A reunião entre o secretário de Estado e o premiê iraquiano não deve trazer resultado imediato; grupo ocupa áreas do noroeste

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, chegou a capital do Iraque, Bagdá, nesta segunda-feira (23) enquanto insurgentes sunitas expandem seu controle sobre cidades no noroeste do país.

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Ammar al-Hakim, líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, se reúne com o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, à esq., em Bagdá
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Ammar al-Hakim, líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, se reúne com o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, à esq., em Bagdá


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A reunião entre Kerry e o primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki não deve ser amigável, uma vez que Washington sugeriu que o premiê renuncie como primeiro passo para conter o avanço do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) .

Nem deve trazer quaisquer resultados imediatos ou tangíveis sobre a crise, já que al-Maliki não dá nenhum sinal de que pretende deixar o cargo e autoridades iraquianas há muito tempo tem ouvido - e finalmente ignorado - o conselho dos EUA para evitar parecer que o país está por trás da ação militar em Bagdá, tendo em vista a ocupação americana na capital na década passada.

Mesmo assim, depois de sofrerem juntos mais de oito anos de guerra - que matou cerca de 4.500 soldados norte-americanos e mais de 100 mil iraquianos - os países aliados não estão dispostos a se afastarem da perspectiva real da nação do Oriente Médio cair em um novo ataque sectário.

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"Este é um momento crítico onde juntos devemos exortar os líderes do Iraque a superar as motivações sectárias e formar um governo unido em sua determinação de satisfazer as necessidades de seus cidadãos e falar sobre as demandas de seu povo", disse Kerry um dia antes, no Cairo.

Kerry estava na região, em parte, para se encontrar com o presidente egípcio, Abdel-Fattah el-Sissi, e também para discutir uma solução para acabar com o derramamento de sangue pela milícia do EIIL. O secretário de Estado chegou a capital iraquiana apenas um dia depois que os militantes sunitas capturaram dois postos fronteiriços chave, um ao longo da fronteira com a Jordânia e o outro com a Síria.

Suas últimas vitórias expandiram consideravelmente o número de territórios sob controle da milícia apenas duas semanas depois que o grupo começou a ocupar áreas ao norte do Iraque, aumentando a pressão para que al-Maliki se afaste do governo.

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Há relatos ainda de que os insurgentes estão tentando tomar o controle de uma barragem perto da cidade de Haditha - sua destruição pode danificar a rede elétrica do país. O controle das fronteiras com a Síria ajudaria os militantes a obter armamento roubado de armazéns iraquianos e aumentaria sua capacidade de lutar contra as forças do governo sírio sitiados.

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Se os insurgentes sunitas obtiverem sucesso em sua missão de proteger o enclave, a ação poderia abalar ainda mais o já volátil Oriente Médio e servir como um ímã para jihadistas de todo o mundo. No norte, as tropas fugiram diante do avanço dos militantes, abandonando armas, veículos e outros equipamentos militares. 

A ocupação de domingo pelos militantes na fronteira com a Jordânia e a Síria seguiu à queda na sexta-feira e sábado das cidades de Qaim, Rawah, Anah e Rutba, todas na província de Anbar, onde os militantes têm desde janeiro controlado a cidade de Fallujah e partes da capital da província, Ramadi.

Mesmo antes de as tropas dos EUA deixarem o Iraque no final de 2011, uma insurgência sunita impiedosa tentava abater o país com carros-bomba, explosões de beira de estrada, ataques suicidas e assassinatos, visando principalmente atingir o governo xiita, suas forças de segurança e peregrinos.

Desde o início deste ano, especialmente neste mês, a milícia ultrapassou várias cidades do oeste e norte do Iraque e no fim de semana passado já controlava vários postos de fronteira entre o Iraque e a Síria.

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A guerra civil de três anos da Síria - onde rebeldes sunitas estão lutando para derrubar o presidente Bashar Assad, cuja seita alauíta é uma ramificação do xiismo - insurgentes iraquianos atravessam regularmente a fronteira para ganhar recrutas, financiamento e armas. Anos de instabilidade política em Bagdá alimentaram a raiva dos sunitas contra o governo liderado pelos xiitas, já que o grupo se sentia impotente e viu seus líderes alvejados pelas forças de segurança de al-Maliki.

Um alto funcionário do Departamento de Estado disse que a recente marcha dos insurgentes em Bagdá diminuiu, mas ainda há a preocupação de o EIIL atacar o santuário xiita de cúpula dourada no Imam al-Askari, em Samarra. Essa cidade, território sunita no centro-norte do Iraque, foi o local do atentado bomba de 2006, que desencadeou a pior de luta sectária da guerra. Na semana passada, o líder da maioria no Senado, Harry Reid, declarou que o Iraque vive uma guerra civil.

O funcionário disse que Kerry não vai pedir a renúncia a al-Maliki, como alguns nos EUA e nos países árabes sunitas no Oriente Médio têm exigido, porque isso "não depende de nós". No entanto, Kerry deve pedir a al-Maliki para criar rapidamente um novo governo que seja muito mais sensível às demandas sunitas e curdos para empregos e um sistema jurídico justo.

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Tanto o presidente Barack Obama quanto o principal clérigo xiita do Iraque, o grande aiatolá Ali al-Sistani, também pediram a al-Maliki para formar rapidamente um governo inclusivo, que promova os interesses de todos os grupos étnicos e religiosos do Iraque.

Kerry declarou no domingo que os Estados Unidos não iriam definir ou escolher quem dirige Bagdá. Ele afirmou, contudo, que o governo norte-americano notou a insatisfação entre curdos, sunitas e alguns xiitas com o modo de Maliki governar o país.

Ocupações

Militantes sunitas assumiram o controle de um posto de controle na fronteira entre o Iraque e a Jordânia na noite de domingo, depois que o Exército do Iraque se retirou da área após um confronto com rebeldes, disseram fontes do setor de inteligência iraquiano e jordaniano.

A mudança ocorreu depois que militantes sunitas liderados pelo EIIL tomaram o controle de pontos de passagem no norte do Iraque, na fronteira com a Síria, seguindo sua meta de formar um "califado" em áreas dos dois países, o que vem alarmando o Oriente Médio e o Ocidente.

Não ficou imediatamente claro se a tomada da passagem iraquiano-jordaniana de Turaibil por membros de tribos é parte do amplo avanço do EIIL, que também ajudou o grupo islamita a garantir linhas de suprimento. Fontes no Exército da Jordânia disseram que suas tropas estão há dias em estado de alerta ao longo dos 181 quilômetros da fronteira com o Iraque, para afastar "qualquer ameaça potencial observada".

*Com BBC, AP e Reuters

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