Protestos e pedidos de diálogo ampliam divisões na Venezuela

Por Reuters |

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Ao menos 20 morreram desde o início das manifestações, em fevereiro. Maduro se ofereceu para negociar com a oposição

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À medida que os protestos violentos na Venezuela alienam os moderados na oposição e não dão sinais de derrubar o presidente Nicolas Maduro, o apelo do líder socialista para negociações está aprofundando as divisões entre os seus rivais.

Dia 5: Aniversário de morte de Chávez na Venezuela é marcado por pompa e protestos

AP
Guardas prendem manifestante durante conflitos entre ativistas e motociclistas em Los Ruices, Venezuela (6/03)




Violência: Protestos na Venezuela deixam mais de 20 mortos em menos de um mês

A pior agitação civil do país em uma década já matou ao menos 20 pessoas, incluindo partidários dos dois lados e membros das Forças de Segurança, desde o início do mês passado. Dia após dia, milhares de militantes da oposição marcham pacificamente em cidades de todo o país, exigindo mudanças políticas, o fim da alta inflação, da escassez de alimentos nos supermercados e de uma das maiores taxas de homicídio do mundo.

Em seguida, todas as noites, militantes encapuzados surgem em torno da praça ao leste de Caracas atirando pedras e coquetéis molotov, entrando em confronto com a polícia e transformando um dos bairros mais ricos da capital em um campo de batalha. A violência está alimentando as tensões dentro da oposição, com os moderados temendo que os conflitos saiam fora de controle e prejudiquem a luta por uma mudança política pacífica no futuro.

Maduro parece ter resistido ao pior período de manifestações nas ruas até agora e está oferecendo repetidamente para negociar com a oposição, criando um novo dilema para seus líderes. Até agora, eles impuseram condições difíceis para qualquer discussão, dizendo que se recusam a fazer parte de uma "oportunidade de foto" e dizem temer que o governo não tenha a intenção de combater problemas como a corrupção, a impunidade e a situação dos prisioneiros políticos.

A coalizão de oposição Unidade Democrática afirmou na sexta-feira que só iria sentar-se para dialogar com Maduro se a reunião fosse mediada por alguém "de boa fé" e transmitida ao vivo.

"Estamos cansados de violência. Todo mundo está sendo atacado", afirmaram em um comunicado. "Nós estamos mostrando as nossas cartas para o público. (Queremos ) diálogo verdadeiro, uma agenda clara e igualdade de condições."

Confira galeria de fotos sobre as manifestações

Polícia nacional da Venezuela dispara gás lacrimogêneo enquanto manifestante antigoverno se ajoelha segurando pedra durante confrontos em Caracas (6/4). Foto: ReutersManifestantes mostram cartazes com fotos de ativistas mortos durante protestos antigoverno na Plaza Altamira em Caracas, Venezuela (20/3). Foto: APPartidários do líder da oposição Leopoldo López se reúnem para protesto que pede a libertação do político após um mês de sua prisão, na Venezuela (18/03). Foto: APGuardas das forças bolivarianas patrulham a Plaza Altamira após tomarem o controle do local em Caracas, Venezuela (17/3). Foto: APEstudante da Universidade Central da Venezuela grita contra governo de Nicolás Maduro durante protesto em Caracas (12/3). Foto: APManifestante antigoverno corre em meio ao gás lacrimogêneo lançado pela polícia durante protesto em Caracas, Venezuela (12/3). Foto: ReutersManifestante joga lata de gás lacrimogêneo em direção à polícia durante protesto antigoverno em Caracas, Venezuela (11/3). Foto: APGuardas prendem manifestante durante conflitos entre ativistas e motociclistas em Los Ruices, Venezuela (10/3). Foto: APPolícia impede passagem de manifestantes que protestavam contra escassez de alimentos (8/3). Foto: APManifestantes se preparam para jogar coquetéis molotov durante confrontos em Caracas, Venezuela (6/3). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana se protegem de fogos de artifício lançados contra eles por manifestantes em Caracas, Venezuela (março/2014). Foto: APManifestantes seguram cartazes com imagens de venezuelanos que foram mortos nas duas últimas semanas durante marcha em Caracas (28/2). Foto: APManifestantes rolam cano de água na tentativa de bloquear uma rodovia importante em Caracas, Venezuela (27/02). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana avançam em direção a protestos antigoverno em Valencia, Venezuela (26/2). Foto: APManifestante segura placa em frente de cordão da Guarda Nacional Bolivariana durante protesto perto da Embaixada de Cuba em Caracas, Venezuela (25/2). Foto: APObjetos colocados por manifestantes da oposição bloqueiam estrada no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APOpositor caminha perto de acusação feita a presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em rua no bairro de Altamira, Caracas (21/2). Foto: ReutersManifestante envolto com a bandeira da Venezuela coloca mais objetos em barricada em chamas no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APPartidários do governo venezuelano marcham no centro de Caracas (20/2). Foto: APManifestante levanta os braços em direção à polícia que lança gás lacrimogêneo em bairro de Caracas, Venezuela (19/2). Foto: APMiss Génesis Carmona é levada de moto a hospital. Ela morreu após ter sido atingida por disparo na cabeça em 18/2. Foto: Reprodução/TwitterManifestante usa máscara caseira para se proteger de gás durante protestos em avenida de Caracas, Venezuela (18/02). Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente Nicolás Maduro durante marcha em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APLeopoldo López, líder da oposição da Venezuela, é preso vestido de branco e segurando flor em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APManifestante cobre a boca com pano durante protesto contra a censura do governo venezuelano em Caracas (17/2). Foto: APManifestante atira pedras na Força Nacional Bolivariana durante protesto na Venezuela (15/2). Foto: APManifestantes fecham a principal via da Venezuela (15/2). Foto: ReutersManifestantes na Venezuela são dipersados com canhões de água e gás lacrimogêneo (15/2). Foto: Carlos Garcia Rawlins/ReutersUniversitária segura cartaz em que se lê 'E quem tem as armas?' enquanto se manifesta contra o presidente Nicolás Maduro em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes choram durante vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes comparecem à vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APJovem segura livro marcado em espanhol com a frase 'Esta é a minha arma' durante protesto contra repressão de estudantes em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudante segura cartaz em que se lê 'Paz e liberdade' durante manifestação em Caracas, Venezuela (13/2)
. Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante protesto em Caracas (13/2)
. Foto: AP

Perfil: Estudantes nas ruas apoiam a direita na Venezuela

Mas, com pedidos por diálogo vindos de lugares tão distantes quanto a Casa Branca, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e o Papa Francisco, a recusa em participar das negociações até agora gerou críticas, inclusive dos próprios membros da coalizão. O parlamentar de oposição Hiram Gaviria deixou seu partido Un Nuevo Tiempo e a coalizão na sexta-feira devido à proibição de participar de conversações no palácio presidencial de Miraflores.

Gaviria culpou o governo pela instabilidade do país, afirmando que o governo teria imposto um modelo social e econômico fracassado e usado 15 anos de "discurso de ódio" para combater seus adversários. Mas ele disse que participaria de negociações com qualquer um, em qualquer lugar, para tentar evitar mais violência, mesmo que o diálogo tenha poucas chances de sucesso.

Cenário: Protestos aprofundam crise econômica na Venezuela

"Quantas mortes mais deve haver antes de negociarmos e nos entendermos?", perguntou o parlamentar do Estado central de Aragua. "Tem que haver diálogo."

A oposição esteve profundamente dividida por anos até que mostrou uma notável coesão antes da eleição presidencial de 2012 e novamente no ano passado, quando uma nova votação foi convocada para a sucessão do líder socialista Hugo Chávez, depois de sua morte por câncer.

Os atuais protestos, no entanto, reabriram antigas divisões entre os que defendem ações de campo para forçar a saída do presidente, e outros com uma estratégia de fervura lenta, com a construção de apoio nas cidades e Estados governados pela oposição, deixando que os problemas da economia se encarreguem de enfraquecer o governo.

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Os críticos de Maduro, alguns dos quais juraram permanecer nas ruas até que ele renuncie, estão exigindo a libertação dos presos políticos, Justiça para as vítimas do que chamam de repressão, e a dissolução de grupos armados de militantes pró-governo, que são acusados de atacar a manifestantes da oposição.

Outro deputado da oposição, Ismael Garcia, disse que a maioria de Unidade Democrática é a favor de negociações sérias. "Ninguém tem rejeitado o diálogo, mas tem de haver regras muito claras para o jogo, e devemos trabalhar juntos", disse ele.

No entanto, ainda não ficou claro como os líderes da oposição pretendem lidar com as manifestações. Embora os adversários de Maduro condenem a violência de uma minoria, eles continuam a apoiar as mobilizações de rua, que muitas vezes levam a tais confrontos. Maduro parece ter sobrevivido ao desafio para o seu governo no curto prazo. Com o aniversário da morte de Chávez, os protestos lhe deram a chance de unir o Partido Socialista contra uma ameaça comum.

Em um evento para marcar o Dia Internacional da Mulher, no sábado, Maduro consolava a esposa aos soluços de um militante pró-governo, que descrevia como eles foram atacados por dezenas de manifestantes da oposição em um restaurante de Caracas, que batiam panelas e gritavam que seu marido era um assassino.

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