Sindicatos anunciam greve na Turquia; chega a 282 número de mortos após explosão

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Famílias começam a enterrar suas vítimas; 142 mineiros estão desaparecidos. Suposto assessor de Erdogan agride um ativista

Mulheres entoavam canções sobre as sepulturas dos parentes enterrados após o pior acidente de mineração da Turquia, nesta quinta-feira (15), e não pararam as homenagens nem mesmo quando carros funerários chegavam ao local com mais corpos e retroescavadeiras continuavam a cavar sepulturas em torno delas.

Ontem: Sobe para 274 o número de mortos após explosão em Soma, Turquia

AP
Homem identificado pela imprensa turca como Yusuf Yerkel, assessor do premiê Recep Tayyip Erdogan, chuta um manifestante caído em Soma, Turquia (14/05)


Ativistas: Erdogan é alvo de protestos violentos ao visitar mina em Soma, Turquia

As equipes de resgate recuperaram mais oito corpos nesta quinta, elevando o número de mortos para 282, enquanto 142 ainda estão desaparecidos. Na cidade ocidental de Soma, onde a mineração de carvão tem sido a principal indústria por décadas, as mulheres choravam e cantavam canções sobre seus parentes enquanto corpos eram retirados de caixões e baixavam rumo ao seus túmulos. Fotos dos parentes perdidos estavam presos em suas roupas.

Nenhum mineiro foi encontrado com vida na mina de carvão, onde a explosão e o fogo aconteceram, desde o amanhecer de quarta-feira. Muitos choraram, dizendo terem passado a vida inteira temendo que um acidente desse tipo acontecesse.

"As esposas dos mineiros beijam seus maridos na parte da manhã. Quando eles voltam, mesmo que sejam cinco minutos atrasado, todo mundo começa a ligar. Você nunca sabe o que vai acontecer", disse Gulizar Donmez, 45, cujo pai e o marido são mineiros. Ela é vizinha de uma das vítimas.

Protestos

Os protestos eclodiram em Istambul, Ankara e outras cidades mais as mortes e as condições de segurança nas minas pobres em todo o país. Em Istambul e Izmir, autoridades usaram canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar os ativistas. 

As tensões diminuem as ambições presidenciais do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. Para denegrir ainda mais sua imagem, um dos assessores de Erdogan foi acusado de atacar um manifestante.

Vídeo: Fogo em mina turca dificulta resgate e ministro diz ter menos esperança

Nesta quinta, os jornais turcos Cumhuriyet, Milliyet, entre outros, imprimiram imagens que seriam de um assessor de Erdogan chutando um manifestante caído no chão durante os confrontos. Os veículos identificaram o homem como Yusuf Yerkel.

Erdogan, que em breve deve anunciar sua candidatura para a eleição presidencial da Turquia, a ser realizada em agosto, não era bem-vindo e foi forçado a refugiar-se em um supermercado durante sua visita à região na quarta após multidões furiosas o chamarem de assassino e ladrão e entrarem em confronto com a polícia.

Mais cedo, ele já havia tentado minimizar o desastre, chamando os acidentes de "coisas comuns" que também ocorrem em muitos outros países depois de citar como exemplos acidentes em minas na Grã-Bretanha no século 19.

O primeiro-ministro não fez segredo quanto ao seu desejo de se tornar o primeiro presidente eleito pelo povo da Turquia. O seu partido venceu as eleições locais em março, apesar de um escândalo de corrupção que o obrigou a demitir quatro ministros do governo em dezembro e, posteriormente, também implicou ele e sua família. Erdogan negou as acusações de corrupção, chamando as alegações de uma conspiração para derrubar o seu governo.

Greve

Turk-Is, a maior central sindical da Turquia que representa cerca de 800 mil trabalhadores, se juntou a outros sindicatos menores para dar início a uma greve de um dia e exigir melhores condições de trabalho no país.

Veja fotos sobre as buscas por sobreviventes na Turquia

Mineiros carregam colega resgatado após explosão e incêndio em uma mina de carvão na Turquia (13/05). Foto: APEquipes de resgate trabalham para retirar sobreviventes após explosão de uma mina na Turquia (13/05). Foto: APMineiro é socorrido após acidente em mina que deixou centenas de mortos, na Turquia (13/05). Foto: APMineiro recebe atendimento médico após ajudar no resgate de colegas após explosão em uma mina na Turquia (13/05). Foto: APAmbulâncias esperam do lado de fora após acidente em uma mina de carvão em Soma, Turquia (14/05). Foto: APFamiliar espera por notícias do lado de fora de mina que explodiu em Soma, Turquia (14/05). Foto: APEquipes de resgate carregam mineiro que sobreviveu a explosão em uma mina em Soma, Turquia (14/05). Foto: APFamiliares se emocionam enquanto esperam do lado de fora de uma mina em Soma, oeste da Turquia (14/05). Foto: APSobrevivente recebe os primeiros socorros após ser retirado de mina em Soma, Turquia (13/05). Foto: APMineiro se emociona ao sair de mina que explodiu na Turquia (13/05). Foto: AP

Resgate: Explosão em mina mata 157 e deixa ao menos 200 soterrados na Turquia

Trabalhadores na região mineira de Zonguldak, aderindo ao movimento, se reuniram em frente a uma das minas, mas não entraram nela. Em Istambul, um grupo gritavam palavras de ordem contra o governo e levou uma grande faixa que dizia: "Não é acidente, é crime."

Com esperanças de que os mineiros desaparecidos poderiam estar desmaiados, o ministro da Energia, Taner Yildiz, disse aos jornalistas que os esforços de resgate foram concentrados em duas áreas no interior da mina. As operações de resgate foram suspensas diversas vezes enquanto o carvão queimava, criando condições arriscadas para as equipes de resgate.

"Acreditamos que ainda temos irmãos em duas áreas lá dentro onde ainda não conseguimos entrar", disse Yildiz. 

O governo informou que 787 pessoas estavam dentro da mina de carvão no momento da explosão, na terça. Dezenas de feridos foram resgatados e encaminhados a hospitais da região.

'Tristeza para a nação turca'

O presidente da Turquia falou palavras de conforto aos entes queridos dos cerca de 300 mineiros que morreram no incêndio. Segundo Abdullah Gul, o fogo mortal dentro da mina em Soma é uma "tristeza para toda a nação turca". Ele ofereceu suas condolências às famílias das vítimas. Espectadores escutavam em silêncio o pronunciamento até que um homem interrompeu Gul com gritos: "Por favor, presidente, ajude-nos, por favor!". 

Uma investigação sobre o desastre já começou, disse Gul. "Tenho certeza que isso vai nos ajudar" sobre as alterações necessárias nos regulamentos do país. "Faremos tudo o que for preciso", prometeu.

Gul havia entrado na mina com uma comitiva de dezenas de pessoas - principalmente homens em ternos escuros - a pé por meio de uma multidão de equipes de resgate que estava atrás das barricadas policiais.

Do lado de fora da mina, trabalhadores resignados esperaram por horas, na esperança de resgatarem mais sobreviventes. Alguns deles passaram o tempo todo falando ao celular, outros fumando ou tirando os capacetes e enterrando seu rosto em suas mãos. Com esperança de encontrar sobreviventes cada vez menor, parecia haver pouco o que eles poderiam fazer.

*Com AP e CNN

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