Operação de resgate inclui 169 embarcações, 29 aviões e 512 mergulhadores; 287 continuam desaparecidos após o naufrágio

Sob a chuva incessante, com ventos chicoteando o rosto já manchado de lágrimas, Christine Kim permanece no frio, na área portuária de Jindo, Coreia do Sul, nesta quinta-feira (17).

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Mulher tenta agredir oficial da guarda costeira e exige reinício imediato da operação de buscas por desaparecidos após naufrágio, em Jindo, Coreia do Sul
Reuters
Mulher tenta agredir oficial da guarda costeira e exige reinício imediato da operação de buscas por desaparecidos após naufrágio, em Jindo, Coreia do Sul


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“Dentro da água”, ela diz, apontando para o agitado Mar Amarelo, "está a minha filha.”

Christine é professora de inglês e leciona em um centro de aulas particulares. Alguns de seus alunos estavam a bordo da balsa Sewol, que ia para a ilha turística de Jeju, quando afundou. Até agora, nove pessoas morreram e outras 287 continuam desaparecidas. Uma delas é a filha mais nova de Christine.

Arrependimento

Quando a viagem escolar foi sugerida na escola Anson Daewon, sua filha, Billy, relutou em participar. A família havia visitado a ilha dois meses antes. Por isso ela não gostaria de participar da viagem que duraria quatro dias.

“Não quero ir até lá porque já estive na ilha uma vez”, havia dito a adolescente. Christine a convenceu a participar.

"Acho que essa viagem seria uma grande experiência para seus dias escolares”, lembrou ela da conversa que teve com a filha. Então, na noite de terça (15), Billy embarcou na balsa que afundaria.

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Na manhã seguinte, pouco antes das 9h da manhã local (21h horário de Brasília), os alunos ouviram um grande estrondo e o barco começou a afundar. Alguns pularam na água gelada e foram resgatados. Outros não foram mais ouvidos a partir de então.

“Tudo isso aconteceu por minha causa”, lamentou a professora.

Tristeza

Durante toda a noite de quarta (16) e nesta quinta-feira (17), familiares das pessoas a bordo do navio estiveram acampados no Paeng Mok Harbor, cerca de 20 km de onde a balsa naufragou.

Eles se sentam em cadeiras de plástico, amontoados juntos para se aquecerem, com cobertores sobre os ombros, e recebem copos de café e macarrão instantâneo enquanto estiveram de vigília. Mães e avós choram e consolam umas as outras.

Um homem idoso senta em uma cadeira - telefone celular nas mãos. As mãos entrelaçadas, como se estivesse no meio de uma oração. Todos eles estão à espera de respostas, de um sinal.

"Acho que todos vamos morrer”. Será que um erro humano afundou o barco sul-coreano? “Já se passaram quase 30 horas”, diz Christine. “Não posso dormir porque minha filha está na água, no frio – Não posso dormir nunca”.

Raiva

Após o acidente, a mídia local informou os relatos de que parentes receberam mensagens de texto enviadas pelos passageiros. Em uma delas, uma pessoa que estava a bordo do navio afirmou ouvir mulheres gritando na escuridão. Em outro, um filho, temendo a morte, disse à sua mãe que a ama.

Veja fotos do resgate

Os torpedos não foram validados pelas autoridades. Mas dão razão suficiente para alguns pais acreditarem que há mais sobreviventes a serem encontrados. Os familiares, porém, estão com raiva porque não estão sendo levados a sério pela investigação.

"Nós estamos recebendo textos de nossas crianças, mas eles não acreditam em nós", disse a professora de inglês.

Ela não é a única a apontar o dedo para o governo sul-coreano. Eles não se esforçaram o bastante para resgatar os alunos que estão no mar, afirmou ela. Funcionários de resgate dizem que estão à mercê de outros elementos da região. Está chuviscando, o que dificulta a visibilidade. As correntes marítimas são poderosas, tornando as operações perigosas.

Três mergulhadores que tomaram para si a responsabilidade de procurar os desaparecidos foram momentaneamente arrastados pela maré nesta quinta. Um barco de pesca conseguiu resgatá-los. Os esforços para encontrar os desaparecidos incluem 169 embarcações, 29 aviões e 512 mergulhadores.

"As famílias devem estar com o coração partido, eu sei que é difícil", disse a presidente sul-coreano Park Guen-hye, depois de percorrer o local do acidente, nesta quinta. “Por favor”, ela disse às equipes de resgate, “Eu imploro à vocês, façam seu melhor”.

Chang Min, cujo enteado está entre os desaparecidos, diz que está disposto a confiar no governo "uma última vez”. Mas Christine é crítica.

"O governo não está fazendo nada para nós, enquanto nossos filhos estão se afogando", diz ela.

Enquanto não tem mais informações sobre a filha, Christine tenta se agarrar as esperanças. Ela conta que a jovem prometeu trazer alguns deliciosos petiscos da ilha de Jeju. E ela continua esperando. Christine sabe que a filha vai voltar.

*Com CNN

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