ONG acusa Egito de planejar massacre de pelo menos 817 pessoas em protesto

Por BBC |

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Segundo relatório, Exército abriu fogo de forma sistemática contra multidão que protestava contra 5º presidente do país

BBC

A ONG de defesa dos Direitos Humanos Humans Rights Watch acusou as forças de segurança do Egito de planejarem o massacre de centenas de pessoas nas manifestações que tomaram conta do país há um ano, o que configuraria "crime contra a humanidade".

Reuters
Forças de Segurança egípcias agem durante manifestações que tomaram país no ano passado

Um relatório da entidade afirma que pelo menos 817 pessoas morreram no incidente em 14 de agosto de 2013, próximo à mesquita Rabaa al-Adawiya, durante um protesto repreendido pelas forças de segurança egípcias.

O documento diz que a polícia e o Exército "sistematicamente abriram fogo com munição real contra multidões que protestavam pela derrubada do presidente Mohammed Morsi do poder".

A ONG ainda afirma que o "massacre" era parte de um "plano que previa milhares de mortes" e que o número total de vítimas fatais, segundo a entidade, seria superior a mil.

O diretor-executivo da Humans Rights Watch, Kenneth Roth, considerou as mortes ocorridas "um dos maiores massacres de manifestantes em um único dia na história recente".

O governo egípcio ainda não se manifestou oficialmente sobre o relatório, mas agências de notíciais estatais dizem que as autoridades locais classificaram o documento como "tendencioso e negativo".

Veja fotos do Egito após a queda de Mohamed Morsi:

Forças de segurança do Egito fazem guarda em frente da Universidade Islâmica Al-Azhar no Cairo (30/10). Foto: APForças de segurança do Egito e civis seguram um partidário do presidente deposto Mohammed Morsi perto da Praça Ramsis, no Cairo (7/10). Foto: APConfrontos entre apoiadores e opositores do presidente deposto do Egito, Mohamed Mursi, deixam mortos e feridos (6/10). Foto: Amr Abdallah Dalsh/ReutersPartidários do presidente egípcio deposto Mohammed Morsi gritaram palavras de ordem contra o ministro da Defesa do país durante marcha (4/10). Foto: APForças de segurança do Egito protegem o corpo do General Nabil Farrag morto por militantes que abriram fogo em Kerdasa  (19/9). Foto: APPartidários do presidente egípcio deposto Mohammed Morsi protestam em Nasr City, no Cairo (13/9). Foto: APExército do Egito ataca militantes islâmicos no norte do Sinai (7/9). Foto: APPessoas observam carro queimando momentos depois que um atentado à bomba atingiu o comboio do ministro do Interior do Egito, Mohammed Ibrahim (5/9). Foto: APPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi cobram para se proteger de gás lacrimogêneo lançado por polícia no Cairo, Egito (30/8). Foto: APManifestantes que apoiam o líder deposto Mohammed Morsi ajudam ferido perto de Praça Ramsés, no Cairo (16/8). Foto: ReutersPartidário de Mohammed Morsi se desespera enquanto amigo que foi ferido pelas forças de segurança recebe tratamento em mesquita no Cairo, Egito (16/8). Foto: NYTEgípcios velam corpos de seus parentes mortos em massacre de quarta-feira na mesquita Al-Fath, no Cairo (16/8). Foto: APCivil carregando uma arma observa movimento da rua no bairro de Zamalek no Cairo, Egito (16/8). Foto: APPartidários de Mohammed Morsi gritam palavras de ordem contra Exército durante confrontos no bairro de Mohandessin, no Egito (14/8). Foto: APForças de segurança do Egito prende manifestantes durante remoção de acampamento de partidários do islamita Mohammed Morsi em Nasr City, Cairo (14/8). Foto: APHomem é ferido durante confronto no Egito (27/7). Foto: APPartidários do chefe do Exército egípcio, general Abdel-Fatah el-Sissi, se manifestam em ponte que leva à Praça Tahrir, no Cairo (26/7). Foto: APHomem de joelhos agita bandeiras do Egito  em uma ponte que leva à Praça Tahrir, no Cairo (26/7). Foto: APOpositores do presidente deposto Mohammed Morsi carregam amigo ferigo em confrontos com partidários de Morsi no Cairo (23/7). Foto: APOponentes do presidente deposto Mohammed Morsi queimam pôsteres com sua foto durante confrontos no Cairo, Egito (22/03). Foto: APEgípcio com uma pistola e opositores do presidente Mohammed Morsi detêm um suposto partidário de Morsi que foi ferido em confrontos no Cairo (22/7). Foto: APPartidários do presidente deposto do Egito Mohammed Morsi jogam pedras em opositores de Morsi durante confrontos em uma ponte no centro do Cairo (15/7). Foto: APMembros da Irmandade Muçulmana protestam com máscaras de Morsi no Cairo, no Egito (13/7) . Foto: ReutersPartidária de Mohammed Morsi coloca faixa na cabeça (12/7). Foto: APPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi rezam depois da quebra do jejum durante o mês sagrado do Ramadã em Nasr City, Cairo, Egito (12/7). Foto: APPartidários do presidente deposto do Egito Mohammed Morsi seguram seus cartazes em protesto perto da Universidade do Cairo, no Egito (12/7). Foto: APVoluntários usando coletes amarelos protegem mulheres na praça Tahrir (8/7). Foto: APEgípcio chora do lado de fora de necrotério depois de carregar o corpo de seu irmão morto perto da Guarda Republicana no Cairo (8/7). Foto: APHomem mostra camiseta ensanguentada de partidário do presidente deposto Mohammed Morsi do lado de fora de hospital no Cairo (8/7). Foto: APMédico egípcio partidário de presidente deposto Mohammed Morsi é visto em hospital em Nassr City, Cairo (8/7). Foto: APCorpo de partidário de presidente deposto Mohammed Morsi é visto em ambulância no Cairo, Egito (8/7). Foto: APHomem chora em hospital improvisado depois de soldados e policiais abrirem fogo contra partidários de líder deposto Morsi (8/7). Foto: APOponentes do presidente deposto Mohammed Morsi se manifestam na Praça Tahir, no Cairo, Egito (7/7). Foto: APOponentes de Mohammed Morsi se reunem na Praça Tahir, no Cairo, no domingo (7/7). Foto: APEgípcias choram durante enterro de oponentes do presidente deposto Mohammed Morsi, que foram mortos durante confrontos no Cairo (6/7). Foto: APPartidária do presidente deposto Mohammed Morsi segura no Cairo retrato em que se leem: 'legitimidade é uma linha vermelha' e 'saia Sissi, Morsi é meu presidente' (6/7). Foto: APManifestantes contrários ao presidente deposto Mohammed Morsi arremessam pedras durante confrontos com membros da Irmandade e partidários de Morsi no Cairo (5/7). Foto: ReutersPartidários e oponentes do presidente deposto Mohammed Morsi entram em confronto na ponte 6 de Outubro, perto de Maspero, Cairo (5/7). Foto: APManifestantes islâmicos, um deles com o retrato do presidente deposto Mohammed Morsi, mostram mãos sujas de sangue após disparos do Exército no Cairo (5/7). Foto: APManifestantes que apoiam o presidente deposto Mohammed Morsi correm em meio ao gás lacrimogêneo lançado pelas forças de segurança no Cairo (4/7). Foto: ReutersPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi participam de manifestação perto da Universidade do Cairo, Egito (4/7). Foto: APPartidária segura pôster do presidente deposto Mohammed Morsi no qual se lê 'Sissi traidor', em referência ao chefe do Exército, em marcha em Nasser (4/7). Foto: APPartidários do presidente deposto Mohammed Morsi gritam perto da praça da mesquita de Raba El-Adwyia, no Cairo (4/7). Foto: ReutersMembros da Irmandade Muçulmana e partidários de presidente deposto Mohammed Morsi protestam durante cerimônia de posse de líder interino no Cairo (4/7). Foto: Reuters

O relatório
O relatório da ONG foi apresentado oficialmente em uma coletiva no Cairo, no início desta semana, em um evento que contaria com a presença de Roth e de outro membros da entidade. No entanto, eles foram barrados na entrada do Egito e ficaram 12 horas aguardando a liberação no aeroporto internacional da capital até serem deportados.

Em um comunicado oficial, a Human Rights disse que foi a primeira vez que a entidade teve membros seus impedidos de entrar no país, incluindo durante o período de quase três décadas em que o Egito estava sob o comando do ditador Hosni Mubarak.

O relatório da Humans Rights Watch é resultado de uma investigação de um ano focada em seis manifestações duramente repreendidas pelas forças de segurança - que na época estavam sob o comando do agora presidente Abdul Fattah al-Sisi - que aconteceram no Egito entre julho e agosto do ano passado 

O então general Abdul Fattah al-Sisi, chefe do Exército egípcio, acabou eleito para a presidência do país em maio, depois da destituição de Mohammed Morsi do cargo, em julho do ano passado.

Após a derrubada de poder, as Forças Armadas começaram uma repressão brutal contra seguidores da Irmandade Muçulmana.

"Dada a natureza generalizada e sistemática dessas mortes, esses assassinatos provavelmente constituem crimes contra a humanidade", acrescenta o relatório.

De acordo com Kenneth Roth, as ações militares não foram "meramente um caso de força excessiva ou mau treinamento". Elas foram resultado de uma "violenta repressão planejada pelos mais altos níveis do governo egípcio", disse o diretor executivo da Humans Rights Watch. "Muitos destes funcionários ainda estão no poder no Egito, e têm muito pelo que responder."

Na época, o governo egípcio chegou a parabenizar a Polícia e o Exército pelas ações tomadas e elogiou a contenção dos protestos. As autoridades do país disseram que os manifestantes armados teriam atacado as forças de segurança e obrigado os oficiais a serem mais duros em resposta à violência das próprias pessoas que participavam dos protestos.

Repercussão na imprensa
A notícia sobre o relatório da Human Rights Watch acusando o Egito de ter promovido um "crime contra a humanidade" foi parcialmente ignorada pelos veículos de imprensa estatais e privados do país.

A TV estatal também não mencionou a deportação da delegação da ONG dos Direitos Humanos, no último dia 10 de agosto.

Porém, o canal televisivo que apoia a Irmandade Muçulmana, o Mikamilin TV, transmitiu a entrevista coletiva na qual os resultados do relatório foram anunciados, com legendas para o público. Enquanto isso, nas mídias sociais, os egípcios criticaram a deportação dos membros da ONG.

"Barrar a delegação da Human Rights Watch na entrada do Egito! É a primeira vez na história que algo assim acontece!”, criticou o blogueiro egípcio Wael Abbas pelo Twitter, onde tem cerca de 268 mil seguidores.

A ativista Mina Fayek, que tem 5,4 mil seguidores, postou: "Se você tem um problema com o relatório da Human Rights Watch, espere até ele ser divulgado e, então, responda ao documento. Mas barrar seus membros enfraquece sua posição contrária a eles e faz com que você pareça um covarde diante do mundo".

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