Japão aprova resolução que encerra proibição de ação militar no exterior

Por Reuters |

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Mudança é o mais dramático movimento político desde que o Japão montou suas Forças Armadas pós-guerra há 60 anos

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O Japão deu um histórico passo na direção oposta de seu pacifismo pós-guerra nesta terça-feira, ao encerrar uma proibição que mantinha suas forças militares longe de combates internacionais desde 1945, uma vitória para o primeiro-ministro Shinzo Abe, mas uma medida que irritou a China e preocupa muitos eleitores japoneses.

NYT: Aos poucos, Japão se afasta do pacifismo

AP
Manifestante grita palavras de ordem do lado de fora do gabinete do premiê japonês, Shinzo Abe, que redefiniu questões militares do Japão

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A mudança, o mais dramático movimento político desde que o Japão montou suas Forças Armadas pós-guerra há 60 anos, vai ampliar as opções militares do Japão ao encerrar a proibição sobre o exercício de “autodefesa coletiva” ou a auxiliar um país aliado sob ataque.

O gabinete de Abe adotou uma resolução que delineia a mudança, que também afrouxa os limites sobre atividades em operações de manutenção de paz lideradas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e incidentes de “zona cinza” que não representem uma guerra em escala total, disse o ministro da Defesa, Itsunori Onodera.

Há muitos anos restringida pela Constituição do pós-guerra, as Forças Armadas do Japão se tornarão mais alinhadas com os militares de outros países em termos de suas opções, mas o governo ficará receoso em despachar tropas para operações multilaterais como a invasão do Iraque liderada pelas EUA em 2003.

Abe repetiu esse posicionamento nesta terça-feira, ao salientar que o Japão tem de responder a um ambiente de segurança cada vez mais duro. "Não há mudança no princípio geral de que não podemos enviar tropas para outros países”, disse Abe em uma coletiva televisionada ao lado de um cartaz com mães japonesas e crianças fugindo de uma hipotética zona de combate em uma embarcação dos EUA sob ataque.

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A nova política irritou a China, cujos laços com o Japão se desgastaram por causa de um impasse marítimo, desconfiança e o legado passado da agressão militar japonesa.

“A China se opõe à fabricação japonesa de uma ameaça da China para promover sua agenda política doméstica”, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Hong Lei, em uma coletiva em Pequim. “Exigimos que o Japão respeite as preocupações razoáveis de segurança de seus vizinhos asiáticos e prudentemente lide com o assunto relevante.”

A Coreia do Sul, como o Japão, é aliada dos EUA, mas ainda lamenta a colonização na Península Coreana imposta por Tóquio durante parte do século 20 e disse que não aceitaria qualquer mudança de política que afetasse sua segurança a menos que consentisse com isso.

Os conselheiros de Abe disseram que Tóquio não deve tomar medidas envolvendo países amigáveis sem esse consentimento.

A mudança, no entanto, será bem recebida por Washington, que há tempos pede que Tóquio se torne um parceiro mais igualitário, e também por outros países do sudeste asiático que mantêm impasses com a China.

Conservadores dizem que o Artigo 9 da Constituição, que renuncia à prática da guerra, limitou a capacidade do Japão de se defender, e afirmam que as mudanças no equilíbrio de poder regional, incluindo o avanço da China, significam que as políticas internas têm de ser mais flexíveis.

Alguns eleitores se preocupam com o envolvimento em guerras internacionais, ao passo que outros estão irritados com o que enxergam como um descumprimento do Artigo 9 sem os procedimentos formais de emenda constitucional. A Constituição nunca foi revisada desde que foi adotada após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, em 1945.

No domingo, um homem ateou fogo em si mesmo perto de um movimentado cruzamento em Tóquio — um raro ato de protesto no Japão — após se manifestar contra a reinterpretação de Abe sobre o Artigo 9.

Enquanto Abe discursava, milhares de manifestantes, incluindo aposentados, donas de casa e trabalhadores na saída do trabalho, se juntaram próximos ao gabinete do primeiro-ministro com cartazes e gritando “Não destrua o Artigo 9”, “Somos contra a guerra”, “Chega de Abe”.

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