Cresce desconfiança e cai apoio do Brasil à Venezuela sob Maduro

Por Reuters |

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Governo brasileiro está insatisfeito com a maneira como líder venezuelano enfrenta problemas econômicos e manifestações

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O Brasil, o maior país e o principal poder diplomático da América Latina, tem reduzido seu apoio ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por causa da insatisfação com a maneira com que ele vem enfrentando os problemas econômicos e os protestos de rua liderados pela oposição.

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Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, cumprimenta a presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto, em Brasília (9/5/2013)

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A mudança de postura, embora sutil, priva Maduro de parte do apoio regional necessário que ele quer, em um momento de escassez de alimentos, alta inflação e incerteza política no país integrante da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

De modo geral, a presidente Dilma Rousseff permanece uma aliada de Maduro. Enquanto Dilma é mais moderada, ambos são parte de uma geração de presidentes latino-americanos de esquerda que cresceram fazendo oposição a governos pró-Washington e acreditam estar unidos em uma missão para ajudar os pobres.

No entanto, Dilma está cada vez mais preocupada com algumas das ações de Maduro e freou o apoio mais entusiasmado ao país, que caracterizou as relações Brasil-Venezuela sob o antecessor de Maduro, Hugo Chávez (morto em 2013), de acordo com dois funcionários próximos ao governo Dilma.

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A presidente estaria preocupada com a repressão do governo venezuelano aos protestos de rua recentes e com a recusa de Maduro em manter um diálogo genuíno com os líderes da oposição, o que pode agravar a crise política com o tempo, disseram os funcionários.

Um agravamento dos conflitos, por sua vez, pode pôr em risco interesses consideráveis de empresas brasileiras na Venezuela, que incluem o conglomerado Odebrecht. O jornal Valor Econômico informou neste mês que o setor público venezuelano já deve a empresas brasileiras até US$ 2,5 bilhões. "O caminho escolhido por Maduro é cheio de riscos", disse uma autoridade que não quis ter o nome divulgado. "Estamos tentando encorajá-lo a mudar."

Veja as imagens dos protestos na Venezuela:

Polícia nacional da Venezuela dispara gás lacrimogêneo enquanto manifestante antigoverno se ajoelha segurando pedra durante confrontos em Caracas (6/4). Foto: ReutersManifestantes mostram cartazes com fotos de ativistas mortos durante protestos antigoverno na Plaza Altamira em Caracas, Venezuela (20/3). Foto: APPartidários do líder da oposição Leopoldo López se reúnem para protesto que pede a libertação do político após um mês de sua prisão, na Venezuela (18/03). Foto: APGuardas das forças bolivarianas patrulham a Plaza Altamira após tomarem o controle do local em Caracas, Venezuela (17/3). Foto: APEstudante da Universidade Central da Venezuela grita contra governo de Nicolás Maduro durante protesto em Caracas (12/3). Foto: APManifestante antigoverno corre em meio ao gás lacrimogêneo lançado pela polícia durante protesto em Caracas, Venezuela (12/3). Foto: ReutersManifestante joga lata de gás lacrimogêneo em direção à polícia durante protesto antigoverno em Caracas, Venezuela (11/3). Foto: APGuardas prendem manifestante durante conflitos entre ativistas e motociclistas em Los Ruices, Venezuela (10/3). Foto: APPolícia impede passagem de manifestantes que protestavam contra escassez de alimentos (8/3). Foto: APManifestantes se preparam para jogar coquetéis molotov durante confrontos em Caracas, Venezuela (6/3). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana se protegem de fogos de artifício lançados contra eles por manifestantes em Caracas, Venezuela (março/2014). Foto: APManifestantes seguram cartazes com imagens de venezuelanos que foram mortos nas duas últimas semanas durante marcha em Caracas (28/2). Foto: APManifestantes rolam cano de água na tentativa de bloquear uma rodovia importante em Caracas, Venezuela (27/02). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana avançam em direção a protestos antigoverno em Valencia, Venezuela (26/2). Foto: APManifestante segura placa em frente de cordão da Guarda Nacional Bolivariana durante protesto perto da Embaixada de Cuba em Caracas, Venezuela (25/2). Foto: APObjetos colocados por manifestantes da oposição bloqueiam estrada no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APOpositor caminha perto de acusação feita a presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em rua no bairro de Altamira, Caracas (21/2). Foto: ReutersManifestante envolto com a bandeira da Venezuela coloca mais objetos em barricada em chamas no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APPartidários do governo venezuelano marcham no centro de Caracas (20/2). Foto: APManifestante levanta os braços em direção à polícia que lança gás lacrimogêneo em bairro de Caracas, Venezuela (19/2). Foto: APMiss Génesis Carmona é levada de moto a hospital. Ela morreu após ter sido atingida por disparo na cabeça em 18/2. Foto: Reprodução/TwitterManifestante usa máscara caseira para se proteger de gás durante protestos em avenida de Caracas, Venezuela (18/02). Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente Nicolás Maduro durante marcha em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APLeopoldo López, líder da oposição da Venezuela, é preso vestido de branco e segurando flor em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APManifestante cobre a boca com pano durante protesto contra a censura do governo venezuelano em Caracas (17/2). Foto: APManifestante atira pedras na Força Nacional Bolivariana durante protesto na Venezuela (15/2). Foto: APManifestantes fecham a principal via da Venezuela (15/2). Foto: ReutersManifestantes na Venezuela são dipersados com canhões de água e gás lacrimogêneo (15/2). Foto: Carlos Garcia Rawlins/ReutersUniversitária segura cartaz em que se lê 'E quem tem as armas?' enquanto se manifesta contra o presidente Nicolás Maduro em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes choram durante vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes comparecem à vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APJovem segura livro marcado em espanhol com a frase 'Esta é a minha arma' durante protesto contra repressão de estudantes em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudante segura cartaz em que se lê 'Paz e liberdade' durante manifestação em Caracas, Venezuela (13/2)
. Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante protesto em Caracas (13/2)
. Foto: AP

A posição brasileira não resulta em maior apoio à oposição venezuelana, enfatizaram os funcionários, acrescentando que o principal objetivo do Brasil é encorajar a democracia e a estabilidade econômica na região.

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O exemplo mais claro até o momento de uma mudança de postura do Brasil veio em uma reunião de líderes regionais na posse da presidente do Chile, Michelle Bachelet, no início deste mês.

Maduro disse que queria que os presidentes da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) se reunissem durante o encontro no Chile para fazer uma declaração conjunta de apoio a seu governo.

No entanto, Dilma recebeu a ideia com frieza e deixou o Chile horas depois da posse de Bachelet. Inesperadamente, Maduro mudou seus planos e não viajou para o Chile para o evento.

Grande influência em Caracas

No dia seguinte, chanceleres da Unasul se encontraram e evitaram expressar apoio a um dos lados na Venezuela. Eles condenaram a violência e enviaram "condolências" às vítimas, o povo venezuelano e, por último, o "governo democraticamente eleito".

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Em contraste com uma declaração da Unasul em abril do ano passado, o nome de Maduro não foi mencionado, apesar da insistência de alguns diplomatas. O documento também usou abundantemente uma linguagem pedindo paz e respeito aos direitos humanos, enquanto chamava "todas as forças políticas" a dialogar. Tais nuances carregam significados importantes para ambos os lados da disputa política na Venezuela.

Como Chávez, Maduro tem frequentemente procurado o apoio regional em momentos problemáticos. A declaração da Unasul em abril passado foi fundamental para legitimar sua posição no país depois de uma eleição presidencial controversa.

Os governos do México e do Peru pediram publicamente para Maduro dialogar com a oposição nas últimas semanas. Outros, como a Argentina e Nicarágua, têm apoiado o líder venezuelano mais incondicionalmente.

O poder econômico do Brasil e seu status de modelo para políticas de esquerda pragmáticas na América Latina dá ao país influência significativa. Henrique Capriles, uma das principais figuras da oposição venezuelana, apontou o governo do Partido dos Trabalhadores como responsável pelo tipo de políticas que ele abraçaria, se eleito, apesar de sua coalizão incluir membros mais conservadores.

Ambos os lados estão ansiosos para ganhar o apoio do Brasil, e os sinais enviados pelo governo Dilma são acompanhados de perto na Venezuela.

Muitos na oposição da Venezuela têm expressado sua insatisfação por Dilma não ter condenado explicitamente Maduro pela violência recente que deixou mais de 30 mortos. As vítimas incluem simpatizantes do governo e da oposição, bem como as forças de segurança. Alguns blogs da oposição apontaram que a maior parte do gás lacrimogêneo usado pela polícia é feito no Brasil.

Mas autoridades brasileiras dizem que precisam ser cuidadosas, uma vez que as declarações mais críticas poderiam estabelecer comparações com Washington, o inimigo número 1 da Venezuela, além do risco de acabar com o diálogo com Maduro completamente.

Dilma também quer laços construtivos com a oposição, mas ela sinaliza que nem seu governo nem outros poderes regionais vão tolerar esforços antidemocráticos para depor Maduro, em um golpe como o que derrubou Chávez brevemente em 2002.

Com essa intenção, Dilma procurou sigilosamente o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, quando estavam no Chile para a posse de Bachelet. Ela pediu ajuda aos Estados Unidos para garantir que a oposição da Venezuela não faça nada radical como tentar depor Maduro, de acordo com duas autoridades com conhecimento da conversa.

Outro fator por trás da postura de Dilma é a eleição brasileira em outubro, em que ela vai tentar se reeleger. Seus dois principais opositores a criticaram por não ser dura o suficiente com Maduro.

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