EUA construíram 'Twitter cubano' secreto para fomentar dissidência contra regime

Por AP | - Atualizada às

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ZunZuneo reuniria massa crítica jovem que eventualmente se organizaria para empurrar governo para mudança democrática

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O governo dos EUA arquitetou a criação de um "Twitter cubano" — uma rede de comunicações para minar o governo comunista em Cuba construída com companhias de fachada e financiada através de bancos estrangeiros, descobriu a agência americana Associated Press (AP).

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O projeto do governo presidente Barack Obama, que durou mais de dois anos e atraiu dezenas de milhares de assinantes, buscou escapar do controle de Cuba sobre a internet com uma primitiva plataforma de mídia social. Primeiro, a rede atrairia uma audiência cubana, em sua maioria de jovens; então, o plano era empurrá-los em direção à dissidência.

Apesar disso, seus usuários não tinham consciência de que ela foi criada por uma agência dos EUA com vínculos com o Departamento de Estado nem sabiam que empreiteiros americanos reuniam dados pessoais sobre eles com a esperança de que a informação compilada pudesse ser usada algum dia com objeticos políticos.

Não está claro se o esquema era legal sob a lei americana, que requer autorização por escrito de ação secreta pelo presidente e uma notificação do Congresso. Autoridades disseram que a Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA (Usaid, na sigla em inglês) não informaria quem aprovou o programa ou se a Casa Branca estava ciente dele. O governo cubano rejeitou um pedido de comentário sobre o caso.

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O administrador da Usaid, Rajiv Shah, afirmou nesta quinta-feira que não era um programa secreto, embora "partes dele fossem feitas discretamente" com o objetivo de proteger os envolvidos. Shah disse na MSNBC que um estudo do Escritório de Prestação de Contas do Governo dos EUA (GAO, na sigla em inglês) definiu o projeto como consistente com a lei. "Não é um programa secreto de forma nenhuma", afirmou.

Investigadores do Congresso foram questionados em 2011 por John Kerry, então presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado e agora secretário de Estado, para examinar se os programas dos EUA de promoção da democracia em Cuba eram operados de acordo com as leis americanas, entre outras questões. O relatório divulgado pelo GAO em janeiro de 2013 não examina se os programas eram secretos. Também não diz se quaisquer leis americanas foram quebradas.

O porta-voz da Casa Branca Jay Carney ecoou a declaração de Shah e disse não estar ciente de que indivíduos na Casa Branca tivessem conhecimento do programa. Carney também disse que Obama não apoia esforços para expandir as comunicações em Cuba.

No mínimo, os detalhes descobertos pela AP parecem estremecer as antigas alegações da Usaid de que não conduz operações secretas, e os detalhes poderiam minar a missão da agência de entregar auxílio aos pobres e vulneráveis do mundo — um esforço que requer a confiança e a cooperação de governos externos.

A Usaid e seus empreiteiros foram longe para esconder os vínculos de Washington com o projeto, de acordo com entrevistas e documentos obtidos pela AP. Eles estabeleceram companhias de fachada na Espanha e nas Ilhas Cayman para ocultar o rastro do dinheiro e recrutaram CEOs sem lhes contar que trabalhariam em um projeto financiado com o dinheiro dos contribuintes americanos.

"Não haverá absolutamente nenhuma menção ao envolvimento do governo americano", de acordo com um memorando de 2010 da Mobile Accord Inc., um dos criadores do projeto. "Isso é absolutamente crucial para o sucesso de longo prazo do serviço e para garantir o sucesso da missão."

O projeto, apelidado de "ZunZuneo", gíria para o chilrear de um beija-flor cubano, foi lançado publicamente depois da prisão em 2009 em Cuba do empreiteiro americano Alan Gross. Ele foi preso depois de viajar repetidamente para o país em uma missão clandestina separada da Usaid para expandir o acesso à internet usando tecnologia sensível que apenas os governos podem usar.

A AP obteve mais de 1 mil páginas de documentos sobre o desenvolvimento do projeto. A agência verificou de forma independente o escopo e os detalhes do projeto por meio de bases de dados disponíveis publicamente, fontes do governo e entrevistas com os envolvidos no ZunZuneo.

O projeto da mídia social começou a ser desenvolvido em 2009, depois que a Creative Associates International, cuja base é Washington, obteve meio milhão de números de celulares cubanos ao que tudo indica de forma ilícita por meio de uma fonte-chave dentro do provedor estatal do país. Os organizadores do projeto usaram esses números para começar uma base de assinantes.

Os organizadores do ZunZuneo queriam que a rede social crescesse lentamente para evitar detecção pelo governo cubano. Eventualmente, revelam documentos e entrevistas, eles esperavam que a rede alcançasse uma massa crítica para que os dissidentes pudessem organizar reuniões que fossem convocadas sem previsão e desatassem protestos políticos ou "renegociassem o equilíbrio de poder entre o Estado e a sociedade".

O governo cubano mantém um forte controle sobre a informação, e os líderes do país veem a internet como um "potro selvagem" que "deve ser domado". Os líderes do ZunZuneo planejavam empurrar Cuba "para fora de um impasse por meio de iniciativas táticas e temporárias, e colocar em andamento o processo de transição em direção a uma mudança democrática".

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