Polícia não fez nada para impedir linchamento, diz marido de paquistanesa morta

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Farzana Parveen estava grávida e foi apedrejada por sua própria família; Muhammad Iqbal, seu marido, afirma sofrer ameaças

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O marido de uma mulher paquistanesa apedrejada até a morte por sua própria família disse à BBC que a polícia presenciou o crime e não fez nada.

Crime: Paquistanesa morre apedrejada pela família após se casar sem permissão

Reuters
Iqbal está sendo ameaçado pelos assassinos de sua mulher


Sua mulher, Farzana Parveen, grávida de três meses, foi assassinada em plena luz do dia, em frente ao edifício da Alta Corte da cidade de Lahore. Ela havia casado com Muhammad Iqbal por vontade própria, mas ele estava sendo processado por seus parentes.

Os dois haviam ido ao tribunal contestar as acusações de que Farzana teria casado contra a sua vontade após ter sido sequestrada por Igbal. A família era contrária ao casamento e por isso matou Farzana ao espancá-la e agredi-la com tijolos.

"Eles [os policiais] viram Farzana ser morta e não fizeram nada", afirmou Iqbal.

Casamentos arranjados são uma norma no Paquistão e se casar contra a vontade da família é impensável em muitas comunidades profundamente conservadoras. Farzana era prometida a um primo.

O chefe de direitos humanos da ONU, Navi Pillay, disse que estava "profundamente chocado" e pediu que o governo do Paquistão tomasse "medidas urgentes e fortes". Muitas mulheres são punidas com a morte por parentes, acusadas de desonrar a família. Os chamados "assassinatos de honra" continuam a vitimar mulheres paquistanesas.

Iqbal descreveu os policiais como "vergonhosos" e "desumanos" por não terem parado o ataque.

Reuters
Mohammad Iqbal senta ao lado do corpo da mulher, Farzana, morta pela própria família, em ambulância do lado de fora de um necrotério em Lahore, Paquistão

"Nós estávamos gritando por socorro, mas ninguém ouviu. Um dos meus parentes tirou a roupa para chamar a atenção da polícia, mas eles não intervieram", contou.

O pai de Farzana Parveen depois se entregou à polícia, mas outros parentes que participaram do ataque ainda estão livres.

Ameaças

Iqbal afirmou que ele e sua família estavam sendo ameaçados. "[terça-feira (27)], eles disseram que iriam roubar o cadáver. Viemos aqui com uma escolta policial", contou. O chefe da polícia local Mujahid Hussain disse que alguns deles foram presos e outros estão sendo investigados.

Farzana vinha de uma pequena cidade nos arredores de Lahore. Seus parentes abriram um processo por sequestro contra Iqbal, seu marido, no Supremo Tribunal. Os recém-casados foram ao tribunal de Lahore para contestar o caso, mas Farzana já havia inclusive testemunhado à polícia que havia casado por sua própria vontade.

Iqbal disse à BBC que quando o casal chegou ao tribunal na terça para contestar a ação, os parentes de sua esposa estavam lá e tentaram levá-la embora. Enquanto ela lutava para libertar-se, eles a arrastaram, a jogaram no chão, atiraram-lhe tijolos e esmagaram sua cabeça. Ela morreu na calçada.

A Comissão de Direitos Humanos do Paquistão diz que 869 mulheres foram mortas em "assassinatos de honra" no país no ano passado, embora acredita-se que o número real possa ser maior.

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