Depois de 2010, chilenos estavam atentos a possível grande terremoto

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Tremor de 2010, que matou mais de 500, contribuiu para uma organizada e rápida saída dos chilenos das regiões atingidas

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A experiência do terremoto de fevereiro de 2010, quando mais de 500 pessoas morreram, contribuiu para a organização e rapidez com que os chilenos deixaram a orla do norte do país na noite desta terça-feira, logo após o tremor de 8,2 de magnitude, segundo analistas e autoridades locais.

Vídeo: Tremor leva pânico a populações costeiras do Chile; assista

AFP
Moradores da costa do Chile tiveram de deixar suas casas após tremor de 8,2 de magnitude


Alerta: Chile suspende alerta de tsunami após terremoto que matou ao menos 6

Imagens veiculadas pela TV chilena mostraram momentos de apreensão, mas não houve pânico generalizado.

Além disso, os sucessivos tremores registrados em março, na mesma região do país, já tinham deixado a população atenta para a chegada de um "possível grande terremoto", como disse o especialista Marcelo Lagos à emissora de televisão TV Chile, de Santiago.

Segundo o Escritório Nacional de Emergência do Chile (Onemi), o terremoto foi de 8,2 de magnitude. Em 2010, foi de 8,8. Terremotos de magnitude 8 ou mais são considerados "grandes", com alta capacidade de destruição de áreas próximas ao seu epicentro.

O Chile é um país com forte atividade sísmica e, segundo especialistas da Universidade do Chile, fortes tremores ocorrem no país a cada 25 anos (1960, 1985 e 2010). No entanto, não se registrava nenhum terremoto de "alta intensidade" na região norte do país desde o século 19.

Na semana passada, Mario Pardo, doutor em física e sismologia, explicou à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, os motivos para o norte do país ter registrado mais de 400 tremores no mês passado.

"Esses mais de 400 eventos se concentram em uma área relativamente pequena da área de contato entre a placa de Nazca, sob o oceano Pacifico, e a placa da América do Sul. (...) Quando as placas avançam ocorre o terremoto. Mas aqui (elas) estão 'travadas' desde o terremoto seguido de tsunami de 1877 em Iquique, o que gera uma lacuna sísmica. O que importa é que o processo está ativo", disse Pardo.

Na noite de terça, o primeiro sinal de alerta, logo após o terremoto, foi dado pelos bombeiros. Com sirenes, eles alertaram os moradores das regiões próximas à costa que estes deveriam evacuar suas casas e buscar "áreas seguras" – os pontos mais altos da cidade, longe das possíveis ondas de tsunami.

Nesta madrugada, a costa norte do Chile reviveu as cenas ocorridas em Santiago, Valparaíso e outros pontos do centro e parte do sul do território chileno em 2010. Regiões como Arica e Antofagasta ficaram às escuras e a comunicação por celular também foi afetada em alguns pontos, de acordo com a imprensa local.

Famílias inteiras passaram a noite nas praças nos pontos altos das cidades após terem deixado a orla caminhando ou de carro, numa fila de engarrafamento.

Agasalhadas, conversando entre eles ou ouvindo o rádio, os chilenos esperavam o fim do alerta de tsunami para voltar para casa. Pouco depois do terremoto, o Onemi informou que o "alerta para toda a costa chilena duraria seis horas". A operação de prevenção incluiu a transferência de presos e de pessoas hospitalizadas para áreas afastadas do mar.

Confira imagens sobre o abalo na galeria de fotos

Barcos foram lançados em terra firme por ondas após abalo sísmico no Chile (2/03). Foto: APOndas imensas acabaram levando os barcos para o cais, no Chile (2/03). Foto: APSobreviventes se abraçam após abalo de magnitude 8,2, em Iquique, Chile. Países como Peru e Bolívia também sentiram o abalo (2/03). Foto: APVeículos militares fazem ronda após terremoto em Iquique, Chile. Governo ordenou que regiões litorâneas fossem esvaziadas (2/03). Foto: APSobreviventes tentam se comunicar após terremoto de magnitude 8,2 no Chile (2/03). Foto: APRestaurante pega fogo após terremoto em Iquique, Chile (2/03). Foto: APVisão noturna da cidade de Iquique, Chile, após terremoto (2/03). Foto: AP

"Após ter sido declarado alerta de tsunami, 90% dos moradores da orla foram evacuados. A saída das pessoas foi muito tranquila", disse o prefeito Valentin Volta, de Antofagasta.

Um dos pontos que mais sentiu o tremor foi Arica, que também ficou sem luz e registrou vários tremores secundários, segundo o Onemi.

"Aqui em Arica temos a cultura sísmica. Mas muita gente aqui na área alta, na parte segura, diz que não pretende voltar para casa tão cedo. Que vão esperar mesmo depois que seja suspenso o alerta de tsunami", disse um repórter do canal 24 horas, falando de Arica.

Em outro extremo, no arquipélago de Juan Fernández, casas foram evacuadas no fim da noite por temor a um tsnunami. "A verdade é que depois do que enfrentamos em 2010 agora estamos melhor preparados, tanto em termos de comunicação como de prevenção", disse o prefeito local, onde em 2010 ondas de quinze metros deixaram dez mortos.

Treinamento

Os chilenos aprendem desde pequenos como agir na hora do terremoto, lembrando que é "melhor dormir com documentos e dinheiro por perto, para não esquecer na hora de sair rápido do local, saber antecipadamente onde fica a porta da saída do hotel ou de casa e, se estiver em casa, encher a banheira e tanques com água, porque falta luz e depois falta água", como disse à BBC Brasil o analista político Ricardo Israel, logo após o terremoto de 2010.

Apesar deste conhecimento e dos prédios antissísmicos em grande parte do país, os tremores assustam. Duas das cinco mortes relacionadas ao terremoto de terça-feira à noite ocorreram por paradas cardíacas. Outras três pessoas morreram atingidas por paredes que desabaram.

Em 2010, o governo da então presidente Michelle Bachelet – reeleita há menos de um mês – foi criticado pela oposição, que a acusou de ter demorado a dar o alerta de tsunami e a convocar as Forças Armadas para, por exemplo, viabilizar a evacuação das casas e de outros locais perto da orla.

Na madrugada dessa quarta-feira, Bachelet falou aos chilenos por volta das 2h da manhã locais (2h de Brasília). Diante das câmeras de televisão, ela informou que estava acompanhando toda a situação.

"Declaramos alerta (para a região afetada pelo tremor). E declaramos estado de emergência para (as cidades de) Arica, Parinacota e Tarapacá, com o envio das Forças Armadas para a manutenção de ordem pública (nestes locais)", disse a presidente.

"E quero pedir às pessoas que mantenham a calma. E dizer que o governo vai continuar trabalhando", afirmou.

Em 2010, estabelecimentos comerciais das áreas afetadas pelo terremoto e tsunami foram saqueados. Dessa vez, o governo pediu a ajuda dos militares para evitar novos distúrbios, de acordo com a imprensa local.

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