Governo vê tentativa de golpe em protestos na Venezuela

Por BBC Brasil | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Presidente Nicolás Maduro quer convencer a população de que não há demanda legítima no movimento estudantil nas ruas

BBC

Diante da onda de protestos que já dura seis dias em Caracas, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, tem apostado em convencer a população de que não há uma demanda legítima do movimento estudantil nas ruas e sim uma manipulação da ala radical da oposição para promover um golpe de Estado.

Retaliação: Venezuela expulsa três funcionários consulares dos EUA

Reprodução/AP
Manifestantes tomam as ruas de Caracas desde a semana passada; eles pedem a renúncia de Maduro



López: Líder oposicionista venezuelano afirma que vai participar de protesto nesta terça

A mobilização estudantil é vista como um dos principais desafios já enfrentados pelo chavismo ao longo de seus 15 anos no poder. Desde que começaram os protestos em Caracas, Maduro tem focado suas mensagens em mostrar atos de violência e depredação de instituições públicas - ações que têm marcado o final de todos os protestos do movimento estudantil opositor.

Essa postura, no entanto, não tem contribuído para desmobilizar a juventude de classe média e alta que decidiu ir às ruas exigir uma mudança de governo. A morte de três venezuelanos - dois opositores e um chavista - na última quarta-feira e a detenção de mais de 100 estudantes em todo o país é visto como combustível para manter os adversários do governo nas ruas.

Quarta: Venezuelanos saem às ruas contra e a favor de Maduro

Contudo, nada pode ser tão explosivo como a iminente detenção do dirigente opositor Leopoldo López, acusado pelo governo de ser o responsável pela onda de violência no país. López tem chamado a juventude a paralisar o país e promover "a saída", plano que tem como fim provocar a renúncia de Maduro.

Na manifestação prevista para esta terça-feira, López - que não é visto em público desde a quarta-feira - desafiou as autoridades a prendê-lo. Ele deve liderar a manifestação até o Ministério de Interior e Justiça, onde deverá se entregar às autoridades.

Jornal: Juíza da Venezuela ordena prender opositor após protestos com 3 mortos

Na segunda-feira, o serviço de inteligência invadiu duas vezes a sede do partido de López, Voluntad Popular. A ação dos agentes foi anunciada no Twitter, o que levou dezenas de pessoas a um novo enfrentamento com as forças de segurança do Estado.

Estudantes pedem mais segurança nas universidades

Bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas para conter os manifestantes que impediam a saída dos policiais. O protesto opositor no centro da cidade coincidirá com uma marcha de trabalhadores petroleiros pró-governo e as autoridades estão preocupadas com um eventual cofronto entre os dois grupos.

Disputa interna

Para o analista político Nicmer Evans, o governo caiu numa espécie de "armadilha da oposição", que pretende resolver com mobilizações nas ruas a disputa interna entre suas principais lideranças.

Polícia nacional da Venezuela dispara gás lacrimogêneo enquanto manifestante antigoverno se ajoelha segurando pedra durante confrontos em Caracas (6/4). Foto: ReutersManifestantes mostram cartazes com fotos de ativistas mortos durante protestos antigoverno na Plaza Altamira em Caracas, Venezuela (20/3). Foto: APPartidários do líder da oposição Leopoldo López se reúnem para protesto que pede a libertação do político após um mês de sua prisão, na Venezuela (18/03). Foto: APGuardas das forças bolivarianas patrulham a Plaza Altamira após tomarem o controle do local em Caracas, Venezuela (17/3). Foto: APEstudante da Universidade Central da Venezuela grita contra governo de Nicolás Maduro durante protesto em Caracas (12/3). Foto: APManifestante antigoverno corre em meio ao gás lacrimogêneo lançado pela polícia durante protesto em Caracas, Venezuela (12/3). Foto: ReutersManifestante joga lata de gás lacrimogêneo em direção à polícia durante protesto antigoverno em Caracas, Venezuela (11/3). Foto: APGuardas prendem manifestante durante conflitos entre ativistas e motociclistas em Los Ruices, Venezuela (10/3). Foto: APPolícia impede passagem de manifestantes que protestavam contra escassez de alimentos (8/3). Foto: APManifestantes se preparam para jogar coquetéis molotov durante confrontos em Caracas, Venezuela (6/3). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana se protegem de fogos de artifício lançados contra eles por manifestantes em Caracas, Venezuela (março/2014). Foto: APManifestantes seguram cartazes com imagens de venezuelanos que foram mortos nas duas últimas semanas durante marcha em Caracas (28/2). Foto: APManifestantes rolam cano de água na tentativa de bloquear uma rodovia importante em Caracas, Venezuela (27/02). Foto: APOficiais da Guarda Nacional Bolivariana avançam em direção a protestos antigoverno em Valencia, Venezuela (26/2). Foto: APManifestante segura placa em frente de cordão da Guarda Nacional Bolivariana durante protesto perto da Embaixada de Cuba em Caracas, Venezuela (25/2). Foto: APObjetos colocados por manifestantes da oposição bloqueiam estrada no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APOpositor caminha perto de acusação feita a presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em rua no bairro de Altamira, Caracas (21/2). Foto: ReutersManifestante envolto com a bandeira da Venezuela coloca mais objetos em barricada em chamas no bairro de Altamira, em Caracas, Venezuela (20/2). Foto: APPartidários do governo venezuelano marcham no centro de Caracas (20/2). Foto: APManifestante levanta os braços em direção à polícia que lança gás lacrimogêneo em bairro de Caracas, Venezuela (19/2). Foto: APMiss Génesis Carmona é levada de moto a hospital. Ela morreu após ter sido atingida por disparo na cabeça em 18/2. Foto: Reprodução/TwitterManifestante usa máscara caseira para se proteger de gás durante protestos em avenida de Caracas, Venezuela (18/02). Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente Nicolás Maduro durante marcha em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APLeopoldo López, líder da oposição da Venezuela, é preso vestido de branco e segurando flor em Caracas, Venezuela (18/2). Foto: APManifestante cobre a boca com pano durante protesto contra a censura do governo venezuelano em Caracas (17/2). Foto: APManifestante atira pedras na Força Nacional Bolivariana durante protesto na Venezuela (15/2). Foto: APManifestantes fecham a principal via da Venezuela (15/2). Foto: ReutersManifestantes na Venezuela são dipersados com canhões de água e gás lacrimogêneo (15/2). Foto: Carlos Garcia Rawlins/ReutersUniversitária segura cartaz em que se lê 'E quem tem as armas?' enquanto se manifesta contra o presidente Nicolás Maduro em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes choram durante vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APEstudantes comparecem à vigília em Caracas por dois jovens mortos em confrontos violentos na Venezuela (13/2). Foto: APJovem segura livro marcado em espanhol com a frase 'Esta é a minha arma' durante protesto contra repressão de estudantes em Caracas, Venezuela (13/2). Foto: APEstudante segura cartaz em que se lê 'Paz e liberdade' durante manifestação em Caracas, Venezuela (13/2)
. Foto: APEstudantes gritam slogans contra o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, durante protesto em Caracas (13/2)
. Foto: AP

De um lado está López, representante da ala mais radical e, de outro, o governador Henrique Capriles, atual líder da coalizão opositora e representante dos antichavistas moderados. "A detenção de Leopoldo o transformará em um herói e pode convertê-lo no novo líder da oposição", afirmou Evans.

Outro erro que analistas apontam na condução dos protestos foi não desvincular os estudantes das ambições de López, estratégia que tende a criminalizar o protesto e insuflar ainda mais as mobilizações.

"Quanto mais nos atacam e criminalizam o protesto, mais venezuelanos estarão de nosso lado. Queremos que deixem de acusar-nos de conspiradores", afirmou à BBC Brasil Gaby Avellano, dirigente estudantil, durante um protesto no fim de semana.

Gaby afirma que não haverá negociação com o governo enquanto os estudantes detidos não forem liberados. Questionada sobre o objetivo final das manifestações, a dirigente estudantil defende que o atual governo deve deixar o Palacio Miraflores.

TV colombiana é tirada do ar: ONG denuncia 125 detidos em protestos na Venezuela

"Queremos uma mudança de quem está no governo. Este governo é ilegítimo porque não cumpre com a Constituição", afirmou. Além de serem apontados como "massa de manobra" de um plano golpista, o governo acusa o movimento estudantil de receber recursos de Washington para suas atividades.

Na segunda-feira, Maduro expulsou três funcionários do consulado americano em Caracas, acusados de financiar e orientar os estudantes opositores para promover ações contra o governo. Os EUA negaram as acusações, qualificando-as de "infundadas".

Diálogo

Na avaliação do analista político John Magdaleno, Maduro deveria estabelecer novas pontes de diálogo com os estudantes para atender de imediato as demandas iniciais que levaram os jovens às ruas: a insegurança nas universidades.

O ministro de Interior e Justiça convocou os estudantes para negociar, mas o convite foi rejeitado. A condição dos jovens para o diálogo é a soltura de todos os estudantes presos em protestos.

"Maduro está se esquivando dos pedidos da oposição e com isso afasta a responsabilidade do Estado sobre as mortes que aconteceram", afirmou Magdaleno à BBC Brasil.

No domingo, Maduro teve de romper o silêncio sobre as circunstâncias que anteciparam as mortes de três venezuelanos durante a manifestação em Caracas ao admitir que o Serviço de Inteligência Sebin descumpriu as ordens de manter seus agentes aquartelados durante a manifestação. Somente a Polícia Nacional Bolivariana tinha autorização para controlar os manifestantes.

No entanto, um vídeo exibido pelo site do jornal Ultimas Noticias revela que agentes do Sebin dispararam contra os estudantes. O uso de armas letais para conter manifestações está proibido pela Constituição venezuelana.

"Havia um grupo de funcionários que não cumpriu as ordens (...) eu mandei aquartelar o Sebin na madrugada", afirmou Maduro ao acrescentar que as investigações sobre a morte dos manifestantes "estão avançadas".

Golpe?

Apesar das ameaças nas ruas, políticos e analistas concordam que não há possibilidades de que o governo Maduro seja derrocado pela força. López deve liderar protesto nesta terça e depois se entregar às autoridades

Aparentemente as Forças Armadas estão unidas em torno do projeto chavista e não há mobilização das classes populares contra o governo. "É preciso entender que se o povo humilde não sai (às ruas), não há maneira de promover mudanças", admitiu Capriles, em entrevista à CNN na segunda-feira.

Sérgio Sánchez, ex-líder estudantil nos anos 90, concorda. Apesar da crise econômica afetar toda a população, o discurso da juventude que está nas ruas e difunde pelo Twitter mensagens como "fecha tua rua e paralisa o país" não seduz os setores populares, que são a base de sustentação do chavismo.

"Nenhum pobre se sentirá representado por um sifrino (Mauricinho), com óculos escuros caros, falando que estão passando fome. Isso não cola", afirmou Sánchez à BBC Brasil.

Para Sánchez, o governo tende a sair fortalecido da crise. "O povo venezuelano rejeita a violência, principalmente porque não considera que essas ações são legítimas e isso tende a fortalecer o governo", afirmou.

Para o ex-dirigente estudantil, as mobilizações tendem a perder força paulatinamente, mas suas causas permanecerão latentes. Também segundo ele, o movimento estudantil está se mobilizando em defesa de uma sociedade anglo-saxã e centrada no consumismo.

"Eles sentem que a Revolução Bolivariana destrói esse modelo de sociedade e não se veem realizados nela", afirmou.

Um cartaz levado pelo grupo de ultradireita Javu ao protesto em Altamira, bastião opositor, manifesta esse abismo entre os dois projetos da polarizada sociedade venezuelana.  "Venezuela necessita de ti, mate um chavista."

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas