Colapso de prédio em Bangladesh completa um ano sem real reparação para vítimas

Por AP |

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Acidente deixou 1.135 mortos. Dono de edifício ainda não foi julgado e marcas internacionais de roupas falham em dar ajuda

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Um ano depois de a fábrica de vestuário Rana Plaza ruir para se tornar uma pilha de concreto e metal retorcido, a costureira de Bangladesh Shefali diz que preferiria morrer de fome a voltar para o mesmo trabalho.

2013: Trabalhos de busca terminam em prédio de Bangladesh com 1.127 mortos

Taslima Akhter
Fotógrafa independente Taslima Akhter capturou 'O abraço final', imagem que mostra dois dos mais de 1 mil mortos de desabamento em Bangladesh (abril/2013)

Como muitos sobreviventes do pior desastre que a indústria do vestuário já teve, a jovem de 18 anos que só tem um nome afirma sofrer de depressão e ter flashbacks da catástrofe que deixou mais de 1,1 mil mortos. Ela se feriu no colapso do prédio que aconteceu há um ano nesta quinta-feira e sofre com uma duradoura dor nas costas.

E apesar dos esforços de marcas ocidentais para melhorar a segurança nas fábricas do país que produzem suas roupas, Shefali teme que não haverá nenhuma consequência boa para os mais pobres dos pobres. Bangladesh tem um dos salários mínimos mais baixos do mundo — cerca de US$ 66 por mês — embora produza mercadorias para alguns dos maiores varejistas do mundo.

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"Morremos, sofremos, ninguém toma conta de nós", disse Shefali no início deste mês enquanto passava pelo local do acidente, agora um espaço improdutivo, sem cercas. Ela não voltou a trabalhar e fica em casa com seus pais. "Tinha sonhos de me casar e ter a minha própria família", afirmou. "Mas agora tudo parece impossível.

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Houve alguns acontecimentos significativos. O proprietário do prédio ilegalmente construído de Rana Plaza está atrás das grades sob uma investigação pendente, mas ainda não se sabe quando ele será julgado. Os donos das cinco fábricas que operam dentro do edifício também foram detidos.

Autoridades nomearam mais inspetores de fábricas, planejam nomear mais e dizem ter o objetivo de assegurar que nenhuma nova fábrica seja construída sem apropriadas regulamentações de segurança.

Mas problemas continuam. De acordo com a Human Rights Watch, as companhias internacionais que receberam roupas de cinco fábricas que operavam no prédio Rana Plaza não estão contribuindo de forma suficiente para o fundo estabelecido para apoiar os sobreviventes e as famílias dos mortos.

"Um ano depois do colapso do Rana Plaza, um número demasiado de vítimas e de suas famílias estão sob sério risco de desamparo", disse Phil Robertson, vice-diretor de Ásia da organização. "As marcas internacionais de vestuário deveriam estar ajudando os feridos e os dependentes dos mortos que fabricavam suas roupas."

O objetivo do fundo, presidido pela Organização Internacional do Trabalho, são US$ 40 milhões, mas apenas US$ 15 milhões foram arrecadados até agora, segundo a HRW. As varejistas Bonmarche, El Corte Inglés, Loblaw e Primark prometeram dinheiro.

A própria estrutura da indústria do vestuário de Bangladesh também é vista como problemática. De acordo com um estudo recente da Faculdade de Administração de Empresas Stern da Universidade de Nova York, uma "característica essencial" do setor envolve fábricas subcontratando trabalho de outras oficinas que têm condições ainda piores. Mas muitos trabalhadores do setor estão céticos de que vá haver alguma mudança duradoura.

Quando o colapso dos oito andares aconteceu em 24 de abril de 2013, milhares estavam dentro do Rana Plaza, em Savar, o centro da indústria de US$ 20 bilhões do país. Investigadores dizem que uma série de fatores contribuiu para o acidente: o prédio contruído em um terreno pantanoso estava com sobrepeso de máquinas e geradores, e o proprietário havia adicionado andares em violação à planta original.

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Costureira Reshma Begum, que passou 17 dias sob os escombros de prédio que ruiu em Bangladesh, é vista em hospital em Savar, perto de Daca (13/5/2013)

Begum: Mulher é encontrada viva 17 dias após desabamento em Bangladesh

O número final de mortos é de 1.135 mortos, com milhares mais tendo sido resgatados dos destroços. As equipes de resgate encontraram Reshma Begum 17 dias depois do colapso, e autoridades dizem que sua sobrevivência é um milagre.

Quando o prédio começou a cair ao seu redor, Begum relatou que correu por uma escadaria até o porão, onde ela ficou presa perto de uma grande bolsa que lhe permitiu sobreviver. Ela encontrou algumas frutas secas e garrafas de água que salvaram sua vida.

Embora sua história tenha um final feliz — ela agora trabalha em um hotel internacional na área nobre de Gulshan, em Daca —, Begum ainda é perseguida pelo desastre.

"Não consigo tolerar a escuridão no meu quarto à noite. Sempre acendo a luz", disse Begum em uma entrevista na casa de sua irmã em Savar. "Se a luz apaga, começo a entrar em pânico. Parece... como posso dizer? Parece que ainda estou lá (no Rana Plaza)."

Begum, que diz ter 18 ou 19 anos, espera o dia em que os donos da fábrica enfrentarão a Justiça. "Tantas pessoas morreram por causa deles", disse. "Quero vê-los serem executados."

*Com AP

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