Análise: Conheça as raízes históricas da súbita desintegração do Iraque

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Da criação do país ao regime de Saddam Hussein, a história do Iraque foi marcada por episódios de intensa violência e disputas

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O atual avanço do Estado Islâmico - milícia sunita anteriormente conhecida como Isis - é, essencialmente, uma tentativa de reacomodar fronteiras regionais definidas por razões políticas.

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Junto com a dificuldade de controlar o conflito na Síria, o avanço do grupo é a tentativa mais séria atualmente de redesenhar o mapa do Oriente Médio.

Se não for barrada, a milícia - que já declarou um califado no leste da Síria e oeste do Iraque - pode por em risco não apenas as minorias étnicas e religiosas iraquianas, mas o próprio Iraque como Estado soberano.

O Iraque parece se desintegrar a cada crise e uma das questões é quando tudo começou a sair errado.

Poder para poucos

As fronteiras do Oriente Médio hoje são, em grande parte, um legado da Primeira Guerra Mundial. Foram estabelecidas pelas potências coloniais com o fim e a divisão do Império Otomano.

A Grã-Bretanha, potência colonial, impôs no atual Iraque o reino Hachemita, que prevaleceu sobre outras comunidades, como xiitas e curdos - uma dinâmica recorrente na história turbulenta do país.

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A monarquia foi derrubada por um golpe do partido Baas, um movimento nacionalista e de modernização semelhante ao que levou Gamal Nasser ao poder no Egito.

Com a queda da monarquia, assume Saddam Hussein, cabeça de um regime dominado pela facção sunita que também reprimiu reivindicações dos xiitas e curdos.

O apoio do Ocidente a Saddam durante a guerra Irã-Iraque só fortaleceu sua liderança brutal.

Mas o governo do Partido Baas foi destruído pela invasão americana e britânica de 2003. Saddam Hussein foi deposto, julgado e executado pelo novo governo iraquiano. O exército iraquiano foi desmontado e deu lugar a novas forças de segurança.

A guerra que os neoconservadores americanos tinham imaginado como meio de levar a democracia à região, estabelecendo novos arranjos políticos e unindo todas as comunidades, produziu um sistema dominado por um estado de maioria xiita.

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Foi essa maioria que elegeu o primeiro-ministro Nouri al-Maliki, que acusou a população sunita de governar ignorando as necessidades de outras comunidades.

Muitos haviam se perguntando, depois da guerra, se o Iraque poderia permanecer um Estado unitário e uma das razões por trás da questão foi o nível significativo de autonomia alcançada pelos curdos no norte do país.

Membros do Exército feminino treinam habilidades de combate antes de combaterem o Estado Islâmico em acampamento militar no Iraque (18/09). Foto: ReutersMilitar curdo lança morteiros em direção Zummar, controlada pelo Estado Islâmico, em Mosul, Iraque (15/09). Foto: ReutersMilitantes do Estado Islâmico levam soldados iraquianos capturados depois de assumir base em Tikrit, Iraque (junho/2014). Foto: APObama prometeu ofensiva com ataques aéreos na Síria e no Iraque para combater EI (12/09). Foto: ReutersMilitares curdos em tanque enfrentam militantes do Estado islâmico em Mosul, Iraque (7/09). Foto: ReutersMilitante curdo dá cobertura durante confrontos do Estado Islâmico na linha de frente da vila de Buyuk Yeniga, Iraque (4/09). Foto: ReutersMilicianos xiitas do Iraque disparam suas armas enquanto celebram a quebra de cerco do Estado Islâmico em Amerli (1/09). Foto: ReutersGrupo carrega caixão de militante xiita iraquiano da Organização Badr, que foi morto em confrontos com militantes do Estado Islâmico no Iraque (1/09). Foto: ReutersCriança chora em helicóptero militar após ser retirada pelas forças iraquianas de Amerli, ao norte de Bagdá (29/08). Foto: ReutersCurdos e militantes islâmicos lutam no norte do Iraque (12/08). Foto: ReutersIraquianos carregam retratos do primeiro-ministro iraquiano Nuri al-Maliki enquanto se reúnem em apoio a ele em Bagdá, Iraque (11/08). Foto: ReutersMilhares de iraquianos fugiram com avanço de militantes do EI, inclusive integrantes de minorias religiosas (9/08). Foto: APTropas curdas implantam segurança intensa contra os militantes islâmicos do Estado em Khazer (8/08). Foto: ReutersTropas curdas patrulham em um tanque durante operação contra militantes do Estado Islâmico em Makhmur, nos arredores da província de Nínive, Iraque (7/08). Foto: ReutersParentes choram a morte de homem da YPG, morto durante confrontos com combatentes do Estado Islâmico na cidade iraquiana de  Rabia, na fronteira do Iraque-Síria (6/08). Foto: ReutersVoluntários xiitas do Exército iraquiano se recuperam em hospital após serem feridos em confrontos com militantes do Estado Islâmico em Basra, sudeste de Bagdá (6/08). Foto: ReutersMulher visita túmulo de um parente em cemitério durante as celebrações do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, em Bagdá (28/07). Foto: ReutersSoldado iraquiano perto de corpo de um membro do Estado Islâmico que morreu durante confrontos com forças iraquianas em Tikrit, Iraque (19/07). Foto: ReutersBandeira preta usada pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante flamula de delegacia danificada em Mosul, norte do Iraque (1/7). Foto: APVoluntário xiita do Conselho Supremo Islâmico Iraquiano aponta arma durante treinamento em Najaf, Iraque (26/6). Foto: ReutersMembros das forças de segurança iraquianas tomam suas posições durante reforço de segurança no oeste de Bagdá, Iraque (24/6). Foto: ReutersXiitas iraquianos se preparam para patrulhar a aldeia de Taza Khormato, na rica província petrolífera de Kirkuk, no Iraque (22/6). Foto: APCombatentes xiitas levantam suas armas e entoam palavras de ordem após autoridades pedirem ajuda para conter os insurgentes em Sadr, em Bagdá, Iraque (17/06). Foto: APManifestantes gritam em favor do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em frente do governo provincial de Mosul (16/4). Foto: APCombatentes tribais xiitas mostram suas armas enquanto tomam parte de Dujail, ao norte de Bagdá, Iraque (16/06). Foto: ReutersCombatentes tribais xiitas levantam suas armas e gritam palavras de ordem contra sunita Exército Islâmico em Basra, Iraque (16/6). Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL mirando contra soldados à paisana depois de tomar base in Tikrit, Iraque. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque
. Foto: APImagem postada em site militante em 14/6 parece mostrar membros do EIIL com soldados iraquianos à paisana capturados após tomada de base em Tikrit, Iraque. Foto: APCombatentes iraquianos xiitas seguram suas armas enquanto gritam palavras de ordem contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante em Cidade Sadr, Bagdá (13/6). Foto: APVoluntários esperam para se juntar ao Exército e combater militantes predominantemente sunitas em Bagdá, Iraque (13/6). Foto: ReutersPresidente dos EUA, Barack Obama, fala sobre a situação no Iraque em pronunciamento na Casa Branca, em Washington (13/6). Foto: APImagem postada em Twitter militante mostra membro do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com sua bandeira em base militar na Província de Ninevah, Iraque (12/6). Foto: APImagem publicada por militantes no Twitter mostra combatentes do Estado Islâmico do Iraque e do Levante em local na fronteira entre o Iraque e a Síria (12/6). Foto: APMuitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por insurgentes sunitas (13/6). Foto: ReutersForças de segurança curda se posicionam do lado de fora da cidade petrolífera de Kirkuk após abandono de tropas iraquianas (12/6). Foto: APVeículos queimados pertencentes às forças de segurança iraquianas são vistos em posto de controle no leste de Mosul (11/6). Foto: ReutersPolicial federal do Iraque monta aguarda enquanto colega faz buscas em carro em posto de controle de Bagdá, Iraque (11/6). Foto: APFamílias que fogem da violência na cidade de Mosul esperam em posto de controle nos arredores de Irbil, região do Curdistão iraquiano (10/6). Foto: ReutersRefugiados que deixam Mosul se dirigem à região autônoma curda em Irbil, Iraque, a 350 km a norte de Bagdá (10/6). Foto: APMilitares se preparam para assumir suas posições durante confrontos com militantes no norte da cidade de Mosul, Iraque (9/06). Foto: AP

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Atualmente, as forças armadas da região do Curdistão, onde está uma das mais ricas reservas de petróleo, combatem os militantes do Estado Islâmico. O Curdistão também recebeu refugiados que fugiram da ofensiva do EI.

Porém, um elemento central desta receita deixou de existir a partir da retirada das tropas americanas do país.

Novo sectarismo

Apesar de planos iniciais de manter um contingente militar no Iraque para assessorar o exército iraquiano, Bagdá e Washington não chegaram a um acordo sobre esse tema. As últimas tropas americanas se retiraram em dezembro de 2011, deixando a segurança do país nas mãos das suas próprias forças de segurança.

Os Estados Unidos tinham feito progressos significativos na luta contra os grupos jihadistas ligados à Al Qaeda ao se aproximar de outros grupos sunitas. Sem os americanos, estes acordos entraram em colapso.

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Os sunitas ficaram cada vez mais vulneráveis a um exército dominado pelos xiitas. Os excessos das forças de segurança do Iraque serviram de incentivo para grupos extremistas recrutarem militantes sunitas.

Um grande paradoxo da derrubada de Saddam Hussein pelas tropas americanas é que a destruição do Iraque como força regional acelerou e facilitou o crescimento do Irã. Teerã enxergou os xiitas iraquianos como aliados em uma batalha regional mais ampla.

Talvez por causa do apoio iraniano, o triunfo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki provocou a rejeição de grupos sunitas, piorando a situação de segurança na região.

Recentemente, o avanço dos militantes do EI resultou em um fato inédito: Irã e os Estados Unidos dialogaram, pela primeira vez, sobre a situação no Iraque, não como inimigos, mas como potências regionais preocupadas com um rival comum.

Jihad regional

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O sectarismo e a divisão entre sunitas e xiitas são vistos por muitos analistas como o dilema do ovo e da galinha: o problema seriam as diferenças sectárias ou as falhas do Estado iraquiano nos âmbitos social e econômico, gerando mais divisões?

Apesar da riqueza em petróleo, a maioria dos iraquianos vive em condições de pobreza e os níveis de corrupção no país são altos.

O premiê iraquiano, acusado de favorecer seus seguidores, continua no poder apesar das críticas da oposição e mesmo de Washington, e agora tenta um terceiro mandato.

Os iraquianos, mesmo focados em seus próprios problemas, notaram como as correntes da Primavera Árabe vieram e se foram: a transformação política no Egito e, claro, os conflitos na vizinha Síria.

O apoio dos países do Golfo aos militantes sunitas extremistas facilitou o surgimento e a consolidação de grupos como o EI, com uma agenda regional cada vez mais ambiciosa.

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O crescimento da dissidência jihadista na Síria também teve implicações para o outro lado da fronteira. Há relatos consistentes de que o governo sírio de Bashar al-Assad subestimou esses insurgentes e se concentrou mais na luta contra os militantes mais moderados, apoiados pelo Ocidente.

Isso deu espaço para o EI estabelecer suas próprias estruturas em áreas de baixo controle

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