Um ano após morte, Chávez 'sustenta' apoio a governo na Venezuela

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Sem a força unificadora de Hugo Chávez, Nicolás Maduro se vê obrigado a fazer concessões a empresariado e militares no país

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Há um ano, numa tarde de terça-feira, a Venezuela parou. Alguns comemoraram em silêncio e muitos choraram - e continuam chorando até hoje - a morte do presidente Hugo Chávez, de câncer.

Líder: Em meio a protestos, Venezuela lembrará um ano da morte de Hugo Chávez

Reprodução/Getty Images
Funcionário pendura bandeira em frente a base militar em que se encontra tumba de Chávez


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O luto e a paralisia gerados pela morte do líder da "revolução bolivariana" colocaram à prova o chavismo no ano mais difícil de sua história e dificultaram a transição do poder para seu herdeiro político, Nicolás Maduro.

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Polícia nacional da Venezuela dispara gás lacrimogêneo enquanto manifestante antigoverno se ajoelha segurando pedra durante confrontos em Caracas (6/4). Foto: ReutersManifestantes mostram cartazes com fotos de ativistas mortos durante protestos antigoverno na Plaza Altamira em Caracas, Venezuela (20/3). Foto: APPartidários do líder da oposição Leopoldo López se reúnem para protesto que pede a libertação do político após um mês de sua prisão, na Venezuela (18/03). Foto: APGuardas das forças bolivarianas patrulham a Plaza Altamira após tomarem o controle do local em Caracas, Venezuela (17/3). Foto: APEstudante da Universidade Central da Venezuela grita contra governo de Nicolás Maduro durante protesto em Caracas (12/3). Foto: APManifestante antigoverno corre em meio ao gás lacrimogêneo lançado pela polícia durante protesto em Caracas, Venezuela (12/3). Foto: ReutersManifestante joga lata de gás lacrimogêneo em direção à polícia durante protesto antigoverno em Caracas, Venezuela (11/3). Foto: APGuardas prendem manifestante durante conflitos entre ativistas e motociclistas em Los Ruices, Venezuela (10/3). Foto: APPolícia impede passagem de manifestantes que protestavam contra escassez de alimentos (8/3). Foto: APManifestantes se preparam para jogar coquetéis molotov durante confrontos em Caracas, Venezuela (6/3). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana se protegem de fogos de artifício lançados contra eles por manifestantes em Caracas, Venezuela (março/2014). Foto: APManifestantes seguram cartazes com imagens de venezuelanos que foram mortos nas duas últimas semanas durante marcha em Caracas (28/2). Foto: APManifestantes rolam cano de água na tentativa de bloquear uma rodovia importante em Caracas, Venezuela (27/02). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana avançam em direção a protestos antigoverno em Valencia, Venezuela (26/2). Foto: APManifestante segura placa em frente de cordão da Guarda Nacional Bolivariana durante protesto perto da Embaixada de Cuba em Caracas, Venezuela (25/2). Foto: APObjetos colocados por manifestantes da oposição bloqueiam estrada no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APOpositor caminha perto de acusação feita a presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em rua no bairro de Altamira, Caracas (21/2). Foto: ReutersManifestante envolto com a bandeira da Venezuela coloca mais objetos em barricada em chamas no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APPartidários do governo venezuelano marcham no centro de Caracas (20/2). Foto: APManifestante levanta os braços em direção à polícia que lança gás lacrimogêneo em bairro de Caracas, Venezuela (19/2). Foto: APMiss Génesis Carmona é levada de moto a hospital. Ela morreu após ter sido atingida por disparo na cabeça em 18/2. Foto: Reprodução/TwitterManifestante usa máscara caseira para se proteger de gás durante protestos em avenida de Caracas, Venezuela (18/02). Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente Nicolás Maduro durante marcha em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APLeopoldo López, líder da oposição da Venezuela, é preso vestido de branco e segurando flor em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APManifestante cobre a boca com pano durante protesto contra a censura do governo venezuelano em Caracas (17/2). Foto: APManifestante atira pedras na Força Nacional Bolivariana durante protesto na Venezuela (15/2). Foto: APManifestantes fecham a principal via da Venezuela (15/2). Foto: ReutersManifestantes na Venezuela são dipersados com canhões de água e gás lacrimogêneo (15/2). Foto: Carlos Garcia Rawlins/ReutersUniversitária segura cartaz em que se lê 'E quem tem as armas?' enquanto se manifesta contra o presidente Nicolás Maduro em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes choram durante vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes comparecem à vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APJovem segura livro marcado em espanhol com a frase 'Esta é a minha arma' durante protesto contra repressão de estudantes em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudante segura cartaz em que se lê 'Paz e liberdade' durante manifestação em Caracas, Venezuela (13/2)
. Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante protesto em Caracas (13/2)
. Foto: AP

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Eleito em abril num pleito apertado - e contestado pelo líder opositor Henrique Capriles -, Maduro assumiu um governo adequado ao estilo de Chávez, uma das razões pelas quais se tornou difícil administrá-lo.

Sem contar com o carisma que auxiliava o líder bolivariano a driblar conjunturas adversas, Maduro assumiu as rédeas de um país com uma economia em crise.

Filas intermináveis para comprar produtos escassos da cesta básica, uma inflação anual acumulada em 56% e altos índices de criminalidade aumentaram o descontentamento da população e colocaram à prova a capacidade de Maduro de levar adiante o projeto chavista, sem rupturas.

Pilar

A imagem onipresente e onipotente de Chávez se fortaleceu ainda mais após sua morte e passou a servir de pilar fundamental de sustentação do governo. Qualquer ação do Executivo é feita "em nome do comandante".

Outdoors, murais, exposições fotográficas, tudo leva o nome do ex-presidente. "Não foi um ano com Maduro, continuou sendo um ano com Chávez. Maduro conta com apoio popular adquirido por sua condição de herdeiro político", afirmou à BBC Brasil Oscar Schemel, diretor da consultoria Hinterlaces.

Evocar Chávez e a unidade em torno de seu legado é uma tática utilizada por Maduro – de acordo com analistas – para evitar acirrar disputas internas entre as diferentes correntes do chavismo. Maduro continua sendo visto como o "administrador" da revolução idealizada por Chávez.

Sua popularidade, que chegou a alcançar 61% em dezembro, caiu drasticamente no último mês, para 46%, devido ao aumento da escassez de produtos básicos e uma "magnificação dos problemas econômicos", diz Oscar Schemel.

Os problemas econômicos acabaram se tornando a principal bandeira de estudantes e outros venezuelanos que simpatizam com a oposição antichavista e que tomaram as ruas para exigir a renúncia do presidente.

Polarização e pactos

A tensão gerada pelos protestos reacendeu a polarização política no país e levou o presidente venezuelano a pactuar, em rede nacional de rádio e TV, com a elite empresarial venezuelana, incluindo o magnata Lorenzo Mendoza – que chegou a ser ameaçado várias vezes por Chávez de ter suas empresas estatizadas caso não cumprisse com as regras estabelecidas pelo governo.

Para "ajudar" a controlar a escassez, os empresários exigem o fim dos controles de preços e uma revisão da lei que estabelece em 30% o limite de lucro sobre o valor dos produtos.

Para muitos chavistas, preocupados com o fortalecimento do pragmatismo do governo de Maduro em detrimento do projeto bolivariano, a oposição não se arriscaria a apostar em protestos violentos se Chávez estivesse no poder.

"Eles acham que Maduro é fraco. Com Chávez viam sempre a possibilidade de uma reação estratégica por ele ser militar", afirma o motorista Armando Robles, de 72 anos, que vive a poucos metros do Quartel da Montanha no bairro de 23 de Enero, bastião chavista – onde fica o caixão de mármore que envolve o corpo de Chávez.

O analista político Miguel Tinker Salas, professor de História Latino-Americana da Pomona College, da Califórnia, considera que Maduro não tem outra alternativa senão promover um diálogo nacional. "O país está dividido e tentar impor um modelo econômico, social e político dentro deste ambiente implica certos riscos", afirma. "O governo está tentando se consolidar dentro do cenário político adverso, mas não se pode falar ainda de uma moderação no chavismo."

Sem a força de Chávez, capaz de unificar políticos, movimentos sociais e as Forças Armadas ao redor da "revolução bolivariana", Maduro cedeu aos grupos mais conservadores do chavismo para manter a estabilidade.

Os principais beneficiados foram os militares, premiados com o controle de importantes ministérios, aumento salarial e aval para ampliar sua participação no setor de importação de produtos. Também estão à frente da direção de um banco e de um canal de televisão exclusivo para as Forças Armadas.

"A crise econômica e, em consequência os conflitos sociais, eram previsíveis e Maduro identificou que eram as Forças Armadas que lhe dariam respaldo", afirmou à BBC Brasil David Smilde, da ONG Washington Office on Latin America (WOLA), em Caracas. "É um governo com maior presença militar que durante o período Chávez."

Desafios econômicos

O principal desafio de Maduro, segundo especialistas, é reestruturar a economia e fazer com que o país, quinto maior produtor mundial de petróleo, volte a crescer.

O prognóstico do analista político Luis Vicente León, diretor da consultoria Datanalisis, é pessimista. A seu ver é pouco provável que Maduro promova mudanças de fundo na política econômica porque isso incluiria decisões "impopulares".

Uma nova desvalorização da moeda, endividamento e negociação de preços com o setor privado são medidas que, na opinião de León, "têm um custo político e econômico que (Maduro) não tem patrimônio político para pagar".

Outro elemento fundamental, na opinião de Oscar Schemel, é acabar com a escassez. Segundo a consultoria Hinterlaces, os venezuelanos se preocupam mais com o desabastecimento do que com a inflação. A lógica é simples: os cidadãos têm dinheiro para comprar, ainda que o produto esteja caro; o problema é ter acesso aos produtos.

"Resolver o desabastecimento é vital para diminuir a percepção de instabilidade", afirmou Schemel. "Os setores que estão descontentes nunca haviam contado com tantos recursos, há uma demanda crescente de consumo, mas é necessário perder horas nas filas para conseguir comprar o que se necessita" afirmou.

O desabastecimento é gerado, segundo analistas, por quatro fatores fundamentais: desvio de recursos que deveriam ser usados para a importação de alimentos, excessivos controles estatais que impedem a liberação de dólares para compras internacionais, contrabando para a vizinha Colômbia, estimado em 40% do total das importações, e a estocagem praticada por alguns empresários como medida de pressão para acabar com o controle de preços.

Segundo pesquisa da Hinterlaces, a maioria dos venezuelanos não deseja uma mudança de projeto de governo e sim que as políticas públicas sejam eficazes.

Culto à imagem

O motorista Armando Robles reconhece que o governo precisa "corrigir muitas coisas, mas dentro do caminho da revolução". Na porta de sua casa, pintada de vermelho, a cor do chavismo, uma fotografia de Símon Bolívar e outra de Hugo Chávez reforçam o culto à imagem do ex-presidente.

Ele conta com orgulho ter recebido em sua casa o então tenente-coronel que acabava de tentar derrubar pela força o governo do presidente Carlos Andrés Perez, em 1989. "Como eu ia imaginar que aquele índio, porque ele tinha cara de índio, ia ser o presidente?".

O culto a Hugo Chávez - que em vida já assumia características religiosas - se aprofundou no último ano. Numa capela improvisada no bairro 23 de Enero não faltam flores, água e o principalmente o café expresso, um dos vícios do "comandante".

A peregrinação em torno do Quartel da Montanha iniciada no dia da morte do líder venezuelano – que desafiou a Casa Branca e defendeu o "socialismo do século 21" – persiste ainda hoje. "Muitos saem chorando, outros cantando as músicas que ele gostava", conta Robles.

Alheio às demandas que estimulam os protestos contra o governo que ocorrem no outro extremo da capital, Robles enxuga o rosto e imprime uma característica de divindade à Chávez. "Esse homem foi mandado por Deus. Estavam vendendo a Venezuela em pedaços para os Estados Unidos", afirma.

A seu ver, a juventude antichavista que protesta nas ruas de Caracas e de outras cidades do país são parte de um plano de desestabilização. "Eles estão buscando uma intervenção dos Estados Unidos. Isso esta preparado para isso e lembrem-se que temos sete bases militares dos Estados Unidos na Colômbia", afirmou. "A disputa é a mesma de sempre; a disputa pelo controle do petróleo".

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