piorem.

"Após o ataque químico, vi muitos ao meu redor se voltarem para o extremismo. A decepção causada pela inação do Ocidente criou um terreno fértil de recrutamento para grupos extremistas, que disseram àqueles que perderam seus entes queridos que esta é a única esperança", afirma.

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