Maioria dos detidos é mantida incomunicável, diz Foro Penal Venezolano. Líder Maduro promete reprimir 'conspiradores'

A ONG Foro Penal Venezolano denunciou a detenção de 125 pessoas, incluindo três jornalistas, durante protestos do Dia da Juventude que reuniram mais de 10 mil e deixaram três mortos e mais de 60 feridos em Caracas e outras cidades venezuelanas na quarta-feira. As autoridades, por sua vez, informaram a existência de 69 presos.

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Além disso, dirigentes da rede colombiana NTN24, que é transmitida por cabo na Venezuela, afirmaram que o canal foi retirado do ar na quarta-feira quando transmitia informações sobre as manifestações contrárias ao presidente Nicolás Maduro, que está há dez meses no poder.

As informações surgiram um dia depois de estudantes terem voltado às ruas nas principais cidades de oito Estados do país para rejeitar os atos de violência e a repressão que atingiram as marchas de quarta. Os protestos de quinta foram realizados sob forte aparato militar, fazendo os estudantes reivindicarem o direito de manifestação.

Também na quinta, opositores alertaram para uma possível repressão do governo depois que autoridades tentaram vasculhar os escritórios do partido político Vontade Popular e culparam seu líder fundador, Leopoldo López, de incitar a violência que causou as mortes na quarta-feira.

Chacao: López se isola em casa para tentar confirmar mandado de prisão

O jornal venezuelano El Universal publicou o que disse ser uma cópia vazada do mandado de prisão contra López , economista formado em Harvard de 42 anos e ex-prefeito de Chacao que tem liderado a onda de protestos no país em semanas recentes. Segundo a publicação, o mandado foi emitido sob as acusações de conspiração, assassinato e terrorismo.

A procuradora-chefe Luisa Ortega não fez nenhuma menção à suposta ordem de prisão em declarações à mídia na quinta. Apesar disso, vários funcionários do governo o denunciaram como idealizador do que chamaram de uma "fascista" estratégia apoiada pelos EUA de repetir os tumultos que precederam ao golpe de 2002 que tirou brevemente do poder o presidente Hugo Chávez , que morreu em 5 de março .

Além das medidas adotadas contra López, legisladores pró-governo também prometeram retirar da congressista Maria Corina Machado, outra forte crítica do governo, sua imunidade parlamentar para que ela possa ser processada.

Repressão

Opositor Leopoldo López concede coletiva em Caracas, na Venezuela, em foto de 2011
EFE
Opositor Leopoldo López concede coletiva em Caracas, na Venezuela, em foto de 2011

De acordo com a ONG Foro Penal Venezolano, a maioria dos estudantes presos na quarta é mantida incomunicável. Segundo relatou no Twitter Alfredo Romero, diretor dessa organização, os que foram apresentados às cortes relataram que teriam sido torturados com descargas elétricas. Eles foram acusados de instigação pública à violência, danos ao patrimônio público e conspiração e têm de se apresentar à Justiça a cada 30 dias.

Tamara Suju, integrante da ONG, garantiu que os parentes dos estudantes não puderam vê-los. “Em nenhum Estado, salvo em Barinas, foi permitido acesso aos meninos. Isso é uma violação do direito à defesa e ao processo judicial devido. Nem sabemos se eles se alimentaram", afirmou.

Após a retirada da NTN24 do ar, a diretora do canal colombiano, Claudia Gurisatti, reagiu afirmando que a medida é uma "censura à imprensa livre, um atropelo ao direito de informação dos cidadãos e um atentado à liberdade de expressão". Ela também advertiu que denunciará a ação em todos os organismos de liberdade de expressão e direitos humanos.

Grupos de direitos humanos alertaram que o governo está abusando de sua autoridade e tentando intimidar os oponentes enquanto impede a mídia local e internacional de trabalhar. Em Washington, um funcionário do Departamento de Estado conclamou o governo de Maduro de respeitar suas obrigações internacionais de proteger as liberdades de expressão e o direito à reunião pacífica dos venezuelanos.

"O que a Venezuela urgentemente precisa é que esses assassinatos sejam investigados e que os assassinos sejam apresentados à Justiça, não importa sua afiliação política", disse José Miguel Vivanco, diretor de Américas da Human Rights Watch. "O que a Venezuela não precisa é as autoridades usando oponentes políticos como bodes expiatórios ou fechando redes de mídia cuja cobertura não gostam."

Manifestante recebe ajuda após ser atingido por uma pedra na cabeça (12/2)
AP Photo/Alejandro Cegarra
Manifestante recebe ajuda após ser atingido por uma pedra na cabeça (12/2)

Maduro desafiador

As críticas internacionais não tiveram nenhum efeito em deter Maduro, que advertiu que punirá severamente qualquer um que conspire contra seu governo socialista. Em meio ao corte ao sinal da NTN24, o presidente venezuelano criticou a mídia internacional, dizendo que a agência francesa AFP liderava a campanha de "manipulação".

"Ninguém virá de fora para pressionar ou nos perturbar", disse durante um pronunciamento televisionado na noite de quinta-feira.

Os aliados de López responsabilizaram o governo pela violência, afirmando que as forças de segurança que agem sob as ordens do presidente não fizeram nada enquanto membros de milícias governistas em motocicletas atacaram os grupos de estudantes depois da debandada do maior protesto já realizado contra o presidente.

*Com jornais venezuelanos e AP

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