"Imensamente feliz", diz argentino sobre reencontro com avó 35 anos depois

Por Agência Brasil | - Atualizada às

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Ignacio Hurbán era procurado pela líder da organização Avós da Praça de Maio desde os tempos da ditadura no país

Agência Brasil

Com três palavras publicadas em sua página no Facebook, nesta quinta-feira (7), o músico e compositor argentino Ignacio Hurbán resumiu a descoberta de sua verdadeira identidade e o primeiro encontro com a avó, Estela Carlotto, presidente da organização Avós da Praça de Maio. "Abraço. Imensamente feliz", escreveu ao comentar o reencontro com ela, que descobriu só nesta semana que seu 14º neto estava vivo.

Reuters
A presidente do grupo, Estela de Carlotto, durante evento realizado em Buenos Aires em março

A organização que Estela comanda é integrada por mulheres de mais de 70 anos e funciona como uma verdadeira agência de detetives: elas buscam as 500 crianças desaparecidas ao longo da ditadura argentina (1976-1983), muitas delas nascidas em cativeiro - hoje homens e mulheres de meia-idade.

Até agora, as avós da Praça de Maio encontraram 114 netos - o último deles, Guido Montoya Carlotto, filho de Laura Carlotto e Walmir Montoya, dois integrantes do grupo guerrilheiro Montoneros, assassinados na ditadura. Laura, filha de Estela, estava grávida quando foi sequestrada, torturada e morta. O corpo dela foi entregue à família (caso raro, na Argentina da época, onde 30 mil opositores do regime desapareceram sem deixar rastro). No entanto, o filho de Laura, que nasceu enquanto ela estava presa, sumiu.

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Com o retorno da democracia, as Avós da Praça de Maio criaram um banco de sangue com amostras genéticas de todos os parentes dos desaparecidos da ditadura para que busca tivesse continuidade depois da morte delas. Ignacio Hurbán, como muitos outros filhos de desaparecidos, começou a duvidar de suas origens e submeteu-se a um exame de DNA. Descobriu que, na verdade, era Guido e que suas duas avós estavam vivas: Estela Carlotto, de 83 anos, em Buenos Aires, e Hortensia Montoya, de 91 anos, em Santa Cruz, no extremo sul da Patagônia argentina.

Na quarta-feira (6), um dia após ter descoberto que seu décimo quarto neto estava vivo, Estela e seus três filhos se encontraram com ele. Na véspera, ela tinha dito que sempre teve esperança de poder “abraçá-lo antes de morrer”. Estela esperou 35 anos, mas o abraço finalmente aconteceu. Começa agora um longo processo, em que Ignacio, com a ajuda de psicólogos da organização, terá de assumir a nova identidade e reescrever sua própria história.

Estela Carlotto pediu à imprensa que respeite a privacidade de Ignacio – normalmente, a identidade dos netos descobertos é mantida em segredo, até que eles se sintam prontos para torná-la pública ou em casos em que são obrigados a prestar depoimento na Justiça. Pela legislação argentina, o desaparecimento de pessoas e o sequestro de crianças na ditadura são crimes que não prescrevem. Se os pais adotivos participaram direta ou indiretamente do ocultamento da verdadeira identidade das crianças sequestradas ou sabiam que eram filhos de desaparecidos são considerados “apropriadores” e processados.

Por essa mesma razão, muitos filhos de desaparecidos, com medo de serem responsáveis pela punição da única família que conheceram, temem fazer o teste de DNA ou esperam a morte dos pais adotivos para fazê-lo. No caso de Ignacio, os “apropriadores” morreram e ele foi entregue a outro casal, que trabalhava em uma fazenda. Estela Carlotto pediu à Justiça que espere um tempo antes de convocar o neto para depor, como costuma fazer em muitos casos, para dar à pessoa o tempo necessário para assimilar a nova realidade.

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