O czar da segurança do computador diz considerar Snowden e Assange criminosos e associa governos a ataques cibernéticos

Apagões elétricos, colapso do transporte, infraestrutura fora de controle. Esse é o possível futuro do cenário mundial sob a ótica de Eugene Kaspersky: futurista e apocalíptico. E talvez o "czar" da segurança do computador, que ergueu império com sede em Moscou e vários escritórios ao redor do mundo, não esteja errado.

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Eugene Kaspersky, fundador da gigante Kaspersky Lab, fala sobre segurança da informação
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Eugene Kaspersky, fundador da gigante Kaspersky Lab, fala sobre segurança da informação

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"Muitos países já têm ciberdivisões militares", diz o presidente da empresa que leva seu nome em uma entrevista ao jornal espanhol El País durante a Kaspersky Security Summit 2014, realizada em San Francisco, EUA.

"Inclusive os russos, mesmo que não admitam. E acredito que eles já desenvolveram armas cibernéticas. Felizmente, tanto quanto eu saiba, eles não as usam. Mas elas estão projetadas para destruir", continuou ele, se referendi a nações como os EUA, Japão e Índia.

Segundo ele, as ameaças de um mundo tão interconectado são muitas e estão espalhadas por todos os níveis, desde os consumidores até as empresas de alta infraestrutura. Não se sabe quem serão as vítimas ou onde o próximo ataque vai ocorrer. Mas há um que poderia eventualmente destruir o planeta e que saiu do reino da ficção científica direto para a realidade.

E uma possível amostra dessa ameaça foi encontrada em fevereiro, quando a Kaspersky Lab detectou um malware muito sofisticado de origem espânica capaz de infectar qualquer sistema operativo. Segundo analistas, é uma das ferramentes de ciberespionagem mais avançadas encontradas até hoje. Os primeiros ataques foram registrados em 2007, e as vítimas foram mais de 1 mil IPs em 31 países.

"Não fazemos atribuições, mas o idioma do vírus era castellano da Espanha, não da América Latina. E não era um ataque criminal. Foi enorme, massivo e muito profissional: tinha que haver um grande orçamento por trás dele. Parece que o governo espanhol é muito bom em espionagem, mas não temos nenhuma prova", ironizou.

Sobre o uso da rede para espionagem, o czar da segurança do computador afirma que é preciso fazer uma distinção sobre casos como os de Julian Assange e de Edward Snowden, por exemplo, e os de monitoramento feitos pelo governo sobre cidadãos e outros países.

"A espionagem entre os governos existia, existe e sempre existirá. Os sistemas de computadores são bancos fáceis e simples de serem infectados. Quanto a espionagem aos cidadãos...a não ser que seja para localizar suspeitos. É bom ou é mau? Quantos ataques terroristas poderiam ser evitados? Quantos crimes poderiam não acontecer? Eu não sei, mas não julgo."

"Segundo o código penal sim, é crime [sobre Assange e Snowden]. Talvez Assange não. Mas Snowden tinha acesso aos dados que divulgou em virtude do cargo que ocupava. Por isso estou absolutamente convencido de que, segundo o código penal, sua atuação é criminosa."

De acordo com Kaspersky, a situação da segurança informática vai de mau a pior. Dos ataques “tradicionais” contra os consumidores e as empresas nos últimos cinco anos somados aos dirigidos aos de infraestrutura críticas - plantas energéticas, telecomunicações e transporte - a companhia informa que ao menos 62% dos usuários de aparelhos móveis sofreram ao menos uma tentativa de ataque em 2013 e que 35% dos incidentes nas redes industriais foram causadas por malwares. O dano econômico, observa o fundador da empresa gigante em antivírus, totalizaram US$ 100 bilhões, cerca de R$ 220 bilhões.

Estatísticas da Kaspersky mostram que 62% dos utilizadores de banca online sofreram pelo menos uma tentativa de ataque informático desde 2013. Um em cada três incidentes nas redes industriais foi causado por malware, com prejuízos a rondarem os 100 mil milhões de dólares.

A Kaspersky Lab colabora com a Interpol e agências de diversos países, com os quais eles compartilham dados sobre ameaças de segurança nacional. Sobre as notícias recentes sobre possíveis ataques cibernéticos feitos pelo governo russo contra Kiev, Ucrânia, o presidente da empresa preferiu não se pronunciar.

Seu estilo casual, os olhos claros e o forte sotaque russo deletam a origem de Kaspersky. Mas pouco se sabe sobre seu início nos negócios. Dizem que ele foi um garoto prodígio e que colaborou com a KGB. Ele se limita a contar que procurar vírus sempre foi seu hobby, e que nunca imaginou que uma pequena empresa viraria uma corporação gigante com escritórios em mais de 30 países, quase 3 mil empregados e renda de 667 milhões de dólares.

*Com El País

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