Escândalo de caixa dois atinge em cheio partido de Sarkozy na França

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Jean-François Copé renunciou nesta terça depois que um de seus auxiliares admitiu fraude; Partido foi derrotado na Europa

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Derrotado na eleição europeia com menos votos do que a extrema-direita, o partido do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy foi atingido por uma nova crise envolvendo caixa dois e o uso de notas frias na campanha presidencial de 2012.

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Reuters
Copé admitiu a 'derrapagem' e renunciou ao partido, dizendo que Sarkozy não sabia


Eleições: Sarkozy é o 1º presidente da França a não se reeleger em 30 anos

Jean-François Copé renunciou nesta terça (27) à presidência do partido de centro-direita UMP (União por um Movimento Popular), depois que um de seus auxiliares diretos admitiu uma fraude de entre 10 e 11 milhões de euros (R$ 33 milhões) com o uso de notas fiscais frias para justificar despesas que ultrapassaram o teto legal dos gastos de campanha.

Chorando em uma entrevista ao vivo ao canal BFMTV, Jérôme Lavrilleux, chefe de gabinete de Copé e um dos coordenadores da campanha de Sarkozy, admitiu que o limite legal de 16,8 milhões de euros de gastos para o primeiro turno foi ultrapassado e que houve “derrapagens” na prestação de contas de campanha.

O caso envolve a agência de publicidade Bygmalion, que acusa a UMP de ter feito pressão para obter notas frias que somariam entre 10 e 11 milhões de euros. As notas descreviam serviços prestados para convenções do partido, quando na verdade o dinheiro serviu para financiar comícios de Sarkozy – e não foi contabilizado na prestação de gastos de campanha.

Ao confessar a fraude, Lavrilleux disse que nem o então candidato nem o presidente do partido sabiam do assunto, mas o escândalo provocou a renúncia de Copé e desgastou diretamente Sarkozy.

Encurralado

O ataque mais duro contra o partido de Sarkozy partiu de Marine Le Pen, a presidente do partido de extrema-direita Frente Nacional e grande vitoriosa das eleições europeias do último domingo. A Frente Nacional emergiu das urnas como a primeira agremiação política francesa, com cerca de 25% dos votos – quatro pontos percentuais a mais que a UMP.

“Gastaram mais do que o dobro do limite autorizado. Claramente Nicolas Sarkozy traiu a democracia e as regras republicanas e provavelmente uma parte do seu resultado no primeiro turno da eleição foi roubado”, atacou Marine Le Pen, que foi terceira colocada na eleição presidencial de 2012, em uma entrevista coletiva na manhã de hoje.

O PS do presidente François Hollande, que amargou o terceiro lugar na eleição europeia, também alvejou o partido de Sarkozy. “A UMP não aprendeu nada sobre moralização das práticas públicas”, disse a porta-voz do PS na Assembleia Nacional, Annick Lepetit.

Sarkozy ainda não comentou o caso. Pela manhã, o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, publicou em sua conta de Twitter uma foto em que aparece com o ex-presidente francês durante uma audiência hoje em La Moncloa (sede do governo espanhol). Citando “amigos” de Sarkozy, a imprensa francesa diz que o ex-presidente teria ficado descontente com a ligação de seu nome ao escândalo.

Dentro da UMP, diversos deputados expressaram consternação e exigiram a demissão de Copé. Com a renúncia dele, o partido será comandado provisoriamente por uma junta executiva composta por três ex-primeiros-ministros: François Fillon, Alain Juppé e Jean-Pierre Raffarin.

Fim do 'sarkozismo'?

Para analistas, o escândalo pode representar um forte declínio da figura de Sarkozy como o candidato natural da direita moderada à sucessão do socialista François Hollande.

“Esse escândalo parece apressar o que era inevitável: o fim do sarkozismo dentro da UMP, mas a questão é que ainda não existe um substituto natural. Há tempo de ser construído até a eleição de 2017, mas ainda não existe”, disse à BBC Brasil o cientista político Pascal Perrineau, do Centro de Pesquisas Políticas da prestigiosa universidade Sciences Po.

Mesmo com a forte vitória da extrema-direita nas eleições europeias, Perrineau diz que Marine Le Pen pode não colher os dividendos da crise da UMP na próxima disputa presidencial.

“Uma parte do eleitorado pode até migrar para ela, mas a UMP não deixou nem vai deixar de existir, como mostra a última eleição municipal de março quando o partido foi o mais votado da França”, analisou.

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