Militares russos ou pró-Rússia em uniformes sem emblema se movem livremente na Crimeia sem enfrentar resistência de Kiev

Três bases na Península da Crimeia, Ucrânia, foram cercadas por homens armados neste domingo, reivindicando que os militares ucranianos se rendam e entreguem suas armas, disse Vladislav Seleznyov, porta-voz do Centro de Mídia da Crimeia do Ministério de Defesa da Ucrânia.

'À beira do desastre':  Premiê da Ucrânia exige recuo militar da Rússia

Grupo de homens armados sem emblemas em uniformes cortam luz do Quartel-General das forças navais ucranianas em Sevastopol, Crimeia, Ucrânia (2/3)
AP
Grupo de homens armados sem emblemas em uniformes cortam luz do Quartel-General das forças navais ucranianas em Sevastopol, Crimeia, Ucrânia (2/3)

Sábado: Ucrânia põe tropas em alerta e EUA pedem que Rússia recue

Uma base da Ucrânia foi cercada por soldados russos em Perevalne, ao sul da capital regional de Simferopol, com outra base em Sevastopol sendo bloqueada por uma "unidade de autodefesa" pró-Rússia. Na cidade portuária de Feodosia, um grupo de estimados 100 fuzileiros navais também foram bloqueados em sua base. Homens armados exigem que eles declarem lealdade às novas autoridades pró-Rússia da região.

Apesar de não haver nenhum confronto aberto entre os homens armados e as forças militares na Ucrânia, Seleznyov caracterizou o bloqueio das bases "como um alerta vermelho": "Isso é realmente uma declaração de guerra em nosso país", disse à rede de TV CNN.

Jornalistas da Associated Press testemunharam o bloqueio da base em Perevalne. Segundo eles, centenas de soldados sem identificação em caminhões e veículos blindados cercaram impedem a saída dos soldados que estão dentro do local. Em minoria, os ucranianos posicionaram um tanque no portão da base, deixando os dois lados em um tenso impasse.

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Os militares chegaram a Perevalne em um comboio que incluía ao menos 13 caminhões e quatro veículos blindados equipados com metralhadoras. Os caminhões levavam 30 soldados cada e tinham placas russas.

Veja imagens da presença russa na Ucrânia:

Após uma sessão fechada do seu novo Parlamento em Kiev, o novo primeiro-ministro da Ucrânia, Arseniy Yatsenyuk, conclamou neste domingo o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a recuar suas tropas na disputa entre os dois países pela estratégica Crimeia, dizendo que "estamos à beira do desastre".

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As declarações de Yatsenyuk foram feitas um dia depois de as forças russas terem assumido o controle da península no Mar Negro sem disparar um único tiro. "Não houve nenhuma razão para a Federação Russa invadir a Ucrânia", disse o premiê.

Até agora, o novo governo em Kiev tem se mostrado sem poderes para reagir as táticas militares russas. Homens armados em uniformes sem emblema se movem livremente na península, ocupando aeroportos, esmagando equipamentos em uma base aérea e cercando bases.

A Rússia tem sua crucial Frota do Mar Negro estacionada na Península da Crimeia — que fez formalmente parte da Rússia até 1954 — e quase 60% dos residentes da região se identificam como russos.

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Putin desafiou pedidos do Ocidente para recuar suas tropas, insistindo que a Rússia tem o direito de proteger seus interesses e os falantes de russo na Crimeia e em outros lugares da Ucrânia. Entretanto, não há sinais de que a população de etnia russa esteja sofrendo ataques na Crimeia ou em outros locais do país.

O presidente dos EUA, Barack Obama, falou com Putin por 90 minutos ao telefone no sábado e expressou sua "profunda preocupação" sobre "a clara violação russa da soberania e da integridade territorial ucranianas", disse a Casa Branca. Obama alertou que a "violação contínua da lei internacional pela Rússia levará a um maior isolamento político e econômico".

O novo governo ucraniano chegou ao poder na semana passada depois de meses de manifestações contra o presidente deposto pró-Rússia Viktor Yanukovych e sua decisão de direcionar a Ucrânia para a Rússia em vez de estreitar os laços do país com a União Europeia (UE). Yanukovych fugiu para a Rússia depois de mais de 80 morrerem nos confrontos , a maioria deles manifestantes atingidos pela política. Ele insiste que ainda é o presidente.

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Desde então, as tensões cresceram muito entre os dois países. O presidente em exercício da Ucrânia, Oleksandr Turchynov, anunciou no fim da noite de sábado que ordenou as Forças Armadas da Ucrânia a estar em prontidão total por causa da ameaça de "potencial agressão". Ele também disse que ordenou o aumento da segurança nas usinas nucleares, aeroportos e infraestrutura estratégica. Na Crimeia, entretanto, as tropas ucranianas não ofereceram nenhuma resistência.

A população da Ucrânia está dividida em lealdades entre a Rússia e a Europa, com boa parte da área ocidental ucraniana defendendo vínculos mais próximos com a UE, enquanto as regiões leste e sul recorrem à ajuda da Rússia.

A agência de notícias Interfax informou que o presidente da Assembleia Legislativa da Crimeia, Vladimir Konstantinov, disse que as autoridades locais não reconhecem o governo em Kiev. Ele afirmou que um referendo planejado para 30 de março questionaria os eleitores sobre o status futuro da região.

Polícia detém manifestante contrário às ações russas na Crimeia durante protesto não autorizado em São Petersburgo, Rússia (2/3)
AP
Polícia detém manifestante contrário às ações russas na Crimeia durante protesto não autorizado em São Petersburgo, Rússia (2/3)

Os EUA e os outros governos ocidentais têm poucas opções para conter as movimentações militares da Rússia. O secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), Fogh Rasmussen, disse que a Rússia violou a Carta da ONU com sua ação militar na Ucrânia e exigiu que Moscou "recue na escalada de tensões". Ele fez suas declarações em Bruxelas antes de abrir uma reunião para discutir a crise do órgão de tomada de decisão política da aliança militar.

A Ucrânia não é um membro da Otan, significando que os EUA e a Europa não estão obrigados a sair em sua defesa. Mas a Ucrânia participou de alguns exercícios da aliança militar e enviou tropas para sua força de resposta.

Os EUA também disseram que suspenderão a participação nos "encontros preparatórios" para a cúpula econômica do G8, planejados para junho no resort de Sochi, local das recentes Olimpíadas de Inverno de 2014.

O ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, concordou, dizendo na rádio francesa Europa que o planejamento do cúpula deveria ser suspenso. A França "condena a escala militar russa" na Ucrânia e Moscou deve "perceber que ações têm custos", afirmou neste domingo.

*Com AP, BBC e informações da CNN

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