Mensagens antissemitas espalham medo entre judeus da Ucrânia

Por BBC Brasil |

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Panfletos mandam judeus do leste da Ucrânia se registrarem e pagarem imposto exclusivo

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Quando Asya Kreimer entrou em sua conta no Facebook e viu o panfleto que mandava os judeus do leste da Ucrânia se registrarem, pagarem um imposto exclusivo e deixar a região, sua primeira reação foi rir.

"É que me pareceu ridículo", conta essa senhora de 56 anos, enquanto prepara um prato a base de frango, sob a orientação kosher, para a Páscoa judaica.

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Os líderes da República Popular de Donetsk negam estar por trás das mensagens. Eles acusam o governo de Kiev de espalhar os folhetos para desacreditar o movimento autonomista

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Nos últimos dias, vários folhetos foram distribuídos por homens mascarados nas saídas das sinagogas de Donetsk. A cidade no leste da Ucrânia está no centro do conflito entre o governo de Kiev e os separatistas pró-Rússia, que querem que a área seja anexada por Moscou, a exemplo da Crimeia.

"Nunca tivemos problemas aqui. Meus amigos ucraniamos e russos me respeitam por ser judia. Esse pedaço de papel foi ao mesmo tempo patético e repugnante", conta.

Os líderes da República Popular de Donetsk, proclamada por separatistas pró-Rússia, negam estar por trás das mensagens. Eles acusam o governo de Kiev de espalhar os folhetos para desacreditar o movimento autonomista.

Veja a ocupação Russa na Ucrânia:

Comboio de caminhões brancos com ajuda humanitária deixa Alabino, nos arredores de Moscou, Rússia (12/08). Foto: APManifestante ao lado de transeuntes na Praça da Independência em Kiev (9/08). Foto: ReutersManifestante segura coquetel molotov enquanto tenta impedir que trabalhadores municipais e voluntários limpem barricadas em Kiev (9/08). Foto: ReutersMembro de equipe antibomba inspeciona cratera com os restos de um projétil depois de uma noite de combates em Donetsk, Ucrânia (6/08). Foto: APMulher deixa prédio danificado por suposto bombardeio levando seus pertences na área central de Donetsk, Ucrânia (29/07). Foto: ReutersRebeldes pró-Rússia em um tanque com a bandeira da Rússia em uma estrada a leste de Donetsk, Ucrânia (21/07). Foto: APPrimeiro-ministro ucraniano Arseniy Yatsenyuk, à dir., conversa com um oficial durante inspecção ao Exército fora da cidade de Slovyansk, Ucrânia (16/07). Foto: APPremiê ucraniano, Arseniy Yatsenyuk (E), cumprimenta soldado ao inspecionar tropas em Slovyansk, leste da Ucrânia (16/07). Foto: APMulher chora perto de prédio que desmoronou após ataque aéreo em Snizhne, a 100 km a leste da cidade de Donetsk, no leste da Ucrânia (15/07). Foto: APCombatente da República Popular de Donetsk se despede de sua família, que deixa essa cidade no leste da Ucrânia para refugiar-se na Rússia (14/07). Foto: APCombatentes separatistas pró-russos esperam atrás de sacos de areia em posto de controle em Donetsk, Ucrânia (10/07). Foto: ReutersMilitares ucranianos perto das armas apreendidas de separatistas pró-russos perto Slaviansk, Ucrânia (8/07). Foto: ReutersMilitante mascarado pró-Rússia organiza o trânsito em posto de controle após ataque das tropas ucranianas em Slovyansk (24/4). Foto: APAtiradores mascarados pró-Rússia guardam entrada de escritório regional ucraniano do Serviço de Segurança em Luhansk com bandeira russa ao fundo (21/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional capturado em Donetsk. Cartaz diz: 'EUA, tirem as mãos do leste da Ucrânia' (19/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia olha para o lado de fora de janela em prédio da administração regional de Donetsk, Ucrânia (18/4). Foto: APAtirador pró-Rússia abre caminho para veículo de combate com homens armados em seu topo em Slovyansk, Ucrânia (16/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional em Donetsk, Ucrânia (15/4). Foto: APAtivista pró-Rússia é visto durante invasão de delegacia na cidade de Horlivka, leste da Ucrânia (14/4). Foto: APAtivistas armados pró-Rússia ocupam a delegacia de polícia no leste da Ucrânia, na cidade de Slaviansk (12/04). Foto: APAtivistas pró-Rússia ocupam delegacia de polícia e constroem uma barricada na cidade ucraniana oriental de Slovyansk (12/04). Foto: APHomens armados não identificados caminham em área perto de unidade militar ucraniana em Simferopol, Crimeia (18/3). Foto: APSoldado armado, provavelmente russo, anda perto de uma base militar ucraniana na aldeia de Perevalnoye (9/3). Foto: ReutersUm homem armado, que se acredita ser um soldado russo, anda perto da base naval ucraniana na Crimeia, no porto de Yevpatory (8/3). Foto: ReutersMarinheiro observa navio inativo Ochakov, que foi afundado por tropas russas e bloqueou o tráfego de cinco embarcações ucranianas em Myrnyi, oeste da Crimeia, Ucrânia (6/3). Foto: APCriança brinca perto de soldado russo (D) enquanto soldados ucranianos observam do outro lado do portão de base em Perevalne, Crimeia (4/3). Foto: APSoldado pró-Rússia bloqueia base naval na vila de Novoozerne, Crimeia, na Ucrânia (3/3). Foto: APGrupo de homens armados sem emblemas em uniformes cortam luz do Quartel-General das forças navais ucranianas em Sevastopol, Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APComboio russo se move de Sevastopol para Sinferopol na Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APHomem com uniforme sem identificação monta guarda enquanto tropas tomam controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, em Sevastopol (Crimeia), na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda em Balaklava, nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Península da Crimeia (1/3)
. Foto: APEmblema em veículo e placas de outros carros indicam que tropas são do Exército russo (1/3). Foto: APHomens armados não identificados e vestidos com uniformes de camuflagem bloqueiam a entrada do prédio do Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomens armados não identificados bloqueiam entrada de Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomem armado não identificado com uniforme de camuflagem bloqueia estrada que leva a aeroporto militar em Sevastopol, na Crimeia. Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Crimeia. Foto: APHomem com uniforme sem identificação patrula aeroporto de Simferopol, na Ucrânia (28/2). Foto: AP

Ameaças

Para boa parte dos 15 mil judeus de Donetsk, a simples distribuição dos panfletos é motivo suficiente para se preocupar.

"Isso é só mais uma demonstração das coisas horríveis que andam acontecendo aqui", diz Asya. "Não acredito que os judeus estejam sob perigo imediato, ainda que tudo isso seja parte de um plano para arrastar as pessoas ao confronto", diz.

O antissemitismo é parte da história familiar de Asya. Cinco de suas tias foram enterradas vivas durante a invasão alemã em 1941. Nos anos seguintes, boa parte de sua família foi exterminada.

Desde o fim da Segunda Guerra, a vida dos judeus locais foi de paz. Asya conta que recusou várias oportunidades de deixar a Ucrânia desde o colapso da União Soviética. Mas, há algumas semanas, ela começou a fazer um curso de alemão.

"Estou pensando em ir à Alemanha. É a primeira vez na minha vida que penso em ir embora", conta. "Eu tenho medo da Rússia, não dos russos, mas do governo. Acho que o Ocidente está subestimando o perigo que Putin representa", diz.

Para o rabino Pinkhas Vyshedsky, da cidade de Donbass, "a impressão é que alguem está tratando de arrastar (os judeus) para um jogo político entre a Rússia e Ucrânia".

O rabino já pediu às forças de segurança da Ucrânia proteção especial à comunidade. Até agora, não houve resposta.

O caso dos tártaros

Os judeus não são o único grupo alvo de campanhas de ameaça e intimidação na Ucrânia desde o início da atual crise política.

Durante a anexação russa da Criméia, os tártaros, que são uma etnia da região, também passaram a ser perseguidos. Hoje os tártaros, que são uma minoria muçulmana, são poucos na sua terra natal, já que nos anos 1940 o líder soviético Joseph Stálin deportou quase toda essa população para a Ásia Central.

Nos anos 1980, muitos começaram a regressar à Crimeia. Mas no mês passado, enquanto as tropas russas ocupavam bases militares em toda a região, minorias tártaras foram amedrontadas por grupos de carecas. Eles carregavam um taco de beisebol e uma lista dos moradores tártaros, pintando uma cruz na fachada de suas casas.

"Foi exatamente isso que fez Stálin dias antes de nos colocar nos trens e nos deportar para a Ásia Central", diz Rustam Kadyrov. Sua casa, no vilarejo de Bakhchysarai, também está marcada com uma cruz.

"Não sei quem está fazendo isso, mas estão querendo nos intimidar", conta.

Medo dos russos

Em meio à crise, o presidente russo, Vladimir Putin, acusa o governo de Kiev de violar os direitos da população de fala russa na Ucrânia. Moscou diz que os nacionalistas ucranianos - particularmente o poderoso grupo Pravy Sektor (Setor da Direita) - são fascistas.

Desde o colapso da União Soviética, a aprovação de leis que garantam a língua e os outros direitos de grupos minoritários na Ucrânia tem fracassado.

Ainda assim, representantes das comunidades judaica e dos tártaros acreditam que uma Ucrânia mais próxima à Europa pode lhes garantir uma maior sensação de segurança, coisa que não esperam em caso de influência russa.

"Eu tenho medo é da Rússia", diz Asya Kreimer. Assim como a maioria dos judeus de Donetsk ela tem o russo como língua materna.

"Parece que acabou a vida que nós tinhamos até agora", diz. "Os panfletos são só uma pequena parte: o que importa é que a Rússia está atiçando os problemas", diz.

"De fora, parece que tudo vai bem, já que felizmente não houve muitas mortes ou muita violência. Mas a Rússia está matando nosso Estado, a nossa nação (Ucrânia)", diz.

À medida que a disputa entre Rússia e Ucrânia se aprofunda, o perigo aumenta com o vazio de poder que emerge no país. Como em qualquer outro conflito, tensões étnicas e religiosas, que estavam adormecidas há décadas, começam a aparecer.

Por isso mesmo essas minorias temem se tornar vítimas do conflito entre duas nações de cultura eslava e religião ortodoxa.

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