'Se livrar do trauma é doloroso e demorado', diz ex-escrava sexual da Califórnia

Por Amanda Campos - iG São Paulo |

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Minh Dang foi obrigada a se prostituir pelos próprios pais dos 10 até o fim da faculdade. Hoje ela luta contra o tráfico humano

Das lembranças que carrega da infância, uma especificamente Minh Dang, 29, gostaria de eliminar da memória: o dia em que foi levada pelos próprios pais para se prostituir em bordéis da cidade de San José, Califórnia, quando tinha apenas 10 anos.

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Arquivo pessoal
Minh Dang, 29 anos, tinha apenas 10 quando foi obrigada pelos pais a se prostituir, na Califórnia, EUA


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“Vivia em uma 'prisão'. Não podia abandonar meus pais porque não era adulta e, afinal, estava sob a guarda deles. Fui treinada a não falar com ninguém sobre os abusos sexuais que sofria. Se recuperar de um trauma tão grave desses é desgastante, demorado e doloroso”, disse ao iG.

Mas os abusos contra a jovem californiana - cuja família é de origem vietnamita - começaram bem mais cedo. Em entrevista ao The Daily Mail, ela lembra que seu pai começou a abusá-la física, sexual e emocionalmente de forma contínua quando tinha cerca de 3 anos.  

“Meu pai me colocou no ramo [da prostituição]. Então, eles [pai e mãe] me levavam para bordéis e me deixavam lá por semanas. Esse era meu trabalho”, contou ao jornal britânico. “Eles inclusive buscavam as pessoas que dormiriam comigo. Minha mãe colocava anúncios em jornais e revistas vietnamitas.”

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Quando não estava nos bordéis, ela tentava levar uma vida o mais próxima do normal possível. Aluna nota dez, Minh jamais contou a ninguém na escola sobre as agressões que sofria. Nem mesmo a seus professores que, de acordo com a americana de ascendência vietnamita, não perceberam nada de anormal em seu comportamento da adolescente tímida, dona de um dos melhores desempenhos da turma.

“Meu professor de música até suspeitou que havia algo estranho. Mas não acho que ele poderia supor que era isso [abuso sexual], porque eu era uma estudante de notas altas. Não tinha um perfil típico de uma criança delinquente”, afirmou.

Após terminar o ensino médio, a "vida dupla" de Minh continuou até os primeiros anos de sua jornada na Universidade da Califórnia, Berkeley. Mas, com o pagamento da última mensalidade, a ativista cortou definitivamente os laços com seus pais e os ameaçou, dizendo que entraria em contato com a polícia caso a procurassem novamente. 

Minh Dang, ex-escrava sexual, dá palestras sobre o problema do tráfico humano no mundo nos EUA. Foto: Arquivo pessoalA californiana foi escravizada sexualmente pelos próprios pais aos 10 anos de idade nos EUA. Foto: Arquivo pessoalMinh Dang tinha cerca de 3 anos quando sofreu o primeiro abuso sexual de seu pai nos EUA. Foto: Reprodução/YoutubeMinh Dang se tornou ativista e defende as vítimas do tráfico internacional com palestras pelos EUA. Foto: Arquivo pessoalMinh Dang conta que só conseguiu superar seus traumas quando iniciou terapia, em 2005. Ela dá palestras sobre o assunto nos EUA. Foto: Reprodução/YoutubeMinh Dang só conseguiu se livrar da prostituição da qual era submetida após a faculdade. Ela estudou na Califórnia, EUA. Foto: Reprodução/Youtube

“A faculdade fazia parte do meu plano de fuga. Eu não poderia sair daquela situação sem passar pela universidade”, afirmou ao iG.

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Uma equipe de reportagem da NBC rastreou a mãe de Minh em seu salão de beleza na cidade de Montain View, no condado de Santa Clara, Califórnia, em 2012. À época, ela se recusou a aparecer diante das câmeras e negou que tenha mantido sua filha como uma escrava sexual na infância.

“Eles fingem que isso nunca aconteceu. Além disso, eles têm seu próprio histórico de traumas. Meus pais foram movidos pela ganância. Ganância pelo dinheiro que achavam que preencheria seus corações vazios”, afirmou Minh ao site da MTV dos EUA.

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Hoje, ela é mestre em assistência social pela universidade em Berkeley e cruza os Estados Unidos com palestras sobre o problema do tráfico humano no mundo. Ela visitou várias instituições de ensino, inclusive a prestigiosa Universidade de Stanford, com a palestra "A Linguagem que Liberta: Falando sobre Nosso Caminho à Liberdade".

Cerca de 21 milhões de pessoas - ou três em cada 1 mil no mundo - são vítimas de trabalho forçado. Desse número, ao menos 4,5 milhões são mulheres e meninas vítimas de exploração sexual, comércio que movimenta aproximadamente US$ 32 bilhões ao ano (cerca de R$ 72 bilhões), segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) de 2012.

"Dividir minhas experiências com grupos me ajuda porque minha liberdade está relacionada à libertação dos outros. Quando eu falo desse problema em palestras, estou quebrando um silêncio que fui forçada a manter por anos”, concluiu.

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