Aliança visa a proteger países contra crise no leste ucraniano e voltou a acusar a Rússia de estar por trás de ações separatistas

A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) anunciou nesta quarta-feira (16) que vai reforçar sua presença militar em defesa dos países do leste europeu por causa da crise na Ucrânia.

Ontem: Ucrânia lança operação antiterrorista; grupos pró-Rússia mantêm posições

Secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, escuta pergunta enquanto fala sobre o futuro da Aliança em Washington, EUA (19/03)
AP
Secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, escuta pergunta enquanto fala sobre o futuro da Aliança em Washington, EUA (19/03)


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"Vamos ter mais aviões no ar, mais navios na água e mais prontidão na terra", disse em uma coletiva o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, após anunciar a decisão tomada pelos embaixadores da Aliança Atlântica.

Aviões de combate da Organização vão realizar mais voos sobre a região báltica, e também haverá mobilização de mais navios aliados no mar ao leste do Mediterrâneo e em outros pontos próximos. Além disso, militares aliados serão posicionados na área para melhorar a prontidão local e participarão de treinamentos e exercícios da Otan, segundo Rasmussen.

Membros orientais da Aliança, incluindo Lituânia, Estônia, Letônia e Polônia, têm sido cautelosos após a anexação da Crimeia pela Rússia  e exigiram uma dissuasão militar mais robusta para combater as ações russas.

Rasmussen acrescentou também que Moscou deve deixar claro "que condena as ações violentas de milícias armadas ou separatistas pró-russos" na Ucrânia oriental. Ele só não mencionou, porém, um reforço naval no Mar Negro - que a Rússia provavelmente veria como uma agressão direta, embora os membros Bulgária, Romênia e Turquia também façam fronteira com o mar. O secretário-geral insistiu, no entanto, que "mais [ações] se seguirão, se necessário".

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De acordo com a Aliança, a Rússia posicionou cerca de 40 mil tropas na fronteira oriental da Ucrânia e poderia invadir partes do país dentro de dias se quisesse. Rasmussen exortou a Rússia a retirar seus soldados.

A Aliança de 28 nações já suspendeu acordos de cooperação e negociações com o governo russo . Os Estados Unidos enviaram aviões de caça à Polônia e aos países bálticos, permitindo que a Otan reforce as patrulhas aéreas de sua fronteira. A organização tem realizado voos diários de vigilância pela Polônia e Romênia.

Crise na Ucrânia

Depois que forças ucranianas retomaram um aeródromo fora de Kramatorsk na terça (15), veículos blindados apareceram no centro da cidade mais cedo nesta quarta. Helicópteros e um jato de combate circularam nos céus do leste ucraniano, enquanto, pelas ruas, tanques fizeram uma ronda pela cidade - um deles com a bandeira da Rússia. Um oficial disse à BBC que não tinha "vindo para lutar" e nunca obedeceria as ordens para atirar em seu "próprio povo".

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Comboio de veículos blindados também entrou na cidade de Slaviansk, alguns carregando bandeiras separatistas russas ou regionais, em meio a crescentes tensões na região.

De acordo com uma agência de notícias estatal russa, moradores de Kramatorsk capturaram vários veículos blindados do Exército ucraniano, enquanto outra informou que a tripulação dos veículos havia mudado de lado e decidido se juntar aos manifestantes. Mas não está totalmente clara a razão pela qual bandeiras russas estão em exibição no território ucraniano.

Em Slaviansk, norte de Kramatorsk, cerca de 100 km da fronteira com a Rússia, os militantes pró-russos agora parecem estar no controle da cidade, de acordo com uma equipe da CNN. O clima na região, porém, não é de tensão, se comparado aos dias anteriores. Muitos moradores, aparentemente, têm dado boas-vindas à presença das forças pró-Rússia.

Donetsk

Na cidade de Donetsk,  onde ativistas têm ocupado o prédio do governo regional desde o último dia 6 , homens armados não encontraram resistência alguma enquanto entravam no gabinete do prefeito. Eles contaram a um correspondente da AFP que sua única exigência era transformar a Ucrânia em uma federação com direitos locais mais amplos por meio de um referendo.

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Enquanto as tensões crescem, o ministro interino da Defesa da Ucrânia, Mykhailo Koval, viajou ao leste do país para monitorar o progresso da "operação antiterrorista" anunciada pelo presidente interino Olexander Turchynov na terça. O primeiro-ministro em exercício, Arseniy Yatsenyuk, pediu à Rússia para "parar de apoiar terroristas na Ucrânia".

A operação começou no "norte da região de Donetsk",  Turchynov disse ao Parlamento, e está sendo conduzida "estágio por estágio de uma forma responsável". Sem dar muitos detalhes, Turchynov disse que o objetivo da operação em Donetsk era "proteger os cidadãos ucranianos, parar o terror, o crime e as tentativas de dividir o país". Não está claro, porém, quanto essa medida difere de uma anunciada na segunda-feira, que resultou em nenhuma ação visível.

"Os planos da Federação Russa foram e continuam brutais. Eles não querem apenas Donbass (a região de Donetsk), mas que todo o sul e leste da Ucrânia sejam engolidos pelo fogo", afirmou Turchynov na terça.

A crise se agravou em partes do leste neste mês, após rebeldes pró-Rússia ocuparem edifícios do governo em cerca de dez cidades, exigindo uma maior autonomia da região ou referendos sobre a secessão da Ucrânia.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, advertiu que a Ucrânia estava "à beira de uma guerra civil" em um telefonema para a chanceler alemã, Angela Merkel, na terça. O governo russo deve se reunir nesta quinta-feira (17) em Genebra com diplomatas da UE, EUA e da Ucrânia para discutir a crise no país, apesar de o país ter alertado Kiev para que não recorra à força contra os manifestantes pró-Rússia, dizendo que Moscou poderia abandonar a conferência internacional programada para discutir a crise.

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A Ucrânia contou com fornecimentos baratos de gás da Rússia durante anos. Moscou aumentos os preços do produto para Kiev em semanas recentes, deixando o país com dificuldades para pagar as crescentes contas e as dívidas multibilionárias.

Autoridades ucranianas e ocidentais acusaram a Rússia de estar por trás das manifestações pró-russos na região, enquanto Moscou nega fomentar a agitação.

*Com BBC, CNN, Reuters e AP

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