Tribunal australiano diz que o fato de Khaled Sharrouf ter usado drogas como LSD foi 'significativo' para surgimento da doença

A imagem de um pai orgulhoso contrapôs a expressão indignada do secretário de Estado dos EUA nesta terça-feira (12), de acordo com a CNN.

Domingo: Esse é meu garoto, diz pai enquanto filho segura cabeça decepada

Khaled Sharrouf e seus filhos seguram armas em região da Síria
Reprodução/Youtube
Khaled Sharrouf e seus filhos seguram armas em região da Síria

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Durante coletiva de imprensa na Austrália, John Kerry condenou a foto como "uma das mais perturbadoras e grotescas já vista".

"Esse é meu garoto", escreveu Khaled Sharrouf ao publicar a imagem no Twitter onde seu filho de 7 anos aparece usando ambas as mãos para segurar a cabeça decepada de um homem.

Removida do microblog, a foto parece ter sido clicada em Raqqa, cidade síria ocupada por militantes islâmicos onde o pai australiano levou sua família para se juntar à luta do Estado Islâmico.

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A condenação foi rápida e nesta terça incluiu a crítica mordaz do clérigo islâmico mais antigo da Austrália, Grand Mufti Ibrahim Abu Mohamed.

"É absolutamente deplorável os extremistas usarem o Islã para acobertar seus crimes e atrocidades", disse Mohamed em um comunicado à CNN do Conselho Nacional Australiano Imames.

"Suas ações equivocadas não representam a esmagadora maioria dos muçulmanos que emula os puros ensinamentos do Islã, como a justiça, a misericórdia e a liberdade."

O secretário de Estado americano John Kerry disse que a imagem destacava "o quanto o Estado Islâmico está fora do que é aceitável para qualquer padrão de julgamento, até mesmo de um grupo terrorista".

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"Essa criança deveria estar na escola, essa criança deveria estar aprendendo sobre o futuro, essa criança deveria estar brincando com outras crianças, e não segurando uma cabeça decepada em uma zona de conflitos", disse Kerry.

Kerry falou sobre o assunto durante coletiva de imprensa conjunta com o ministro dos Negócios Estrangeiros australiano Julie Bishop, que também definiu a imagem como uma prova da crescente ameaça dos "terroristas locais".

"Há um número significativo de cidadãos australianos que está tomando parte em atividades no Iraque e na Síria. Atividades extremistas, atividades terroristas", disse Bishop.

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"Nosso receio é que eles voltem à Austrália mais fortes e continuarem seu trabalho por aqui."

Quem é Khaled Sharrouf?

Khaled Sharrouf nasceu na Austrália em fevereiro de 1981. Ele teve problemas com a Justiça desde a adolescência
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Khaled Sharrouf nasceu na Austrália em fevereiro de 1981. Ele teve problemas com a Justiça desde a adolescência

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Nascido na Austrália em fevereiro de 1981, Sharrouf é filho de libaneses, teve uma relação violenta com o pai e passou maior parte de sua juventude indo e voltando de tribunais locais.

Detalhes da conturbados adolescência de Sharrouf foram revelados em documentos judiciais de sua condenação na Suprema Corte Tribunal de Nova Gales do Sul em 2009 por acusações relacionadas a terrorismo.

Segundo os documentos, Sharrouf foi expulso da escola no 9 º ano por conduta violenta, e "logo foi visto em más companhias."

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Ele apareceu perante os tribunais em uma série de acusações menores entre 1995 e 1998, quando estava tomando regularmente anfetaminas, LSD e ecstasy. As drogas foram consideradas "fator significativo" no surgimento de sua esquizofrenia, segundo os documentos.

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O filho do jihadista Khaled Sharrouf, que não deve ter mais que 7 anos, usa ambas as mãos para levantar a cabeça decepada na Síria (10/08)
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O filho do jihadista Khaled Sharrouf, que não deve ter mais que 7 anos, usa ambas as mãos para levantar a cabeça decepada na Síria (10/08)

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Sharrouf trabalhou como operário na construção civil por algum tempo, mas sobreviveu principalmente com o auxílio de uma pensão de apoio à sua deficiência até sua prisão, em novembro de 2005, por acusações relacionadas ao terrorismo.

Ele foi um dos nove supostos terroristas detidos após uma série de ataques a casas e empresas como parte da Operação Pandanus, uma investigação sobre planos para trazer a guerra santa para a Austrália.

Sharrouf posteriormente se declarou culpado por posse de baterias e relógios que seriam usados para fazer explosivos. No entanto, a audiência de Sharrouf foi adiada depois de ele ter sido considerado incapaz de ir a julgamento por causa de sua doença.

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Em novembro de 2007, um especialista nomeado pelo tribunal disse que o acusado estaria sofrendo uma "exacerbação aguda da esquizofrenia". Ele foi colocado em observação sob efeito de medicamentos até que, no início de 2009, foi considerada uma "recuperação notável" de seu quadro clínico.

Sharrouf foi setenciado a cinco anos e três meses de prisão. No entanto, como ele já havia estado preso a maior parte desse tempo enquanto aguardava julgamento, foi libertado da prisão depois de apenas três semanas.

"Chance de um novo começo"

Durante a sentença, a Corte ouviu depoimento de sua esposa, Tara Nettleton, que afirmou ter planejado uma nova vida após Khaled ter sido libertado da prisão. Na época, o casal teve quatro filhos.

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"Ele frequentemente me dizia como se sentia triste por ter perdido grande parte da vida de seus filhos e que não via a hora de poder estar novamente em casa para poder aproveitar o tempo perdido e conhecê-los novamente", de acordo com comunicado emitido pelo tribunal.

"Costumamos falar sobre mudar de país e viver em uma fazenda para podermos ficar longe de tudo e ter a chance de recomeçar", ela teria dito.

Não ficou claro porque Tara consentiu em ir para a Síria com o marido e os filhos. No entanto, o pai dela, Peter Nettleton, disse estar arrasado com a imagem de seu neto segurando uma cabeça.

"Estou assustado pelas crianças", ele disse ao News Corp. "Que tipo de vida eles terão agora?".

Sharrouf ficou mais radical na prisão?

Menos de cinco anos após sair da prisão, é claro que Sharrouf não abandonou a ideologia que conheceu na cadeia, de acordo com Clarke Jones, um especialista da Universidade Nacional da Austrália, que está escrevendo um livro sobre a radicalização de detentos.

"A forma como encarceramos terroristas - os rótulos que colocamos sobre os terroristas - tende a isolá-los e segregá-los. Mas às vezes, é melhor colocar esses indivíduos com os outros detentos", afirmou à CNN.

"Se você isolá-los e segregá-los, eles tendem a ter mais tempo para pensar e fortalecer sua causa, suas ideologias. Então, acho que esse tempo na prisão o fez piorar", disse sobre Sharrouf.

"Se ele tem condições psicológicas graves, precisa de tratamento - ele é um indivíduo doente."

Não está claro o motivo pelo qual o australiano levou sua jovem família para uma zona de guerra, mas Jones disse que se ele está fazendo isso para ganhar apoio, é provável que tenha falhado.

"Por alguma razão, ele acha que mostrar seu filho segurando uma cabeça vai atrair as pessoas para sua causa. Na verdade, acho que vai ter um efeito negativo", disse Jones. "Acho até que essa atitude vai desestimular as demonstrações de fé das pessoas que pertencem a essa religião."

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