Um ano após ataque à maratona, Boston e sobreviventes lutam para ficar de pé

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Explosões na linha de chegada mataram três e feriram mais de 260, deixando vários amputados que tentam superar trauma

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Roseann Sdoia, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, é vista ao lado de seu namorado Mike Materia (18/3)

Toda vez que Roseann Sdoia chega à sua casa, tem de subir 18 degraus — seis para o prédio, mais 12 até seu apartamento. É um prédio antigo em Boston, com portas que são grandes e pesadas, um lugar nada fácil para uma amputada viver.

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Quando ela deixou o hospital, um mês depois do ataque à Maratona de Boston em 15 de abril do ano passado, teve uma escolha: poderia encontrar algum outro lugar para viver, um mais adequado para alguém que usa uma prótese que substitui a maior parte de sua perna direita. Ou poderia ficar.

"Logo que tudo isso aconteceu, muitos me disseram para mudar de cidade e sair do meu apartamento por causa das escadas e porque não há um elevador e porque o estacionamento não é muito conveniente", relembra. "Mas fui capaz de superar tudo isso."

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Nesse sentido, ela espelha a própria cidade de Boston.

"Tenho de lhe dizer, honestamente, que Boston é uma cidade melhor do que antes", disse Thomas Menino, que era prefeito de Boston durante o ataque. "As pessoas aprenderam a lidar umas com as outras, elas tiveram de lidar com uma tragédia."

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Não que tenha sido fácil. As explosões na linha de chegada da maratona deixaram três mortos e mais de 260 feridos, e o legado do trauma e dos membros perdidos continua — assim como o choque de ter vivenciado um ataque terrorista em uma amada "Maratona de Segunda-Feira".

Roseann Sdoia, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, usa muletas ao sair de hospital de reabilitação (14/5/2013). Foto: APRoseann Sdoia, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, conversa com terapeuta física ao se preparar para usar prótese (20/6/2013). Foto: APRoseann Sdoia, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, ajusta sua prótese de corrida durante sessão em hospital de reabilitação em Boston (11/3)
. Foto: APRoseann Sdoia, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, faz exercícios em hospital de reabilitação em Boston (11/3). Foto: APMarc Fucarile (C) segura a mão de sua mãe (E) e de sua noiva (D) em hospital de Boston em 9/5/2013. Foto: APMarc Fucarile, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, colaca prótese em sua casa em Reading, Massachusetts (25/3). Foto: APMarc Fucarile, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, é ajudado por terapeuta em exercícios de reabilitação (3/4). Foto: APMarc Fucarile, sobrevivente do ataque à Maratona de Boston, amarra apoio para sua perna esquerda depois de exercícios de reabilitação (3/4). Foto: APNicole Lynch, irmã de policial do MIT supostamente morto por autores do ataque em Boston, abraça sua filha (14/3)
. Foto: AP

Os moradores de Boston também não podem esquecer o medo que pairou sobre uma cidade paralisada em meio à caçada que terminou com a prisão de Dzhokhar Tsarnaev, agora com 20 anos. Tsarnaev, de origem chechena, enfrenta 30 acusações federais no ataque que supostamente lançou com seu irmão de 26 anos Tamerlan, que morreu em uma troca de tiros com a polícia.

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Mas Boston tem sido capaz de superar tudo isso. A Praça Copley, onde as bombas foram detonadas na linha de chegada, não está mais cheia de tributos improvisados aos mortos e feridos; eles estão agora sendo expostos na Biblioteca Pública de Boston.

'A vida mudou'

Com 46 anos, Roseann é vice-presidente de gerenciamento de propriedade de uma companhia de desenvolvimento de Boston. Ela é uma mulher alegre, que sorri largamente ao chegar a um hospital para fazer uma terapia física. "É apenas a minha natureza", explica. "Não sou uma pessoa negativa."

Apesar disso, conta, ainda chora todo dia. "A realidade é que a vida mudou", afirma com o rosto molhado de lágrima.

Roseann é uma corredora, mas ela não participou da maratona. Ela estava na linha de chegada, torcendo para amigos que estavam na disputa, quando a segunda bomba explodiu. Além do ferimento na perna, ela também teve perda auditiva. "Embora tenha perdido a parte inferior da minha perna, ainda sou eu", afirma.

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Segunda bomba explode perto de linha de chegada da Maratona de Boston (15/4/2013)

E, apesar disso, tanta coisa mudou. Ela teve de pedir mais licenças do trabalho que amava. Foi difícil lidar com o inverno e a neve. Ela teve de realizar tarefas diárias — tomar banho, passar o aspirador — de forma diferente.

Marc Fucarile, um carpinteiro de 35 anos, também perdeu sua perna direita acima do joelho; seu coração foi atingido por estilhaços e ainda poderia perder sua perna esquerda. "Tudo mudou", relata. "Como uso o banheiro, como tomo banho, escovo os dentes, deito e saio da cama."

Não é sempre que seu filho de 6 anos, Gavin, entende o que está acontecendo. "Gavin fala 'Vamos sair e brincar', e eu respondo 'Tem muita neve. Não posso. Não vamos sair e brincar agora, desculpe filho'. Isso parte meu coração."

'Boston é Forte'

Nos primeiros três meses depois das explosões, o One Fund, estabelecido no ano passado por Menino e pelo governador de Massachusetts, Deval Patrick, coletou US$ 61 milhões em doações. Nos cinco meses seguintes, mais US$ 12 milhões entraram.

A magnanimidade foi espelhada por um tipo de desafio orgulhoso, exemplificado pelo slogan "Boston é Forte". A quantidade de propaganda em apoio a isso foi impressionante.

"Imediatamente após as explosões, tornou-se um mantra pacífico que as pessoas poderiam repetir e acreditar. E elas repetidamente disseram isso, usaram como hashtag, tuitaram, até que realmente fosse verdade", diz Dan Soleau, um gerente de desenvolvimento de marcas da Marathon Sports.

Jennifer Lawrence, uma assistente social no Boston Medical Center, afirma que a ênfase no "Boston é Forte" teve algumas consequências infelizes. "Boa parte disso é retratar as pessoas como resilientes e tão fortes. Embora isso seja realmente verdade, estamos negligenciando o fato de que as pessoas ainda têm dias ruins", disse.

AP/Nicole Lynch
Foto de março de 2013 mostra Sean Collier, policial do MIT que foi supostamente morto pelos dois suspeitos do ataque de Boston

Logo após o ataque, mais de 600 pessoas aproveitaram os serviços de saúde mental do centro médico. E embora a maioria não precisasse mais de ajuda depois dos primeiros meses, ela viu um aumento da demanda em semanas recentes, enquanto o aniversário se aproximava.

Apesar disso, ela diz que a "grande maioria" dos que vão aos programas do hospital têm a intenção de participar na maratona deste ano, que seja como espectador ou corredor.

Nicole Lynch estará lá. Seu irmão, Sean Collier, foi o oficial do MIT morto a tiros supostamente pelos dois suspeitos do ataque. Ela estará na corrida com o Team Collier Strong — um grupo de 25 amigos e parentes, incluindo dois de seus irmãos, que correrão para arrecadar dinheiro para um fundo de bolsa de estudos que beneficiará uma pessoa no treinamento policial.

William Evans estará lá, mas ele não tem muita escolha. Ele correu a maratona 18 vezes — incluindo no ano passado —, mas dessa vez ele estará lá como comissário policial, supervisionando a segurança reforçada, incluindo mais de 3,5 mil policiais (mais do que o dobre do ano passado), mais câmeras de segurança, mais cães farejadores e restrições aos tipos de sacolas que maratonistas e espectadores podem trazer.

"É algo sempre presente na minha mente; quero que isso termine bem", diz. "Não quero ninguém ferido. Nunca quero ver uma repetição da tragédia que testemunhamos naquele dia."

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