Fragilidades do governo e da oposição emperram diálogo na Venezuela

Por BBC Brasil | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Radicais liderados por Leopoldo López e Maria Corina Machado não legitimam diálogo e prometem mais manifestações no país

BBC

Apesar da expectativa de grande parte da população, que vê com bons olhos o diálogo entre o governo e a oposição, as razões de fundo que levaram a Venezuela a uma escalada de violência - que já soma 41 mortos e centenas de feridos - podem não ser resolvidas no curto prazo por meio de negociações.

Crise: Em reunião com líder venezuelano, oposição pede anistia e investigação 

AP
Opositores não controlam protestos violentos e Maduro não consegue dar resposta a desabastecimento


Encontro: Venezuela convida número 2 do Vaticano para mediar crise política

A coalizão opositora MUD - que reúne os principais partidos de oposição - se reúne com o governo sem o apoio da sua ala radical, que na prática pode controlar os grupos que estariam envolvidos em protestos violentos.

Liderados pelo dirigente opositor Leopoldo López, preso há mais de um mês ao ser responsabilizado pela onda de violência, e pela deputada cassada Maria Corina Machado, os radicais não legitimam o diálogo e prometem manter os protestos nas ruas. Seu objetivo é a derrocada do governo.

"A MUD não é interlocutora válida sobre os protestos. Eles podem ter legitimidade para muitas coisas, menos sobre as manifestações", afirmou à BBC Brasil Daniel Vásquez, da direção do movimento estudantil opositor. O grupo se nega a dialogar com o governo.

"Essa mesa de diálogo não é a solução, não vai chegar a lugar nenhum. Precisamos de uma mudança de todos os poderes públicos, esse modelo fracassou", acrescentou.

Economia

Por outro lado, a pressão social sobre o governo pesa no âmbito econômico. O Executivo dá sinais de que poderá flexibilizar medidas como a lei de controle de preços, que provocou a ira do empresariado local - e levou a parte do grupo a estabelecer o boicote e a estocagem como medida de pressão para obrigar o governo a recuar.

Maduro: Líder da Venezuela justifica pressão contra oposição alegando golpe 

Uma fonte do governo disse à BBC Brasil que a preocupação de Maduro é resolver o problema da escassez "de qualquer jeito". "Nesse caso deverá prevalecer o pragmatismo".

Se de fato der marcha a ré na lei de congelamento de preços, Maduro terá de arcar com o custo político do aumento dos preços, "mas a população prefere pagar mais e ter o que comprar a não ver nada nas prateleiras", afirmou o funcionário.

Apesar de não estar entre os pontos centrais das declarações públicas da oposição, a abertura para uma maior participação do setor privado na condução da economia é vista como um eixo transversal "obrigatório" para amenizar o desabastecimento.

De acordo com o Banco Central da Venezuela, o índice de escassez em janeiro era de 28%, o mais alto desde 2003. Ainda que o governo aceite dialogar com o empresariado local, a escassez de produtos não será resolvida no curto prazo, na opinião do analista político Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela.

"Não há uma solução para a Venezuela de imediato. A médio prazo continuarão as disputas nas ruas e permanecerão os ciclos de escassez", afirmou Romero à BBC Brasil.

Justiça: Venezuela acusa o líder da oposição, Leopoldo López, por quatro crimes

Radicais e moderados

Após um inédito cara a cara entre o núcleo duro do governo e a ala moderada da MUD na semana passada, governistas e opositores voltam a se reunir nesta terça-feira para discutir a metodologia do processo de diálogo.

O encontro é observado por Brasil, Equador e Colômbia - em nome da Unasul (União de Países Sul-Americanos) e pelo Núncio Apostólico do Vaticano. O papel destinado à representação é limitado à acompanhar a discussão como "testemunhas de boa fé".

Diferente do encontro da semana passada, que foi transmitido em cadeia nacional de rádio e TV, a reunião desta terça-feira será a portas fechadas.

A oposição vai ao novo encontro com foco em três pontos principais: uma lei de anistia para os que consideram "presos políticos", a renovação dos poderes públicos, como a eleição dos magistrados da Justiça e do Conselho Nacional Eleitoral, e o desarmamento dos chamados "coletivos" que apoiam o chavismo.

A lei de anistia é o principal ponto de controvérsia. Os opositores exigem a libertação de todos os supostos "presos políticos" do chavismo, desde o ano 1998 até as manifestações dos últimos meses. O pedido engloba desde a libertação do opositor Leopoldo López a casos como a prisão de um ex-secretário de Segurança, responsabilizado pelas mortes durante o golpe de Estado de 2002, e a de dois acusados de terrorismo pela explosão do carro de um Procurador da República.

Confira fotos dos protestos na Venezuela

Polícia nacional da Venezuela dispara gás lacrimogêneo enquanto manifestante antigoverno se ajoelha segurando pedra durante confrontos em Caracas (6/4). Foto: ReutersManifestantes mostram cartazes com fotos de ativistas mortos durante protestos antigoverno na Plaza Altamira em Caracas, Venezuela (20/3). Foto: APPartidários do líder da oposição Leopoldo López se reúnem para protesto que pede a libertação do político após um mês de sua prisão, na Venezuela (18/03). Foto: APGuardas das forças bolivarianas patrulham a Plaza Altamira após tomarem o controle do local em Caracas, Venezuela (17/3). Foto: APEstudante da Universidade Central da Venezuela grita contra governo de Nicolás Maduro durante protesto em Caracas (12/3). Foto: APManifestante antigoverno corre em meio ao gás lacrimogêneo lançado pela polícia durante protesto em Caracas, Venezuela (12/3). Foto: ReutersManifestante joga lata de gás lacrimogêneo em direção à polícia durante protesto antigoverno em Caracas, Venezuela (11/3). Foto: APGuardas prendem manifestante durante conflitos entre ativistas e motociclistas em Los Ruices, Venezuela (10/3). Foto: APPolícia impede passagem de manifestantes que protestavam contra escassez de alimentos (8/3). Foto: APManifestantes se preparam para jogar coquetéis molotov durante confrontos em Caracas, Venezuela (6/3). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana se protegem de fogos de artifício lançados contra eles por manifestantes em Caracas, Venezuela (março/2014). Foto: APManifestantes seguram cartazes com imagens de venezuelanos que foram mortos nas duas últimas semanas durante marcha em Caracas (28/2). Foto: APManifestantes rolam cano de água na tentativa de bloquear uma rodovia importante em Caracas, Venezuela (27/02). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana avançam em direção a protestos antigoverno em Valencia, Venezuela (26/2). Foto: APManifestante segura placa em frente de cordão da Guarda Nacional Bolivariana durante protesto perto da Embaixada de Cuba em Caracas, Venezuela (25/2). Foto: APObjetos colocados por manifestantes da oposição bloqueiam estrada no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APOpositor caminha perto de acusação feita a presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em rua no bairro de Altamira, Caracas (21/2). Foto: ReutersManifestante envolto com a bandeira da Venezuela coloca mais objetos em barricada em chamas no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APPartidários do governo venezuelano marcham no centro de Caracas (20/2). Foto: APManifestante levanta os braços em direção à polícia que lança gás lacrimogêneo em bairro de Caracas, Venezuela (19/2). Foto: APMiss Génesis Carmona é levada de moto a hospital. Ela morreu após ter sido atingida por disparo na cabeça em 18/2. Foto: Reprodução/TwitterManifestante usa máscara caseira para se proteger de gás durante protestos em avenida de Caracas, Venezuela (18/02). Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente Nicolás Maduro durante marcha em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APLeopoldo López, líder da oposição da Venezuela, é preso vestido de branco e segurando flor em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APManifestante cobre a boca com pano durante protesto contra a censura do governo venezuelano em Caracas (17/2). Foto: APManifestante atira pedras na Força Nacional Bolivariana durante protesto na Venezuela (15/2). Foto: APManifestantes fecham a principal via da Venezuela (15/2). Foto: ReutersManifestantes na Venezuela são dipersados com canhões de água e gás lacrimogêneo (15/2). Foto: Carlos Garcia Rawlins/ReutersUniversitária segura cartaz em que se lê 'E quem tem as armas?' enquanto se manifesta contra o presidente Nicolás Maduro em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes choram durante vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes comparecem à vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APJovem segura livro marcado em espanhol com a frase 'Esta é a minha arma' durante protesto contra repressão de estudantes em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudante segura cartaz em que se lê 'Paz e liberdade' durante manifestação em Caracas, Venezuela (13/2)
. Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante protesto em Caracas (13/2)
. Foto: AP

Cenário: Estudantes nas ruas apoiam a direita na Venezuela

No primeiro encontro com a oposição, na quinta-feira, Maduro indicou que a lei não deve passar. "Há tempo para a Justiça e tempo para o perdão. Esse é o tempo da Justiça", afirmou o presidente venezuelano.

O governo, por sua vez, exige que a MUD reconheça a legitimidade da Presidência de Maduro e que condene a violência como forma de protesto. "Somente duas pessoas condenaram a violência, por quê? porque eles têm interesses nisso", afirmou o presidente do Parlamento e número dois do partido do governo, Diosdado Cabello."Eles se queixam da violência e são os que estão mandado assassinar os venezuelanos."

Nove em cada dez venezuelanos apoiam o diálogo, de acordo com uma pesquisa da consultoria Hinterlaces divulgada nesta terça-feira.

O otimismo em relação a um eventual resultado positivo deste diálogo, no entanto, é visto apenas entre os simpatizantes do governo. Segundo a pesquisa, 66% dos chavistas consideram que o diálogo contribuirá para resolver os problemas do país. Do lado opositor, somente 30% dizem acreditar em melhorias.

Apesar de não haver mudanças no tom da retórica, ao dialogar com os "moderados", o governo de Maduro aponta a MUD como única interlocutora política legítima. Essa tática seria uma tentativa de estimular o desgaste e o isolamento dos grupos radicais.

Leia tudo sobre: protestos na venezuelalopezmachadomanifestacoesmadurooposicaomud

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas