Quais são as motivações da Rússia na crise da Ucrânia?

Por BBC Brasil |

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O congressista russo Vyacheslav Nikonov defende que o país teme, entre outras coisas, perder sua base naval da Crimeia

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Uma simples olhada no mapa da Europa permite a qualquer observador entender a importância estratégica, para a Rússia, de um grande país vizinho como a Ucrânia.

Hoje: Rússia 'se reserva o direito de intervir por seus cidadãos' na Ucrânia

Reprodução/Reuters
Kremlen teme que sua própria população se rebele contra autoritarismo


Ontem: Rússia realiza exercício militar perto da Ucrânia

Os receios russos em relação aos protestos que resultaram na derrubada do presidente ucraniano, Viktor Yanukovych, ficaram evidentes nas recentes declarações de um congressista russo, Vyacheslav Nikonov: "A Rússia é contra o violento golpe (a revolução ucraniana no mês passado), que foi idealizado principalmente pelos americanos, cujo objetivo é levar a Ucrânia para a Otan (aliança militar ocidental). A Rússia considera isso uma ameaça à sua existência e fará o que for necessário para impedir que aconteça".

Da perspectiva dos atuais ocupantes do Kremlin, A Ucrânia faz parte de uma série de países que criam uma zona de separação entre a Rússia e a Europa, em particular as nações que fizeram parte do bloco oriental e agora são membros da Otan.

Some isso ao medo de perder a base naval da Crimeia, que fornece acesso ao Mediterrâneo para a a esquadra russa do mar Negro e será possível entender porque era inevitável que Moscou tomasse uma atitude dramática.

Ruim para todos

As alegações exaustivamente repetidas pelos russos de que a revolução em Kiev libertou hordas de "neonazistas" dispostos a varrer a população de origem russa do leste da Ucrânia são apenas um pretexto para encobrir a razão estratégica real para a intervenção militar na Crimeia.

E até agora o Kremlin não deu sinais de que voltaria atrás, dando uma resposta contundente às ameaças da Europa e dos Estados Unidos de impor mais sanções à Rússia se o país anexar a Crimeia no referendo marcado para o próximo sábado.

Confira as fotos da ocupação russa na Crimeia

Comboio de caminhões brancos com ajuda humanitária deixa Alabino, nos arredores de Moscou, Rússia (12/08). Foto: APManifestante ao lado de transeuntes na Praça da Independência em Kiev (9/08). Foto: ReutersManifestante segura coquetel molotov enquanto tenta impedir que trabalhadores municipais e voluntários limpem barricadas em Kiev (9/08). Foto: ReutersMembro de equipe antibomba inspeciona cratera com os restos de um projétil depois de uma noite de combates em Donetsk, Ucrânia (6/08). Foto: APMulher deixa prédio danificado por suposto bombardeio levando seus pertences na área central de Donetsk, Ucrânia (29/07). Foto: ReutersRebeldes pró-Rússia em um tanque com a bandeira da Rússia em uma estrada a leste de Donetsk, Ucrânia (21/07). Foto: APPrimeiro-ministro ucraniano Arseniy Yatsenyuk, à dir., conversa com um oficial durante inspecção ao Exército fora da cidade de Slovyansk, Ucrânia (16/07). Foto: APPremiê ucraniano, Arseniy Yatsenyuk (E), cumprimenta soldado ao inspecionar tropas em Slovyansk, leste da Ucrânia (16/07). Foto: APMulher chora perto de prédio que desmoronou após ataque aéreo em Snizhne, a 100 km a leste da cidade de Donetsk, no leste da Ucrânia (15/07). Foto: APCombatente da República Popular de Donetsk se despede de sua família, que deixa essa cidade no leste da Ucrânia para refugiar-se na Rússia (14/07). Foto: APCombatentes separatistas pró-russos esperam atrás de sacos de areia em posto de controle em Donetsk, Ucrânia (10/07). Foto: ReutersMilitares ucranianos perto das armas apreendidas de separatistas pró-russos perto Slaviansk, Ucrânia (8/07). Foto: ReutersMilitante mascarado pró-Rússia organiza o trânsito em posto de controle após ataque das tropas ucranianas em Slovyansk (24/4). Foto: APAtiradores mascarados pró-Rússia guardam entrada de escritório regional ucraniano do Serviço de Segurança em Luhansk com bandeira russa ao fundo (21/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional capturado em Donetsk. Cartaz diz: 'EUA, tirem as mãos do leste da Ucrânia' (19/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia olha para o lado de fora de janela em prédio da administração regional de Donetsk, Ucrânia (18/4). Foto: APAtirador pró-Rússia abre caminho para veículo de combate com homens armados em seu topo em Slovyansk, Ucrânia (16/4). Foto: APAtivista mascarado pró-Rússia guarda barricada em prédio da administração regional em Donetsk, Ucrânia (15/4). Foto: APAtivista pró-Rússia é visto durante invasão de delegacia na cidade de Horlivka, leste da Ucrânia (14/4). Foto: APAtivistas armados pró-Rússia ocupam a delegacia de polícia no leste da Ucrânia, na cidade de Slaviansk (12/04). Foto: APAtivistas pró-Rússia ocupam delegacia de polícia e constroem uma barricada na cidade ucraniana oriental de Slovyansk (12/04). Foto: APHomens armados não identificados caminham em área perto de unidade militar ucraniana em Simferopol, Crimeia (18/3). Foto: APSoldado armado, provavelmente russo, anda perto de uma base militar ucraniana na aldeia de Perevalnoye (9/3). Foto: ReutersUm homem armado, que se acredita ser um soldado russo, anda perto da base naval ucraniana na Crimeia, no porto de Yevpatory (8/3). Foto: ReutersMarinheiro observa navio inativo Ochakov, que foi afundado por tropas russas e bloqueou o tráfego de cinco embarcações ucranianas em Myrnyi, oeste da Crimeia, Ucrânia (6/3). Foto: APCriança brinca perto de soldado russo (D) enquanto soldados ucranianos observam do outro lado do portão de base em Perevalne, Crimeia (4/3). Foto: APSoldado pró-Rússia bloqueia base naval na vila de Novoozerne, Crimeia, na Ucrânia (3/3). Foto: APGrupo de homens armados sem emblemas em uniformes cortam luz do Quartel-General das forças navais ucranianas em Sevastopol, Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APComboio russo se move de Sevastopol para Sinferopol na Crimeia, Ucrânia (2/3). Foto: APHomem com uniforme sem identificação monta guarda enquanto tropas tomam controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, em Sevastopol (Crimeia), na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda em Balaklava, nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Península da Crimeia (1/3)
. Foto: APEmblema em veículo e placas de outros carros indicam que tropas são do Exército russo (1/3). Foto: APHomens armados não identificados e vestidos com uniformes de camuflagem bloqueiam a entrada do prédio do Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomens armados não identificados bloqueiam entrada de Parlamento da Crimeia em Simferopol, Ucrânia (1/3). Foto: APHomem armado não identificado com uniforme de camuflagem bloqueia estrada que leva a aeroporto militar em Sevastopol, na Crimeia. Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda durante tomada de controle de escritórios da Guarda Costeira em Balaklava, Crimeia, na Ucrânia (1/3). Foto: APSoldados em uniformes sem identificação montam guarda nos arredores de Sevastopol, na ucraniana Crimeia. Foto: APHomem com uniforme sem identificação patrula aeroporto de Simferopol, na Ucrânia (28/2). Foto: AP

Quarta: G7 e UE pedem que Rússia interrompa os esforços para anexar a Crimeia

"A Rússia é a quinta maior economia e tem forças armadas poderosas", disse o parlamentar Vyacheslav Nikonov. "Então se houver qualquer sanção, haverá sanções para retaliar na mesma medida", disse.

"Nós vivemos em um mundo muito unido e eu não recomendaria a ninguém tentar sancionar a federação russa, porque as consequências poderiam ser ruins não apenas para a Rússia, mas para todos", ele afirmou.

Aviso aos russos

Há um outro fator que preocupa o Kremlin - e que pode estar motivando sua campanha de minar a movimentação da oposição que tomou o poder na Ucrânia. Trata-se do receio de que uma revolução vitoriosa em sua fronteira poderia favorecer grupos de oposição dentro da própria Rússia, fortalecendo a crença de que protestos de massa contra governos autoritário podem ter sucesso em última instância.

Assim a resposta dura de Moscou em território da Crimeia e a versão que o país tem propagado de que a revolução leva ao caos e ao fascismo servem como uma advertência à população da própria Rússia. Ao mesmo tempo, a possibilidade de anexar a Crimeia tem o benefício adicional de tornar o Kremlin mais popular entre uma parcela significativa da população russa.

A Crimeia foi parte da Rússia até 1954, quando o líder soviético Nikita Khrushchev, decidiu devolvê-la à Ucrânia.

"Esse referendo (na Crimeia) é legítimo", diz Valeria, uma moradora de Moscou. "A Crimeia sempre foi uma terra russa e considero ilegal o fato de que um político analfabeto deu ela para a Ucrânia. Tudo que se fala sobre a intervenção russa são mentiras".

Svetlana, outra moscovita, também diz acreditar que o povo da Crimeia tem o direito de determinar seu próprio futuro. "Eu ficarei feliz se eles se juntarem à Rússia", ela disse.

Mas nas ruas de Moscou também há muitas pessoas que se dizem preocupadas com a intervenção russa na Crimeia e com o plano de realizar um referendo com tropas fortemente armadas estacionadas lá.

"Você não pode resolver a situação com uma arma apontada para a cabeça das pessoas", disse um homem. "Você pode proteger os interesses da Rússia de forma pacífica também", ele disse.


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