Líderes sindicais reivindicam reajuste salarial e redução dos impostos. Para presidente, paralisação tem motivação política

Uma greve nacional paralisou a economia da Argentina, fechando o tráfego aéreo, ferroviário e de ônibus e também lojas, escolas públicas e portos, desafiando a presidente Cristina Kirchner enquanto a popularidade de seu governo se deteriora em meio a uma alta inflação que corrói o poder de compra da população e cresce a violência urbana.

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A paralisação interrompeu toda a atenção hospitalar não emergencial, deixou lixo em ruas vazias e complicou muitos outros aspectos da vida nessa nação sul-americana. O protesto, ao qual aderiram os sindicatos dos transportes públicos e importantes associações de caminhoneiros e servidores públicos, reivindica um reajuste dos salários e uma redução dos altos impostos que incidem sobre a renda, após uma desvalorização do peso argentino de 35% em 12 meses.

Os líderes sindicais também querem mais controle sobre as contribuições de assistência à saúde que alegadamente usaram como caixa dois.

Todos os argentinos têm de enfrentar uma inflação de mais de 30%, mas o dinheiro para pagar aumentos têm de vir de algum lugar. Muitos se preocupam que o governo de Cristina está pressionando a classe média ao aumentar os impostos e ao cortar subsídios para apaziguar os poderosos.

Maria Eugenia Diez é uma dona de casa de classe média que diz ver com simpatia a greve por problemas salariais da classe trabalhadora, mas está profundamente preocupada que a economia argentina esteja em colapso.

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O secretário-geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Hugo Moyano, um dos organizadores da greve, disse que a presidente se comporta com "orgulho" e pediu que ela ouça as queixas.

"A paralisação é para ratificar que haja articulações (negociações salariais) livres", disse Moyano, que também pediu um aumento salarial "de emergência" aos aposentados e medidas governamentais para conter a crescente violência urbana.

Moyano, também líder dos caminhoneiros, comanda um sindicato do qual dependem desde o transporte de jornais, combustíveis e valores até a coleta de lixo e a provisão de comida para as companhias aéreas.

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Uma das razões da greve é a reivindicação de uma atualização, devido à inflação, do imposto incidente sobre os lucros, que se aplica aos salários.

Presidente argentina, Cristina Kirchner, conversa com a imprensa em agosto
AP
Presidente argentina, Cristina Kirchner, conversa com a imprensa em agosto

A Argentina sofre com uma das maiores taxas de inflação do mundo enquanto a economia dá sinais de esgotamento após quase uma década de forte crescimento. A tabela salarial sobre a qual incide o imposto foi atualizada apenas em anos recentes e acabou defasada por causa dos ajustes salariais em decorrência da elevada inflação.

A tabela do imposto não se atualiza automaticamente em relação ao custo de vida e depende somente da decisão da presidente.

O governo afirmou que o protesto tem motivos políticos e não sindicais, ao acusar os sindicalistas de esta alinhados com o líder opositor Sergio Massa, um peronista que abandonou o governo e agrupa atrás de si as forças de oposição, visando às eleições presidenciais no fim de 2015.

A greve, que se prolonga por toda a quinta, vai afetar a principal região agroexportadora no momento em que a colheita de soja, principal plantação do país, está no auge. A Argentina é o maior exportador mundial de óleo e farinha de soja e o terceiro de milho.

A alta instabilidade social da Argentina, onde são frequentes o bloqueio de ruas e as manifestações sociais, deve se intensificar durante a realização das negociações salariais anuais, que acabam de começar entre os sindicatos e as organizações patronais.

*Com Reuters e AP

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