'Justiceiros online' afetam vidas e mudam comportamentos na China

Por BBC Brasil | - Atualizada às

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Mobilização na internet quase sempre resulta em ameaças de morte. Casos crescem desde 2006 no país

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A vida do taxista chinês Yin Feng mudou em 21 de março de 2013. Logo após as 14h, Yin começou a receber centenas de ligações no seu celular, de pessoas que gritavam obscenidades e o acusavam de se comportar como um animal. Demorou um pouco até que Yin, perplexo, entendesse o que estava acontecendo.

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Yin, com cartaz em que protesta sua inocência; ele foi alvo de xingamentos por algo que não havia feito


"Um cidadão sensato me contou uma história que ele tinha ouvido no rádio, ou na internet, a meu respeito", lembra o taxista.

Naquele dia, pela manhã, um motorista em Urumqi (noroeste chinês) havia baixado o vidro do carro para cuspir em um sem-teto idoso que estava deitado na calçada. Testemunhas gravaram os primeiros números da placa do carro e a informação foi rapidamente transmitida por uma estação de rádio local. Milhares de internautas se juntaram para procurar o responsável.

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"Motorista com a placa A36D62, você envergonha a humanidade", escreveu um deles. "Por favor, compartilhem esta mensagem e vamos ver a cara feia que ele tem. Vamos acabar com ele. Morra! Que desgraça. Não sabemos nem de onde ele é. Saia fora de Urumqi!", dizia o internauta.

Horas mais tarde, a massa anônima chegou a Yin - cuja placa tinha alguns dígitos em comum - e o número do seu celular foi divulgado na internet. Os justiceiros cibernéticos estavam errados, diz Yin. Ele diz que tentou se defender, explicar a quem estivesse disposto a ouvir que ele não tinha cuspido em ninguém.

Mas assim que ele terminava de falar com uma pessoa, o telefone tocava novamente. E de novo. E de novo. Milhares de vezes.

"Todos os meus dados pessoais foram publicados na rede. O número da minha identidade, meu nome, telefone, endereço, até o telefone da minha sogra foi divulgado", conta Yin. "Cheguei a receber ameaças, fui chantageado, disseram que iam queimar minha casa se eu não pagasse" (cerca de R$ 79 mil).

'Ilegal e imoral'

Yin foi alvo de um fenômeno cada vez mais comum na China: o assédio cibernético em escala gigantesca, que chega a envolver centenas de milhares de internautas anônimos que se agrupam em gangues contra um indivíduo - por exemplo, um suspeito de adultério ou alguém que teria abusado de animais.

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Os primeiros casos desse tipo a chamar a atenção no país aconteceram em 2006, quando a internet se tornou a principal fonte de entretenimento para muitos chineses.

Houve o caso da enfermeira que participou de um vídeo anônimo onde ela era vista esmagando a cabeça de um gatinho com o salto do seu estileto. Ela foi identificada, suspensa do trabalho, alvo de ameaças de morte e chegou a pensar em suicídio, segundo a TV estatal chinesa. Centenas de histórias semelhantes se seguiram.

Há indícios, no entanto, de que os altos escalões do governo chinês tenham começado a notar o problema. Liu Zhengrong, funcionário do Partido Comunista responsável por vigilância cibernética, declarou que esse tipo de assédio é "ilegal e imoral".

O caso de Wang Fei

Em 2008, um viúvo de Pequim chamado Wang Fei viu-se alvo de um ataque em massa por vigilantes cibernéticos. A esposa de Wang tinha cometido suicídio após descobrir que o marido tinha uma amante. Uma amiga conseguiu acesso ao e-mail da esposa de Wang e publicou o diário da morta na internet.

Dentro de dias, Wang tinha perdido seu emprego e se mudado para a casa dos pais para escapar dos internautas irados que haviam lido os diários. Ainda assim, ele foi seguido. Grupos escreveram ameaças na porta da casa dos pais dele e distribuíram folhetos com a foto de Wang, chamando-o de assassino.

"Eu disse a ele que poderíamos apenas processar websites e pessoas com identidades. Os internautas, dezenas de milhares deles, não sabemos quem são", disse o advogado de Wang, Zhang Yanfeng.

Wang conseguiu, mais tarde, processar as operadoras de três sites por invasão de privacidade e por denegrirem sua reputação. A advertência de Liu foi repetida pela mídia estatal - segundo advogados, um sinal de que a atividade não será tolerada por tribunais do país. Há a expectativa de que legislação específica seja criada para tentar lidar com o problema.

Até o momento, no entanto, qualquer pessoa pode acabar se vendo vítima dos "justiceiros cibernéticos". Inclusive as próprias autoridades.

O caso mais famoso de assédio contra um político foi a foto de um homem flagrado sorrindo diante de um acidente fatal.

"Quem seria esse homem?", alguns se perguntaram.

Logo, os "justiceiros" descobriram que a pessoa na foto era Yang Dacai, o secretário de Saúde e Segurança da província de Shaanxi, centro da China.

Alguns também notaram que em cada fotografia oficial Yang usava um relógio diferente - relógios de marcas caras, muito mais caras do que o salário oficial de um funcionário na posição dele. Dias após seu rosto sorridente ter sido capturado naquela foto, Yang perdeu seu emprego.

Desde então, procurar relógios tornou-se um passatempo entre internautas chineses, e casos como o de Yang foram denunciados em todo o país. Algumas autoridades chamam a atenção do público quando marcas em seus pulsos revelam que a pessoa tirou o relógio antes de posar para a foto.

O Uso da Internet na China

Em 2011, consumidores chineses passaram 1,9 bilhões de horas na internet - um aumento de 60% em relação a 2009

Calcula-se que, em 2015, a China terá 200 milhões de novos usuários, totalizando mais de 700 milhões de internautas - o dobro do número de usuários do Japão e dos Estados Unidos somados

A metade dos internautas chineses diz que a internet é sua fonte mais confiável de informações, seguida pela TV (30%) e os jornais (15%), segundo o The Boston Consulting Group.

Entre os defensores dessa teoria está Wu Zuolai, membro da Academia Chinesa das Artes, em Pequim. Ele diz que ao usar a internet para policiar o partido, cidadãos podem treinar seus próprios governantes para que obedeçam à Constituição.

"Eles são criticados todos os dias e isso vai virar rotina", diz Wu. "No passado, os líderes se trancavam em Zhongnanhai (a sede do governo chinês, em Pequim), pensando em formas de manter a população dentro de caixas fechadas, sem falar nem se movimentar em liberdade. Acredito que a era (do presidente Xi) Jinping vai ser mais aberta."

O tempo dirá se Wu tem ou não razão. Até porque, mesmo que leis sejam decretadas, a internet tem se mostrado um território difícil de controlar - até na China, onde censores com frequência apagam blogs e comentários tidos como "inaceitáveis" pelo governo.

E se a internet representa um desafio, Pequim ainda se verá às voltas com outro bicho indomável: o apetite do povo chinês por bisbilhotar - ou fiscalizar - a vida dos outros.

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