Um ano de papa Francisco desafia paróquias a adotar sua proposta de simplicidade

Por Ocimara Balmant - iG São Paulo | - Atualizada às

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Se igrejas locais não se inspirarem em papa para mudar seu modelo, pessoas não se engajarão na fé, afirma especialista

“Uma igreja pobre para os pobres.” Se o pontificado de Francisco – que completa um ano nesta quinta – tivesse um slogan, seria este. A frase, dita pela primeira vez em uma audiência três dias após o conclave que o fez papa, tem sido repetida por ele em homilias, sermões aos cardeais e entrevistas. E, se alguém ainda não escutou, o comportamento do pontífice exemplifica o enunciado: preferiu o crucifixo de latão ao de ouro, recusou o palácio papal e se instalou em um aposento mais simples e, num aperitivo de sua visão de cristianismo, apresentou-se à Igreja como bispo de Roma - não como papa - e curvou-se para que a multidão o abençoasse. Além disso, tem dito coisas que não coincidem com o que se imagina do Vigário de Cristo, como a afirmação de que não cabe a ele julgar os homossexuais.

Leia: Diferenças e semelhanças entre os populares papas Francisco e João Paulo 2º

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Foto divulgada pelo L'Osservatore Romano mostra papa Francisco lavando o pé de detento em reformatório juvenil de Casal del Marmo, Roma (28/3/2013)

Setembro: Papa Francisco critica obsessão da Igreja com aborto e casamento gay

Atitudes que o popularizaram e fizeram com que o mundo olhasse com mais simpatia para a Igreja Católica, essa instituição bimilenar tida por muitos como retrógrada nos costumes, condescendente com religiosos pedófilos, apegada à ostentação e permissiva com a corrupção. O desafio agora, dizem os teólogos, é ver as ações de Francisco reproduzidas nas igrejas locais.

“Francisco está mais conhecido do que o padre da paróquia. Isso cria uma capacidade de anúncio que o papado não tinha antes. Resta saber se isso vai criar uma mudança na igreja”, afirma o diretor do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, Francisco Borba. “Porque se, a partir da fala e das atitudes do papa, as pessoas se sentirem motivadas a frequentar uma igreja e lá encontrarem o mesmo modelo de sempre, elas não vão deixar de gostar de Francisco, mas não se engajarão na fé.”

Ao dizer "mesmo modelo de sempre", Borba refere-se, por exemplo, à postura de intolerância com aqueles que contrariam a doutrina da Igreja, como os homossexuais. O que não significa que Francisco seja um progressista no tema. “Ele segue os princípios tradicionais em relação a essa questão, mas demonstra um verdadeiro horror pelo desamor com o qual os homossexuais são tratados. Por isso, essas declarações progressistas são parte de seu esforço para que essa comunidade se sinta acolhida e recebida dentro da Igreja. E isso é um problema, porque não conseguimos pensar em acolher alguém que não toleramos”, diz Borba.

Veja imagens da visita do papa Francisco ao Brasil no ano passado:

Papa toca criança durante passeio pelas ruas do Rio de Janeiro. Foto: Associated PressMultidão cerca carro do papa Francisco no Rio. Foto: Associated PressPapa Francisco faz seu primeiro discurso no Brasil, no Palácio Guanabara, neste sagunda-feira (22). Foto: APPapa Francisco recebe camisa do Fluminense. Foto: Flickr/FluminensePapa se desloca em carro fechado pelas ruas do Rio. Foto: Divulgação/Prefeitura do RioMultidão circula papamóvel durante passeio do papa Francisco pelas ruas do Rio. Foto: UESLEI MARCELINO/REUTERS/NewscomPapa Francisco abençoa criança no Rio de Janeiro. Foto: UESLEI MARCELINO/REUTERS/NewscomApesar da comoção, Rio teve protesto contra os gastos gerados pela visita do papa. Foto: APA polícia optou por usar bala de borracha contra os manifestantes. Foto: PILAR OLIVARES/REUTERS/NewscomParticipantes do ato responderam com coquetel molotov, que atingiu um PM. Foto: APO protesto terminou com a prisão de duas pessoas. Foto: RICARDO MORAES/REUTERS/NewscomAs manifestações, no entanto, aconteceram depois da passagem do papa. Foto: UESLEI MARCELINO/REUTERS/NewscomPapa francisco passeia em papamóvel pelas ruas do Rio de Janeiro. Foto: Associated PressPapa Francisco beija criança no Rio de Janeiro. Foto: STRINGER/REUTERS/NewscomPapa Francisco passeia pelas ruas do Rio em papa móvel aberto. Foto: STEFANO RELLANDINI/REUTERS/NewscomPapa Francisco percorre ruas do Rio de Janeiro em papamóvel aberto. Foto: STEFANO RELLANDINI/REUTERS/NewscomPapa Francisco percorre ruas do Rio de Janeiro em papamóvel aberto. Foto: STEFANO RELLANDINI/REUTERS/NewscomPapa percorre as ruas do Rio com papamóvel aberto. Foto: Associated PressPapa percorre as ruas do Rio com papamóvel aberto. Foto: Associated PressMultidão espera a chegada do papa Francisco nas ruas do Rio. Foto: Dhavid Normando/FuturapressPapa segue pelas ruas do Rio de Janeiro em papamóvel aberto. Foto: Associated PressRio de Janeiro espera a passagem do papa Francisco. Foto: Nina Ramos/iG RioRio de Janeiro espera a passagem do papa Francisco. Foto: Nina Ramos/iG RioRio de Janeiro espera a passagem do papa Francisco. Foto: Nina Ramos/iG RioRio de Janeiro espera a passagem do papa Francisco. Foto: Nina Ramos/iG RioMultidão espera a chegada do papa Francisco nas ruas do Rio. Foto: Dhavid Normando/FuturapressMultidão espera a chegada do papa Francisco nas ruas do Rio. Foto: Dhavid Normando/Futura PressA presidente Dilma Rousseff recebe o papa Francisco, que chega ao Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude . Foto: Associated PressA presidente Dilma Rousseff recebe o papa Francisco, que chega ao Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude . Foto: Associated PressA presidente Dilma Rousseff recebe o papa Francisco, que chega ao Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude . Foto: Associated PressPapa Francisco chega ao Rio de Janeiro. Foto: Vivian FernandezPapa Francisco chega ao Rio de Janeiro. Foto: Vivian FernandezPapa Francisco chega ao Rio de Janeiro. Foto: Vivian FernandezA presidente Dilma Rousseff recebe o papa Francisco, que chega ao Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude . Foto: Associated PressPúblico recebe papa Francisco na base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Foto: Associated PressPapa Francisco desembarca no Rio de Janeiro. Foto: Associated PressPapa Francisco desembarca no Rio de Janeiro. Foto: Associated PressPapa Francisco chega ao Rio de Janeiro. Foto: Vivian FernandezAvião que transporta o papa Francisco pousa na base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Foto: Associated PressPapa recebe bandeira do Brasil dentro do avião em qual veio de Roma. Foto: Associated PressPapa Francisco é recebido por comissários durante embarque rumo ao Rio de Janeiro. Foto: ReutersPapa Francisco embarca nesta segunda-feira (22) no aeroporto internacional de Roma rumo ao Rio de Janeiro. Foto: AP

Por isso, reitera o teólogo, o futuro da Igreja está em sua capacidade de assimilar a novidade que Francisco representa. E o pontífice tem sido muito claro ao apresentá-la, tanto para o público interno como para o externo.

O que seus gestos dizem

Francisco é afeito a quebrar as tradições da Santa Sé. Na escolha dos novos cardeais, por exemplo, ordenou um bispo de uma diocese da periferia do Haiti, o país mais pobre do continente americano. Assim que foi eleito, cortou o bônus dos funcionários do Vaticano. Recentemente, em um vídeo feito de improviso, fez o principal discurso ecumênico de seu pontificado, assumindo que católicos e protestantes erraram e convidando ambos para uma aproximação mais efetiva.

“Francisco é um homem de grande público. Quanto ao ecumenismo, por exemplo, Bento 16 e João Paulo 2º viam mais como um processo intereclesial. Eles queriam capacitar a igreja internamente e não pensavam em gestos públicos que demonstrassem esse compromisso. Com Francisco, o grande público é o primeiro a saber o que acontece”, conclui Borba.

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Capa da revista Time mostra papa Francisco como Personalidade do Ano (11/12/2013)

É essa fala simples e direta que o diferencia de seus antecessores, compara o frei e professor Clodovis Boff. “Ele acabou com o contexto ritualizado, cerimonioso. Antes havia um estresse institucional. Agora isso mudou. Há um relaxamento, uma soltura, a criatividade, o espírito da liberdade. No encontro que teve com embaixadores, por exemplo, ele disse que quer a alegria dos povos. Um mundo complexo como o nosso quer coisas simples. Ele é assim.”

Igreja não é multinacional

O discurso claro do papa, no entanto, não é suficiente para fazer com que as mudanças sejam rápidas - e Francisco sabe disso. “A Igreja não é uma multinacional. Ela tem de mudar o sentido, a simbologia, é uma mudança espiritual que não é mensurável”, afirma Fernando Altemeyer, teólogo da PUC-SP. Um pequeno passo para essa transformação seria o retiro que papa faz com os cardeais desde o início da Quaresma, na semana passada. “Ele tirou os religiosos do Vaticano e os levou para rezar o dia todo. É como se dissesse: ‘Vocês precisam de um novo coração, estamos muito burocráticos.”

Além disso, a reforma da Igreja passa por sua mudança administrativa, acrescenta o teólogo. “O difícil é a questão da descentralização, que envolve a valorização das dioceses, a colegialidade episcopal, o foco na pastoral e não no dogma e, no caso brasileiro, a questão do diálogo. Acabou aquele ‘modelito’ da igreja hegemônica, agora ela é mais uma opção. Isso exige uma postura mais modesta de ouvir o que o comunista, o ateu e o agnóstico estão falando. O papa tem demonstrado essa disposição, mas vamos precisar de uns quatro Franciscos para que isso dê certo. Não se muda nada em poucos anos.”

Mas por que poucos anos? O papa parece bem saudável. “Ah, acho que quando ele se cansar, ele aposenta. Ele adorou a ideia de Bento. Depois de dez anos, quando tiver um limite, ele vai para casa do Ratzinger certo de ter dado um tranco naquele modelo antigo que estava exaurido”, opina Altemeyer

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Turistas posam em frente de grafite do italiano Mauro Pallotta retratando o papa Francisco como um super-homem no distrito de Borgo Pio (29/1)

E quem virá depois? Vai ser difícil substituir aquele que foi eleito personalidade do ano pela revista Time, pintado como super-herói nos muros de Roma e que recebe 6 mil cartas semanais de fiéis de todo o mundo. Nem dá para acreditar que, há exatamente um ano, quando seu nome foi anunciado na sacada do Vaticano, ele era um desconhecido do público. Fora da lista dos papáveis, até a imprensa que fazia a cobertura do anúncio demorou um tempo a entender que o homem que se fez Francisco era Jorge Mario Bergoglio. Na Praça de São Pedro, ante a multidão que se esforçava para descobrir quem era o novo papa, foi o tremular da bandeira argentina que traduziu a notícia. Hoje, quem não conhece Francisco?

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