Lados rivais concordam em criar comissão para avaliar temas debatidos durante primeiro encontro oficial iniciado na quinta

O governo do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e membros da oposição concordaram na madrugada desta sexta-feira em designar uma comissão de alto nível que avaliará as ideias discutidas durante as seis horas da primeira rodada oficial de negociações, cujo objetivo é alcançar uma solução para a crise política que atinge o país há dois meses. O encontro, iniciado às 20h15 locais de quinta-feira (21h45 em Brasília), estendeu-se até as 2h15 locais desta sexta.

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Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro (C), observa os líderes da oposição reunidos no palácio de Miraflores no início de reunião que discutiu crise no país (10/4)
AP
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro (C), observa os líderes da oposição reunidos no palácio de Miraflores no início de reunião que discutiu crise no país (10/4)

No início do primeiro encontro oficial entre o governo venezuelano e a oposição, uma mensagem escrita do papa Francisco conclamou os dois lados a pôr de lado suas diferenças políticas e demonstrar a coragem necessária para alcançar um acordo que evite mais banho de sangue depois de semanas de protestos violentos em várias regiões do país. As manifestações deixaram ao menos 40 mortos, mais de 600 feridos, além de danos materiais e mais de 80 denúncias por violações de direitos humanos desde fevereiro.

"Estou ciente da inquietação e da dor sentidas por muitas pessoas", disse o papa na mensagem lida por Aldo Giordano, o representante da Santa Sé em Caracas. "Peço que vocês não fiquem presos no conflito, mas se abram uns aos outros para se transformar em reais construtores da paz."

Em negociações que foram televisionadas, líderes-chave da oposição, incluindo Henrique Capriles, que por duas vezes foi candidato presidencial, concordaram em se sentar com Maduro depois de receber garantias de que o governo socialista está disposto a discutir questões difíceis como a anistia para oponentes do governo presos e a criação de uma comissão da verdade independente para investigar quem tem de ser responsabilizado pelas mortes relacionadas aos protestos.

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Com uma forte tensão no palácio presidencial de Miraflores, em Caracas, Maduro quebrou o gelo cumprimentando com um aperto de mão cada membro da oposição, incluindo Capriles, a quem ele regularmente ataca em público e derrotou por pouco nas eleições de abril de 2013 , pouco depois da morte de Hugo Chávez por um câncer.

Só o fato de fazer com que os dois lados fiquem no mesmo cômodo é uma tarefa monumental em um país polarizado por 15 anos de governo socialista. Enquanto os opositores acusam o governo de destruir a economia do país rico em petróleo e de reprimir a dissidência, Maduro alega que oponentes radicais, apoiados pelos EUA, tentam repetir os eventos desestabilizados que levaram ao golpe de 2002, que destitui Chávez brevemente do poder.

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Mas nem todos da oposição compareceram. Vários partidos na chamada aliança da Unidade Democrática, incluindo o liderado pelo radical preso Leopoldo López, rejeitaram as negociações como um embuste político cujo propósito é retratar Maduro como um pacifista.

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Grupos estudantis, que são duros oponentes de Maduro, também rejeitaram o encontro de quinta e realizaram um protesto em que denunciaram como "traidores" os membros da oposição que estenderam a mão a Maduro. Refletindo a teimosia em ambos os lados, as 22 pessoas que falaram durante o encontro em sua maioria apenas criticaram seus rivais no espetáculo midiático de horas de duração.

Chanceleres do Equador, Ricardo Patiño (E), Colômbia, Maria Angela Holguín, e Brasil, Luiz Alberto Figueiredo, são vistos após reunião preparatória em Caracas (8/4)
AP
Chanceleres do Equador, Ricardo Patiño (E), Colômbia, Maria Angela Holguín, e Brasil, Luiz Alberto Figueiredo, são vistos após reunião preparatória em Caracas (8/4)

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Durante um pronunciamento de 53 minutos, Maduro pediu à oposição que condene a violência como uma forma de fazer política e que procure uma "visão conjunta" para solucionar a crise que afeta o país. "Há que fazer um apelo ao respeito pela Constituição. Condenar a violência é vital, é necessário. É muito importante procurar o caminho do reconhecimento e não dos atalhos", frisou.

Então chegou a vez de Ramón Guillermo Aveledo, secretário-executivo da aliança opositora, que reclamou da domínio que Maduro exerce sobre a mídia nacional, afirmando que a transmissão diária de seus longos discursos pela televisão e rádio tornou quase impossível aos venezuelanos ouvir outros pontos de vista. "É um sinal preocupante de que algo está muito errado quando um encontro entre o governo e a oposição é um evento raro", disse Aveledo.

O próximo encontro, que tem como facilitadores o Vaticano, o Brasil, o Equador e a Colômbia, deve ocorrer na terça-feira (15). Esse encontro teria uma primeira sessão como representantes da Federação de Estudantes Universitários, que enviou uma carta a Maduro para exigir a libertação dos presos. A segunda sessão definiria a constituição da comissão da verdade, com assessoria internacional e investigadores imparciais.

Na terça-feira de 22 de maio, outra reunião discutiria o desarme dos "colectivos" (milícias armadas).

*Com AP e jornal venezuelano El Nacional

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