Revista: Oficiais do Exército e hackers espionaram negociação de paz na Colômbia

Por iG São Paulo | - Atualizada às

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Mensagens de texto e emails dos responsáveis por diálogo com as Farc teriam sido interceptados por mais de um ano

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, disse na terça-feira que inimigos dos esforços de sua administração de fazer a paz com rebeldes de esquerda podem estar por trás da espionagem por membros de uma unidade cibernética de elite do Exército nas comunicações digitais dos negociadores do governo.

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Reuters
Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, concede coletiva (foto de arquivo)

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"Isso é totalmente inaceitável", disse Santos aos repórteres, afirmando que ordenou uma investigação completa. Horas mais tarde, dois generais foram suspensos de seus postos.

Colombianos se depararam pela manhã com a denúncia da principal revista do país de que ciberespiões, juntamente com jovens hackers civis que eles recrutaram, coletaram por mais de um ano emails e mensagens de texto dos negociadores de Santos nas negociações de paz em Havana.

"Eles aparentemente reuniam especificamente material de inteligência dos negociadores", disse Santos. Ele afirmou que a operação pareceu ter o objetivo de prejudicar as negociações de paz lançadas em novembro de 2012 para pôr fim ao conflito de meio século com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

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Santos disse que uma investigação determinaria "se elementos no Exército" eram aliados com "forças obscuras" tentando minar as negociações. Ele afirmou, sem especificar quando, que foi informado que o aparente centro de operações de espionagem na capital foi inspecionado na semana passada.

O procurador-chefe Eduardo Montealegre disse que as autoridades apreenderam 20 computadores, pendrives e outros eletrônicos na ação conduzida em 24 de janeiro.

Na terça, o governo anunciou que dois generais estavam sendo dispensados de seus atribuições durante as investigações. O ministro da Defesa Juan Carlos Pinzón não especificou nenhum relacionamento entre a suposta ciberespionagem e os dois oficiais — general Mauricio Zuniga, chefe da inteligência do Exército, e o general Jorge Andres Zuluaga, diretor do centro de inteligência nacional do Exército.

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A matéria da Semana disse que o círculo de espionagem operou por 15 meses até outubro a partir de uma loja de rua que vendia almoços baratos e dizia oferecer aulas de webdesign e ciberssegurança.

Os espiões não interceptaram comunicações de voz, mas receberam a ordem de invadir contas de email e interceptar mensagens do popular serviço de WhatsApp, segundo a revista.

Seus alvos incluíam o principal negociador do governo, Humberto de la Calle, e o comissário de paz, Sergio Jaramillo, assim como políticos diretamente envolvidos nas negociações, incluindo o congressista de esquerda Ivan Cepeda e a ex-senadora Piedad Córdoba, uma mediadora-chave com as Farc, segundo a Semana. Os espiões também estavam engajados em espionar rebeldes nas áreas urbanas, disse a revista.

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A Semana disse que os negociadores do governo provavelmente não discutiriam questões sensíveis em suas comunicações digitais, conscientes de que as agências de inteligência, incluindo a cubana, os estariam monitorando.

Córdoba and Cepeda, contatados pela Associated Press, classificaram a espionagem de uma tentativa de sabotar as negociações de paz. Os negociadores das Farc em Havana não fizeram nenhum comentário imediato.

"Ou o governo fazia uma espécie de contrainteligência de sua própria equipe ou isso era uma operação de um setor dissidente no Exército agindo contra o processod e paz", afirmou Cepeda.

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Ele sugeriu que o ex-presidente Álvaro Uribe, um duro inimigo das negociações de paz, poderia estar atrás da operação. Uribe, que concorre a um assento no Senado nas eleições de março, negou isso em um email enviado a repórteres. Santos concorre à reeleição em maio.

Semana disse que os espiões, operando sob o nome-código "Andrômeda", recrutaram jovens hackers na anual "Campus Party" de Bogotá.

A revista relatou que um capitão do Exército, cujo nome não divulgou por questões de segurança, dirigia a operação. Ela afirmou que ele era um membro do Batalhão de Inteligência Técnica Nº 1, conhecido como Bitec-1, que descreveu como uma espionha dorsal do Dinte, o braço de inteligência do Exército.

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A operação foi interrompida quando os espiões temeram que haviam sido descobertos, disse a revista. A publicação disse ter investigado a operação durante 15 meses e ter consuldado várias fontes de alto nível, incluindo oficiais de inteligência dos EUA, que por muito tempo auxiliaram o governo de Bogotá em sua luta contra as Farc.

Em 2009, a Semana revelou um escândalo que eventualmente levou ao desmantelamento da agência de inteligência doméstica DAS. A investigação determinou que agentes da DAS estavam interceptando ilegalmente comunicações de telefone de importante políticos, jornalistas e juízes da Suprema Corte. O escândalo levou ao aprisionamento de vários graduados oficiais da DAS e manchou bastante o governo Uribe.

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