Autoridades relatam que ainda há mineiros presos no subsolo e cerca de 363 pessoas já foram resgatadas na cidade de Soma

Em uma procissão implacável que provocou gemidos de dor, as equipes de resgate, revestidas de preto por causa do carvão, lutavam para transportar macas carregadas com corpos cobertos para o lado de fora de uma mina na Turquia, nesta quarta-feira (14). Havia 274 deles - e o destino dos cerca de 150 ainda presos na mina é cada vez mais claro no desastre mais mortífero da mineração da Turquia.

Vídeo: Fogo em mina turca dificulta resgate e ministro diz ter menos esperança

Mineiro chora em meio as buscas por desaparecidos após explosão de uma mina em Soma, Turquia
AP
Mineiro chora em meio as buscas por desaparecidos após explosão de uma mina em Soma, Turquia


Ontem: Explosão em mina mata 157 e deixa ao menos 200 soterrados na Turquia

O primeiro-ministro do país, Recep Tayyip Erdogan, adiou uma viagem ao exterior e figurou o número de mortos atualizado durante visita à mina de carvão em Soma, que fica a cerca de 250 quilômetros ao sul de Istambul. As mortes foram causadas por envenenamento por monóxido de carbono, de acordo com as autoridades.

Erdogan discutiu as operações de resgate com as autoridades e foi para perto da entrada da mina com uma enorme comitiva. Ele consolou duas mulheres que choravam, expressando tristeza. Mais cedo, o premiê declarou três dias de luto nacional, ordenando que bandeiras ficassem a meio mastro.

O ministro da Energia da Turquia, Taner Yildiz, disse que 787 pessoas estavam no interior da mina de carvão em Soma no momento da explosão, que aconteceu na terça, por causa de uma mudança de turno. Desse grupo, 274 morreram, 363 foram resgatados e dezenas ficaram feridos.

"Em relação a operação de resgate, posso dizer que as nossas esperanças estão diminuindo", disse Yildiz antes da visita de Erdogan.

O último trabalhador resgatado com vida surgiu por volta do amanhecer, disse um funcionário do governo em condição de anonimato porque não têm autorização prévia para dar informações públicas aos jornalistas sobre o acidente.

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Acidentes em minas são comuns na Turquia, que é criticada por suas precárias condições de segurança no trabalho. O último desastre de mineração do país com tantas vítimas assim havia acontecido em 1992, quando explosão de gás matou 263 trabalhadores perto do porto do Mar Negro, em Zonguldak.

Reação

Em Istambul, centenas de manifestantes se reuniram em frente a sede da empresa proprietária da mina, a Soma Holding. Na capital, Ancara, a polícia dispersou grupo que tentou marchar rumo ao ministério de Energia para protestar contra as mortes, informou a agência de notícias Dogan.

O ministério do Trabalho e da Segurança Social da Turquia disse que a mina havia sido inspecionada cinco vezes desde 2012, a mais recente delas em março, e que não foram detectados problemas que violassem a segurança dos mineiros.

Segundo o principal partido de oposição do país, o partido de Erdogan recentemente votou contra uma proposta para estabelecer inquérito parlamentar sobre uma série de acidentes de pequena escala em minas ao redor Soma.

Mineiros ajudam nos resgates

Outras equipes de resgate, compostas principalmente por mineiros que tiveram a sorte de estar em turno diferente na hora da explosão socorriam as vítimas por conta própria. Um homem que não quis ser identificado disse que entrou com uma equipe de dez homens a cerca de um quilômetro dentro da mina e conseguiu recuperar três corpos.

Mas os homens tiveram que sair depressa do local por causa de fumaça de carvão, disse ele. Outro homem subiu as escadas que davam acesso a mina com um olhar de tristeza. Atrás dele, dois grupos carregavam pesadas ​​macas empurradas pela multidão.

Enquanto os corpos eram levados, equipes de resgate retiravam os cobertores dos rostos dos corpos para a multidão reconhecer possíveis parentes. Um homem idoso que usava boné com oração bordada lamentou após reconhecer um dos mortos, e a polícia teve de impedi-lo de subir sobre uma ambulância carregando o corpo.

Um trabalhador ferido que emergiu vivo entre uma das equipes de resgate foi levado em uma maca sob aplausos dos espectadores. 

Trabalhadores de minas próximas foram trazidos para se juntar ao resgate. Um homem de 30 anos de idade, que não quis ser identificado, disse que correu para o local para tentar ajudar a encontrar seu irmão, que ainda estava desaparecido nesta quarta. Ele disse que conseguiu entrar cerca de 150 metros dentro da mina antes de os gases o farçarem a recuar.

"Não há esperança", disse ele com lágrimas nos olhos.

Durante a noite, pessoas gritaram e aplaudiram enquanto alguns dos mineiros presos surgiram, seus rostos e chapéus cobertos de fuligem. Dezenas de ambulâncias recuaram para dar lugar as centenas de corpos retirados do interior da mina.

*Com AP

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