Ausência de nome para substituir Maliki diminui esperanças de formação de novo governo para evitar fragmentação do país

Parlamentares iraquianos recém-eleitos iniciaram os trabalhos nesta terça-feira sob pressão para nomear um governo de unidade nacional e evitar divisões no país após uma ofensiva de militantes islâmicos sunitas, que declararam um "califado" para governar todos os muçulmanos do mundo.

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Membros do novo Parlamento iraquiano discutem durante sua primeira sessão na altamente fortificada Zona Verde, em Bagdá
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Membros do novo Parlamento iraquiano discutem durante sua primeira sessão na altamente fortificada Zona Verde, em Bagdá

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No entanto, sunitas e curdos abandonaram a primeira sessão depois que os xiitas não apontaram um nome para substituir o primeiro-ministro Nuri al-Maliki, eliminando as esperanças de que um governo de unidade seria formado rapidamente para evitar a fragmentação do Iraque.

Os EUA, a Organização das Nações Unidas e o próprio clero xiita do Iraque pressionaram duramente para que os políticos formassem um governo inclusivo para salvar o país, num momento em que os insurgentes sunitas se aproximam de Bagdá.

Mas com a recusa dos xiitas de indicar um primeiro-ministro, sunitas e curdos não quiseram voltar ao plenário após o recesso da câmara na fortificada "zona verde" de Bagdá.

O Parlamento provavelmente não vai reunir-se novamente em pelo menos uma semana, o que deixa o país num estado de limbo político, com Maliki se agarrando ao poder como premiê interino, rejeitado por sunitas e curdos.

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Milícia sunita: Entenda o que é o Estado Islâmico do Iraque e do Levante

Tropas iraquianas lutam há três semanas contra combatentes liderados pelo grupo anteriormente conhecido como o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Os combates têm se intensificado nos últimos dias na cidade natal do ex-ditador Saddam Hussein, Tikrit .

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O EIIL, que domina faixas de território em um arco territorial que vai de Aleppo, na Síria, até perto da margem oeste de Bagdá, no Iraque, mudou de nome recentemente, passando a chamar-se simplesmente de Estado Islâmico. O movimento declarou seu líder, o guerrilheiro Abu Bakr al-Baghdadi, como o "califa", um título histórico para o governante de todo o mundo muçulmano.

A insurgência no Iraque é apoiada por outros grupos armados sunitas que se ressentem do que consideram ser uma perseguição do governo de Maliki.

Inimigos de Maliki o culpam pelo rápido avanço dos insurgentes sunitas que tomaram a maior cidade do norte, Mosul, em 10 de junho e, desde então, dominam quase todas as áreas sunitas do país.

Apesar de a coalizão de Maliki ter conquistado a maioria dos assentos, ele ainda precisa de aliados para governar. Sunitas e curdos exigem sua saída, argumentando que ele renegou acordos de partilha de poder e favoreceu sua própria seita, inflamando o ressentimento que alimenta a insurgência.

Tropas dos EUA

Os EUA não pediram publicamente que Maliki deixe o cargo, mas exigiram um governo mais inclusivo em Bagdá como condição para fornecer mais ajuda. Em outro movimento para aumentar sua presença militar no Iraque, os EUA disseram na segunda-feira que enviariam mais 300 soldados para o país.

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O porta-voz do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, almirante John Kirby, disse que cerca de 200 combatentes chegaram ao país no domingo para reforçar a segurança na Embaixada dos EUA, as suas instalações de apoio e o Aeroporto Internacional de Bagdá. Outros cem oficiais também deveriam ir para Bagdá para "fornecer suporte de segurança e logística".

"Essas são forças extras, separadas dos cerca de 300 funcionários cujo envio o presidente autorizou para estabelecer dois centros de operações conjuntos e realizar uma avaliação de como os EUA podem fornecer suporte adicional para as forças de segurança do Iraque", disse Kirby em comunicado.

O governo de Maliki, com a ajuda de milícias sectárias xiitas, conseguiu evitar a entrada dos militantes sunitas na capital, mas não foi capaz de recuperar o controle das cidades que suas Forças Armadas abandonaram.

Apoio do Irã

Também nesta terça-feira, vice-ministro de Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir-Abdollahian, afirmou que o país persa ainda não recebeu nenhuma solicitação do Iraque para que lhe forneça armas, mas reiterou que Teerã está disposto a fazer isso se for requisitado.

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O chanceler afirmou durante uma visita a Moscou que o Irã não tem plano algum de envio de tropas ao Iraque em apoio às forças do governo que combatem militantes islamitas. "Não temos nenhuma tropa ou forças armadas em solo iraquiano agora", disse em uma coletiva por intermédio de um tradutor. "Não temos temos nenhum plano de enviar tropas para o Iraque."

"O Iraque não nos apresentou nenhum pedido de armas. Mas, se fizer isso, então, no âmbito da lei e das normas internacionais, bem como acordos bilaterais, as armas que o Iraque precisar para conduzir um combate eficaz contra o terrorismo serão providenciadas", disse.

Embora tanto os Estados Unidos quanto o Irã se oponham à ofensiva dos militantes sunitas, Amir-Abdollahian acusou Washington de estar por trás dos recentes eventos no Iraque.

"O que aconteceu recentemente no Iraque é claramente resultado da interferência estrangeira, de um plano dos EUA. Os americanos querem criar uma segunda Ucrânia no Iraque", disse, referindo-se às semanas de conflito entre forças do governo e combatentes separatistas pró-Rússia no leste da Ucrânia. "Somos fortemente contra a divisão do Iraque", acrescentou.

*Com Reuters

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