Propensa a golpes de Estado: Como os militares moldaram a política na Tailândia

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Exército tem ocupado cargos importantes no país desde o fim da monarquia, em 1932; lei marcial é comum para habitantes

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O golpe de Estado desta quinta-feira (22) na Tailândia não é nenhuma novidade no país do sudeste asiático.

Mais um: Comandante do Exército anuncia golpe de Estado na Tailândia

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A lei marcial é algo comum entre os tailandeses


Ontem: Negociações pelo fim da crise na Tailândia permanecem inconclusivas

Basta uma rápida análise para verificar que os militares têm tido, com frequência, um papel crucial na política do país. Já ocorreram 11 golpes e sete tentativas desde o fim da monarquia, em 1932, o que dá à Tailândia o duvidoso título de país mais propenso a golpes do mundo. O direito do Exército de intervir na política da Tailândia é até protegido por lei.

Por exemplo: ao anunciar a lei marcial, na terça-feira, o general Prayuth Chan-Ocha citou legislação de 1914 que dá aos militares a autoridade para declarar o estado de exceção durante uma crise.

Intervenções

A Tailândia vive sob um regime constitucional há mais de 80 anos. Mas, na maior parte deste tempo, membros do Exército, e não os civis, ocuparam cargos de liderança.

O primeiro golpe ocorreu em junho de 1932, com uma revolta sem derramamento de sangue que aboliu a monarquia absoluta tailandesa e introduziu a primeira eleição parlamentar do país.

Terça: Exército da Tailândia decreta lei marcial, mas nega golpe

Seis anos depois, o líder militar Luang Phibun Songkram se transformou no primeiro-ministro do país. Depois de um curto governo civil que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, os militares lançaram um golpe em 1947 e permaneceram no poder até 1973.

Após 1973, foram apenas três anos de governo civil seguida de uma violenta repressão a protestos estudantis no país. Com isso, os governo voltou para as mãos dos militares. Mais golpes e coalizões de governo instáveis se seguiram até 1992, quando manifestantes pró-democracia tomaram as ruas da da capital, Bangcoc, exigindo a volta do governo civil ao país.

O rei Bhumibol Adulyadej entrou nas negociações e pediu a reconciliação entre os generais e os líderes pró-democracia. Veio um acordo, e o líder do Partido Democrático, Chuan Leekpai, assumiu o poder.

Veja fotos dos protestos que culminaram no golpe de Estado no país

Soldado faz ronda em Bangcoc para impedir protestos na Tailândia (20/05). Foto: APSoldados tailandeses são refletidos em um espelho enquanto guardam sede da polícia tailandesa em Bangcoc (20/05). Foto: APTailandesas fazem 'selfie' enquanto soldados do Exército rondam Bangcoc (20/05). Foto: APManifestante ergue bandeira enquanto passa pela polícia de choque da Tailândia em meio a protestos (maio/2014). Foto: APAcampamento de manifestantes é ataco em Bangcoc, Tailândia (maio/2014). Foto: APAtivistas anti-governo esperam até que o líder Suthep Thaugsuban saia do prédio do parlamento para discursar em Bangcoc, Tailândia (9/05). Foto: ReutersPolicial tailandês ferido recebe ajuda de seus companheiros após a explosão de uma bomba durante manifestações anti-governo, em Bangcoc (18/02). Foto: APManifestante antigoverno fica de prontidão durante pronunciamento de líder opositor Suthep Thaugsuban em Bangcoc, Tailândia (21/03). Foto: APPassageiros de ônibus observam figura de tamanho humano que imita policial na intersecção do monumento da vitória, onde manifestantes protestaram em Bangcoc, Tailândia. Foto: APHomem é visto com rifle escondido em meio a protesto na capital da Tailândia, marcado por tiros e explosões (1/02). Foto: Nir Elias/ReutersManifestante de oposição pintado nas cores nacionais da Tailândia atira pedras contra a polícia neste domingo (12/2013). Foto: ReutersManifestantes querem derrubar primeira-ministra Yingluck Shinawatra (12/2013). Foto: APPremiê anuncia dissolução do Parlamento e convoca eleições após 15 dias de protestos (12/2013). Foto: ReutersManifestante antigoverno (C) é detido por tropa de choque durante confrontos em estádio em Bangcoc, Tailândia (12/2013). Foto: APDurante apitaço, manifestantes ofereceram rosas aos policiais em Bangcoc (12/2013). Foto: APTailandeses bloqueiam entrado do Ministério das Finanças, em Bangcoc (12/2013). Foto: AP

Janeiro: Tailândia decreta estado de emergência em Bangcoc em meio a protestos

O golpe seguinte e o atual

O golpe seguinte - que mudou o quadro político da Tailândia - está na origem do atual impasse no país. Em 2006, o extravagante primeiro-ministro Thaksin Shinawatra foi derrubado depois de ser acusado de corrupção e abuso de poder.

O Exército logo cedeu o poder a um governo civil, mas desde então tem havido uma quebra de braço entre os que apoiam Thaksin e, por extensão, o governo atual - que até recentemente foi liderado pela irmã dele, Yingluck Shinawatra - e os que querem pôr fim à influência dele na política tailandesa.

No começo do mês, em meio à escalada da violência entre os dois lados, o Exército avisou que "poderia precisar (...) restaurar a paz e ordem".

O general Prayuth Chan-Ocha disse, na ocasião, que os soldados poderiam ter que acabar com a violência "usando força total". No começo da semana ele declarou lei marcial, dando a si mesmo poderes para proibir reuniões públicas, restringir a movimentação de pessoas, conduzir buscas, impor toque de recolher e deter suspeitos.

E, nesta quinta-feira (22), mais um golpe de Estado entrou para a conturbada história tailandesa. O general Chan-Ocha fez um pronunciamento em rede nacional de televisão divulgando a tomada de poder e prometeu restaurar a ordem e fazer reformas políticas.

No pronunciamento, o general afirmou que foi motivado pela "violência em Bangcoc e muitas partes do país, que resultou na perda de vidas inocentes e de patrimônio, e que poderia aumentar".

O militar ainda pediu que as pessoas não entrassem em "pânico e continuassem com suas vidas normalmente". Ainda não se sabe se os militares vão mesmo fazer as reformas políticas prometidas, mas, o Exército voltou nesta quinta feira a mostrar sua força na política da nação.

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