Venezuela chama ex-tesoureiro de Che Guevara para ajudar em 'nova revolução'

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Orlando Borrego vai comandar o processo de reestruturação econômica e política do país a convite do próprio presidente

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O homem convidado pelo próprio presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, para conduzir uma "revolução dentro da revolução" no país é um economista que foi tesoureiro de Che Guevarra.

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CC - Alex Crawford
Orlando Borrego se dedica a escrever e lecionar atualmente


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Trata-se de Orlando Borrego, um cubano que, aos 21 anos, entrou para as fileiras lideradas pelo revolucionário argentino nas montanhas da ilha, há pouco mais de meio século. Após o triunfo da revolução cubana, em 1959, Borrego virou um dos homens fortes dentro do governo cubano, sobretudo na área econômica.

Agora que a Venezuela se encontra em sua pior situação econômica em décadas, o ex-guerrilheiro e hoje professor de economia chega para ajudar Maduro a enfrentar a crise.

"Borrego foi um funcionário leal e é uma ótima pessoa, comprometida com os princípios da revolução socialista, e incorruptível", disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, um dos biógrafo de Guevara, o americano Jon Lee Anderson.

Revolução dentro da revolução

O governo Maduro passa por um momento definidor, não apenas porque a economia está a caminho de uma recessão, mas porque vários dos assessores mais próximos do ex-presidente Hugo Chávez se tornaram os maiores críticos do "herdeiro" da revolução.

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A três semanas do congresso do partido do governo, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), as bases do chavismo parecem estar divididas entre facções, algumas mais radicais que outras.

A divisão existe há alguns meses, mas uma dura carta escrita pelo ministro de Planificação, Jorge Giordani, arquiteto do modelo econômico socialista instalado por Chávez, ao deixar o governo, deixou claros os rachas.

Maduro e seus partidários responderam às críticas com um chamado à lealdade e anunciaram uma restruturação do governo, qe será coordenada por Borrego.

"Orlando Borrego (...) foi chamado para fazer uma revolução total e profunda na administração pública, na administração do Estado, uma revolução dentro da revolução", disse Maduro na terça-feira em seu programa de rádio e televisão. Com isso, rumores sobre trocas ministeriais explodiram.

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Polícia nacional da Venezuela dispara gás lacrimogêneo enquanto manifestante antigoverno se ajoelha segurando pedra durante confrontos em Caracas (6/4). Foto: ReutersManifestantes mostram cartazes com fotos de ativistas mortos durante protestos antigoverno na Plaza Altamira em Caracas, Venezuela (20/3). Foto: APPartidários do líder da oposição Leopoldo López se reúnem para protesto que pede a libertação do político após um mês de sua prisão, na Venezuela (18/03). Foto: APGuardas das forças bolivarianas patrulham a Plaza Altamira após tomarem o controle do local em Caracas, Venezuela (17/3). Foto: APEstudante da Universidade Central da Venezuela grita contra governo de Nicolás Maduro durante protesto em Caracas (12/3). Foto: APManifestante antigoverno corre em meio ao gás lacrimogêneo lançado pela polícia durante protesto em Caracas, Venezuela (12/3). Foto: ReutersManifestante joga lata de gás lacrimogêneo em direção à polícia durante protesto antigoverno em Caracas, Venezuela (11/3). Foto: APGuardas prendem manifestante durante conflitos entre ativistas e motociclistas em Los Ruices, Venezuela (10/3). Foto: APPolícia impede passagem de manifestantes que protestavam contra escassez de alimentos (8/3). Foto: APManifestantes se preparam para jogar coquetéis molotov durante confrontos em Caracas, Venezuela (6/3). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana se protegem de fogos de artifício lançados contra eles por manifestantes em Caracas, Venezuela (março/2014). Foto: APManifestantes seguram cartazes com imagens de venezuelanos que foram mortos nas duas últimas semanas durante marcha em Caracas (28/2). Foto: APManifestantes rolam cano de água na tentativa de bloquear uma rodovia importante em Caracas, Venezuela (27/02). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana avançam em direção a protestos antigoverno em Valencia, Venezuela (26/2). Foto: APManifestante segura placa em frente de cordão da Guarda Nacional Bolivariana durante protesto perto da Embaixada de Cuba em Caracas, Venezuela (25/2). Foto: APObjetos colocados por manifestantes da oposição bloqueiam estrada no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APOpositor caminha perto de acusação feita a presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em rua no bairro de Altamira, Caracas (21/2). Foto: ReutersManifestante envolto com a bandeira da Venezuela coloca mais objetos em barricada em chamas no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APPartidários do governo venezuelano marcham no centro de Caracas (20/2). Foto: APManifestante levanta os braços em direção à polícia que lança gás lacrimogêneo em bairro de Caracas, Venezuela (19/2). Foto: APMiss Génesis Carmona é levada de moto a hospital. Ela morreu após ter sido atingida por disparo na cabeça em 18/2. Foto: Reprodução/TwitterManifestante usa máscara caseira para se proteger de gás durante protestos em avenida de Caracas, Venezuela (18/02). Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente Nicolás Maduro durante marcha em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APLeopoldo López, líder da oposição da Venezuela, é preso vestido de branco e segurando flor em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APManifestante cobre a boca com pano durante protesto contra a censura do governo venezuelano em Caracas (17/2). Foto: APManifestante atira pedras na Força Nacional Bolivariana durante protesto na Venezuela (15/2). Foto: APManifestantes fecham a principal via da Venezuela (15/2). Foto: ReutersManifestantes na Venezuela são dipersados com canhões de água e gás lacrimogêneo (15/2). Foto: Carlos Garcia Rawlins/ReutersUniversitária segura cartaz em que se lê 'E quem tem as armas?' enquanto se manifesta contra o presidente Nicolás Maduro em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes choram durante vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes comparecem à vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APJovem segura livro marcado em espanhol com a frase 'Esta é a minha arma' durante protesto contra repressão de estudantes em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudante segura cartaz em que se lê 'Paz e liberdade' durante manifestação em Caracas, Venezuela (13/2)
. Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante protesto em Caracas (13/2)
. Foto: AP

De camponês a guerrilheiro e ministro

Borrego, também conhecido como "Vinagrete", nasceu no estado de Holguín, em Cuba, como o sétimo irmão de uma família cujo pai era taxista e a mãe, professora.

Quando jovem, trabalhava à noite após estudar contabilidade, até que se juntou à coluna liderada por Guevara nas montanhas de Escambray.

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No livro de Anderson, Uma vida revolucionária, Borrego diz que, mais que ao socialismo ou ao comunismo, sua devoção era por líderes revolucionários como Fidel e Guevara.

"Queríamos uma revolução que fosse justa, que fosse honrada, voltada para os interesses do país, mas de comunismo nada", disse ao jornalista da revista The New Yorker.

Socialista crítico

Já com Fidel no poder, Borrego foi nomeado assessor de Guevara no Ministério das Indústrias. Antes de ir para a Bolívia, onde morreu nas mãos do Exército boliviano, Che deixou com Borrego sua famosa crítica da política econômica soviética, um livro que, segundo Anderson, "Fidel não deixou que publicasse até recentemente".

Depois da morte de Guevara em 1967, Borrego dirigiu o Ministério do Açúcar. Foi nessa época, em 1970, que Fidel lançou um plano prevendo uma safra de 10 milhões de toneladas de açúcar - o principal produto de exportação do país - para dar impulso à empobrecida economia cubana.

Segundo relatos de um jornalista cubano à BBC Mundo, Borrego "encarou Fidel, disse que isso era uma loucura, que o país não estava preparado".

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"Qual foi a consequência? Destruíram-no (a Borrego), até na imprensa riam dele", conta.

O projeto das dez safras de fato não cumpriu seu objetivo: produziu 8 milhões de toneladas. Atualmente, Borrego, de 78 anos, se dedica a escrever e dar aulas, embora tenha, nos últimos anos, segundo Anderson, sido usado como assessor informal dos ministérios do Transporte e do Turismo.

"É um apoiador incondicional da revolução. É próximo de Fidelito, o filho mais velho de Fidel, e do próprio Raul (Castro)."

Mas só o tempo dirá se este "apoiador incondicional da revolução cubana" é o home certo para fazer "uma revolução dentro da revolução bolivariana" na Venezuela.

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