Palestinos rejeitam a solução de dois Estados, diz historiador israelense

Por Leda Balbino , iG São Paulo |

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Palestinos fazem jogo diplomático enquanto esperam que demografia lhes dê toda a Palestina, diz Benny Morris ao iG

As atuais negociações de paz entre Israel e os palestinos estão fadadas ao fracasso porque os palestinos não querem a solução de dois Estados, diz o historiador israelense Benny Morris, que veio na semana passada ao Brasil para lançar seu mais recente livro, "Um Estado, Dois Estados" (editora Sefer), a convite da Federação Israelita do Estado de São Paulo e do Hospital Albert Einstein.

Infográfico: Saiba os principais fatos do conflito entre Israel e palestinos

Eliana Assumpção/ Divulgação
Historiador israelense Benny Morris segura exemplar de seu livro 'Um Estado, Dois Estados' antes de falar em palestra promovida pela Câmara Brasil-Israel

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Para o conceituado professor da Universidade Ben Gurion, as negativas a propostas de paz como as feitas por Ehud Barak (1999-2001) a Yasser Arafat (1994-2004), em 2000, e por Ehud Olmert (2006-2009) a Mahmud Abbas (desde 2005), em 2008, exporiam uma falta de vontade política dos palestinos.

"Muitos dizem que Arafat não rejeitou a ideia de dois Estados, mas descartou a proposta para obter mais concessões", disse durante palestra promovida pela Câmara Brasil-Israel. "Mas discordo dessa leitura. Enquanto jogam o jogo diplomático, os palestinos aspiram a toda a Palestina, não querem a solução de dois Estados", afirmou.

De acordo com o historiador, o que alimentaria a posição palestina é a certeza de que o tempo joga a seu favor, já que muitos especialistas preveem que a população árabe superará a judia em Israel e nos territórios capturados na Guerra do Seis Dias (1967) - Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental - em alguns anos. "Os palestinos acreditam que, em 20, 30 anos, haverá mais árabes em todo o território do que judeus. Então teriam um Estado árabe-palestino com uma minoria judia", disse.

Crítico da expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, Morris acredita que a contínua ocupação de Israel do território palestino somada ao fracasso das atuais negociações abrirão caminho em breve para um terceira intifada (revolta palestina). Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao iG

iG: Em seu livro, o senhor diz que os eventos históricos forçaram os judeus a perceber que, diferentemente da aspiração do movimento sionista do século 19, não seria possível ter um Estado israelense em toda a Palestina histórica, enquanto os palestinos não evoluíram e mantêm a posição de querer todo o território. Não seria a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia uma mostra de que o povo e o governo de Israel ainda estão presos na mentalidade do século 19?

Benny Morris: Parte da população e do governo de Israel defendem que toda a Palestina nos pertence e que os assentamentos ajudarão a retê-la. Mas isso é uma minoria. De acordo com todas as pesquisas de opinião desde 1987, quando começaram a ser feitas, a maioria dos israelenses gostaria de sair da Cisjordânia e ter um Estado palestino separado.

iG: Mas a expansão dos assentamentos mesmo durante as negociações de paz não seria um indicativo de que essa não é a posição do governo?
Morris: Oficialmente [o primeiro-ministro Benjamin] Netanyahu declara querer a solução de dois Estados e ter a disposição de fazer concessões dolorosas, como sair da maior parte da Cisjordânia. Há pessoas que duvidam da sinceridade de Netanyahu, mas [Ehud] Barak (1999-2001) também fez isso: expandiu os assentamentos enquanto pregava a paz e apresentava a solução de dois Estados. Para os árabes que questionavam sua intenção, respondia: os assentamentos ao longo da fronteira, que representam entre 5% e 7% da Cisjordânia, expandimos porque serão nosso território. Dos assentamentos dentro da Cisjordânia, que formará um Estado palestino, sairemos depois de um eventual acordo e deixaremos para trás prédios prontos para os refugiados. Embora racionalmente esse argumento tenha sentido, psicologicamente faz os palestinos pensarem que Israel mente quando diz desejar a paz. Essa é uma das razões por que me oponho aos assentamentos. No entanto, eles não são o principal problema. O principal é a mentalidade palestina, que não quer a solução de dois Estados. Pergunte a qualquer palestino: 'Você pensa que Israel é uma presença legítima no Oriente Médio? Você acha que o sionismo é legítimo?' Eles responderão não. Para eles, Israel deveria ser destruído, e tentarão destruí-lo se puderem. Acham que é ilegítimo e que em algum ponto deixará de existir.

iG: Outro motivo para a expansão dos assentamentos não seria a necessidade de apaziguar partidos linha-dura na própria coalizão de governo?
Morris:
Sim. Se um governo precisar de alguns partidos para sua coalizão, terá de fazer concessões. Não é que o primeiro-ministro queira necessariamente expandir os assentamentos. Estou certo que Barak não queria, [Yitzhak] Rabin (1992-1995) antes dele também não, mas o fizeram porque havia pressões políticas. O pensamento era que devolveremos o território quando houver paz. Mas há o problema psicológico, porque transmite aos árabes falsidade.

iG: Há alguma chance de sucesso para atuais negociações de paz?
Morris:
As atuais negociações não terão sucesso. Apesar de a maioria dos israelenses querer de forma sincera a paz, não estou tão certo de que Netanyahu queira. Ele sabe que tem de seguir a liderança dos EUA, não pode aliená-los. Ele não se conformará ao ponto de congelar os assentamentos, mas pelo menos negociará. Quanto aos palestinos, não creio que queiram um acordo. Querem estender as negociações de forma perpétua até que haja tantos palestinos que a Palestina se transformará em um Estado árabe. Como têm mais filhos do que os judeus, acreditam que, em 20, 30 anos, haverá mais árabes em todo o território do que judeus. Assim, dirão: 'Isso é um Estado de segregação. Nos dê direitos.' Então teriam um Estado árabe-palestino com uma minoria judia. Os palestinos jogam com o tempo e a diplomacia, não são sinceros. 

iG: A questão demográfica, ou seja, estar sob risco de perder sua característica como um Estado judeu, seria a principal motivação de Israel para buscar a paz?
Morris:
Sim. Esse é o principal interesse próprio de Israel para sair da Cisjordânia: evitar tornar-se um Estado binacional ou de segregação. Os israelenses querem um Estado judeu, não querem compartilhá-lo com os árabes e certamente não querem governá-los.

iG: Para o senhor, há a possibilidade de haver uma terceira intifada (levante palestino) imediatamente ou anos após o colapso das atuais negociações porque não há como os palestinos aceitarem a ocupação. As atuais medidas de segurança israelense, principalmente com o Muro da Cisjordânia, não diminuem o risco de Israel ser atingido?
Morris: Também havia medidas de segurança na primeira (1987) e na segunda intifadas (2000), com forças de Israel na Cisjordânia, postos de controle, operações contra terroristas e assim por diante. A Cerca da Cisjordânia (há um muro apenas em um trecho dela) dificulta atingir alvos em Tel Aviv e Jerusalém, mas não é uma garantia contra foguetes ou mesmo que algum suicida consiga atravessá-la. De qualquer forma, há um risco maior para os colonos nos assentamentos do que para a população dentro de Israel, embora esta seja o principal alvo de desejo dos terroristas. Eles odeiam os colonos, mas sabem que é mais veemente explodir um ônibus em Tel Aviv.

iG: Israel está mais isolado agora?
Morris:
Não está, mas vem regularmente perdendo apoio no Ocidente. Enquanto a ocupação continuar, quanto mais houver expansão dos assentamentos, mais perderá apoio no Ocidente. Essa é a equação.

iG: Em seu trabalho, o senhor fala da dinâmica entre Israel e Autoridade Nacional Palestina, que governa a Cisjordânia, e não aborda o fator Hamas (grupo islâmico que governa a Faixa de Gaza) para uma eventual paz. Por quê?
Morris: Não abordo, porque o Hamas tem uma Constituição de 1988 que diz que Israel deveria ser destruído, é isso que eles acreditam, são sinceros. [O presidente da ANP, Mahmud] Abbas engana. Acho que ele também quer a destruição de Israel, mas finge que não. Os israelenses e principalmente os americanos pensam que, se a paz for alcançada com o representante da maioria da população palestina, ou seja, a da Cisjordânia, forçaria de alguma forma o Hamas a aceitar um acordo. Não acredito nisso. Acho que, se a ANP o assinar, o Hamas o subverterá e matará Abbas como vingança. Os americanos são mais otimistas que eu. Ou dizem que são.

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