Leste da Ucrânia questiona identidade às vésperas de referendo decisivo

Por BBC Brasil | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Moradores acreditam que após o referendo, a paz pode voltar a imperar na região. Alguns deles criticam 'pedido' feito por Putin

BBC

O clima esteve tenso nos postos de checagem na quinta (8) em estradas que levam a Sloviansk, no leste da Ucrânia. O Exército do país estava em busca de rebeldes que tentavam entrar na cidade, enquanto tiros de armas automáticas eram ouvidos à distância.

Ontem: Pró-russos no leste da Ucrânia manterão referendo apesar de apelo de Putin

BBC
O Exército ucraniano montou barreiras nas estradas em busca de rebeldes pró-Rússia


Putin: Rússia retira suas tropas da fronteira com a Ucrânia

Mas, no centro de Sloviansk, as ruas estavam movimentadas, num cenário bem diferente de há três dias, quando o silêncio imperava na cidade. Não é possível dizer se esta mudança está relacionada à declaração feita pelo presidente russo, Vladimir Putin, na quarta-feira, ou se o conflito se atenuou.

Surpresa

Na última quarta, Putin surpreendeu jornalistas no Kremlin ao dizer que estava pedindo aos ativistas pró-Rússia no leste da Ucrânia que adiassem o polêmico referendo que eles pretendem realizar no próximo domingo, dia 11. Também disse que a eleição presidencial da Ucrânia, marcada para o dia 25 deste mês, é um passo "na direção certa".

No entanto, ele afirmou que o voto não valerá nada se não vier acompanhado da proteção dos direitos de "todos os cidadãos". Foi o primeiro sinal de que ele pretende tirar a Ucrânia da beira do abismo de uma guerra civil - ainda que tenha responsabilizado os ucranianos anti-Rússia por colocar o país nessa posição.

Desilusão

A poucos metros da sede do serviço de segurança, um avô passeava de mãos dadas com seu neto. Nos arredores, sob um belo dia de sol, clientes entravam e saíam das lojas. Na primeira visita feita há três dias, a equipe da BBC News foi recebida com tiros de alerta disparados por rebeldes posicionados do lado de fora deste mesmo edifício.

Violência: Cinco ativistas morrem em confronto com forças ucranianas, diz pró-Rússia

A tensão pode ter diminuído, mas cresceu a desilusão de moradores que ainda tentavam compreender a postura conciliatória adotada pelo Kremlin. Yulia Tarasenko, de 30 anos, se disse incomodada com o pedido de adiamento do referendo.

"Queríamos o referendo porque pensávamos que, se ele fosse realizado, as forças ucranianas se retirariam e a paz a e a estabilidade voltariam", ela afirmou.

Quando perguntada sobre o que acontecerá a seguir, Yulia respondeu: "Só queremos voltar à normalidade".

'Sei pelo que luto'

Em Kramatorsk, cidade a cerca de meia hora de carro de Sloviansk, o rebelde Oleg deu outra resposta.

"O que Putin disse foi ruim. O referendo não pode ser evitado. Já se chegou longe demais. Os pacificadores russos ainda deveriam ser enviados. Estamos protegendo nossa terra."

Veja fotos da ocupação russa na Ucrânia

Comboio de caminhões brancos com ajuda humanitária deixa Alabino, nos arredores de Moscou, Rússia (12/08). Foto: APManifestante ao lado de transeuntes na Praça da Independência em Kiev (9/08). Foto: ReutersManifestante segura coquetel molotov enquanto tenta impedir que trabalhadores municipais e voluntários limpem barricadas em Kiev (9/08). Foto: ReutersMembro de equipe antibomba inspeciona cratera com os restos de um projétil depois de uma noite de combates em Donetsk, Ucrânia (6/08). Foto: APMulher deixa prédio danificado por suposto bombardeio levando seus pertences na área central de Donetsk, Ucrânia (29/07). Foto: ReutersRebeldes pró-Rússia em um tanque com a bandeira da Rússia em uma estrada a leste de Donetsk, Ucrânia (21/07). Foto: APPrimeiro-ministro ucraniano Arseniy Yatsenyuk, à dir., conversa com um oficial durante inspecção ao Exército fora da cidade de Slovyansk, Ucrânia (16/07). Foto: APPremiê ucraniano, Arseniy Yatsenyuk (E), cumprimenta soldado ao inspecionar tropas em Slovyansk, leste da Ucrânia (16/07). Foto: APMulher chora perto de prédio que desmoronou após ataque aéreo em Snizhne, a 100 km a leste da cidade de Donetsk, no leste da Ucrânia (15/07). Foto: APCombatente da República Popular de Donetsk se despede de sua família, que deixa essa cidade no leste da Ucrânia para refugiar-se na Rússia (14/07). Foto: APCombatentes separatistas pró-russos esperam atrás de sacos de areia em posto de controle em Donetsk, Ucrânia (10/07). Foto: ReutersMilitares ucranianos perto das armas apreendidas de separatistas pró-russos perto Slaviansk, Ucrânia (8/07). Foto: ReutersMilitante mascarado pró-Rússia organiza o trânsito em posto de controle após ataque das tropas ucranianas em Slovyansk (24/4). Foto: APAtiradores mascarados pró-Rússia guardam entrada de escritório regional ucraniano do Serviço de Segurança em Luhansk com bandeira russa ao fundo (21/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional capturado em Donetsk. Cartaz diz: 'EUA, tirem as mãos do leste da Ucrânia' (19/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia olha para o lado de fora de janela em prédio da administração regional de Donetsk, Ucrânia (18/4). Foto: APAtirador pró-Rússia abre caminho para veículo de combate com homens armados em seu topo em Slovyansk, Ucrânia (16/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional em Donetsk, Ucrânia (15/4). Foto: APAtivista pró-Rússia é visto durante invasão de delegacia na cidade de Horlivka, leste da Ucrânia (14/4). Foto: APAtivistas armados pró-Rússia ocupam a delegacia de polícia no leste da Ucrânia, na cidade de Slaviansk (12/04). Foto: APAtivistas pró-Rússia ocupam delegacia de polícia e constroem uma barricada na cidade ucraniana oriental de Slovyansk (12/04). Foto: APHomens armados não identificados caminham em área perto de unidade militar ucraniana em Simferopol, Crimeia (18/3). Foto: APSoldado armado, provavelmente russo, anda perto de uma base militar ucraniana na aldeia de Perevalnoye (9/3). Foto: ReutersUm homem armado, que se acredita ser um soldado russo, anda perto da base naval ucraniana na Crimeia, no porto de Yevpatory (8/3). Foto: ReutersMarinheiro observa navio inativo Ochakov, que foi afundado por tropas russas e bloqueou o tráfego de cinco embarcações ucranianas em Myrnyi, oeste da Crimeia, Ucrânia (6/3). Foto: APCriança brinca perto de soldado russo (D) enquanto soldados ucranianos observam do outro lado do portão de base em Perevalne, Crimeia (4/3). Foto: APSoldado pró-Rússia bloqueia base naval na vila de Novoozerne, Crimeia, na Ucrânia (3/3). Foto: APGrupo de homens armados sem emblemas em uniformes cortam luz do Quartel-General das forças navais ucranianas em Sevastopol, Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APComboio russo se move de Sevastopol para Sinferopol na Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APHomem com uniforme sem identificação monta guarda enquanto tropas tomam controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, em Sevastopol (Crimeia), na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda em Balaklava, nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Península da Crimeia (1/3)
. Foto: APEmblema em veículo e placas de outros carros indicam que tropas são do Exército russo (1/3). Foto: APHomens armados não identificados e vestidos com uniformes de camuflagem bloqueiam a entrada do prédio do Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomens armados não identificados bloqueiam entrada de Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomem armado não identificado com uniforme de camuflagem bloqueia estrada que leva a aeroporto militar em Sevastopol, na Crimeia. Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Crimeia. Foto: APHomem com uniforme sem identificação patrula aeroporto de Simferopol, na Ucrânia (28/2). Foto: AP

No leste: Ucrânia fecha espaço aéreo no leste para intensificar operação antiterrorista

Seu colega Valentin, de 25 anos, um ex-operário fabril, disse estar disposto a morrer. "Sei pelo que luto", ele declarou.

A preocupação com a terra e identidade são temas fortes neste conflito e lembram de forma desconcertante o que ocorreu na Irlanda do Norte, nos Bálcãs e em partes da África.

Violência generalizada

Mesmo assim, as diferenças desses conflitos com que ocorre atualmente no leste da Ucrânia são tão poderosas quanto as semelhanças. O número de fatalidades ainda é relativamente pequeno na região. Grupos organizados de assassinos ainda não massacraram em larga escala seus opositores.

Sábado: Rebeldes derrubam helicóptero militar ucraniano

Apesar de terem ocorrido sequestros e alguns assassinatos, a violência generalizada que caracteriza os conflitos modernos ainda não ocorreu. Isso pode mudar, é claro.

Famílias divididas

Em Donetsk, a capital da autodeclarada República Popular de Donbass, Elena Malyutina, uma funcionária pública de 40 anos que foi expulsa de seu local de trabalho pelos rebeldes, acredita que alguns das barreiras de checagem representam os piores elementos de uma sociedade.

Em seu novo escritório, ela aponta para algumas plantas e o computador que conseguiu levar consigo quando homens armados a expulsaram do antigo prédio.

O que mais dói, ela disse, são as divisões sociais geradas pela rebelião. "É um trauma psicológico. Famílias estão divididas...Conheço pessoas que se divorciaram por causa de tudo isso."

Pessoas de ambos os lados dessa divisão política, e muitos que estão no meio do caminho ainda estão refletindo sobre a nova posição de Putin. Suas palavras podem amainar a tensão entre o leste e o oeste do país, mas não entre Moscou e Kiev.

E, com os ânimos alterados, o conflito sobre identidade neste país não serão resolvidos rapidamente ou facilmente.

Leia tudo sobre: russia na ucraniacrise na ucraniakievmoscoureferendoslovianskucraniaputinyulia

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas