Relatório da ONU sobre abuso é distorcido, injusto e tendencioso, diz Vaticano

Por iG São Paulo |

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Crítica de comissão à posição sobre homossexualismo foi influenciada por ideólogos pró-gays, reage arcebispo

O Vaticano rejeitou nesta quarta-feira um relatório da ONU sobre abuso sexual na Igreja Católica, afirmando que ele era distorcido, injusto e ideologicamente tendencioso. Segundo o chefe da delegação da Santa Sé na ONU em Genebra, o arcebispo Silvano Tomasi, pareceu que a Comissão da ONU sobre os Direitos das Crianças simplesmente não ouviu quando a Santa Sé detalhou todas as medidas que adotou para proteger as crianças.

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Relatório põe nova pressão sobre o papa Francisco para atuar de forma mais decisiva na questão do abuso (foto de 13/1)

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Respondendo às críticas que o relatório também faz às posições da Igreja sobre homossexualismo, aborto e contracepção, o chefe da delegação da Santa Sé na ONU em Genebra, o arcebispo Silvano Tomasi, afirmou que o órgão não pode pedir que a Igreja mude seus ensinamentos morais "não negociáveis". À Rádio do Vaticano, Tomasi acusou a comissão que redigiu o documento de ter traído os próprios objetivos do órgão internacional ao se permitir ser influenciado por ideólogos pró-gays.

De acordo com o relatório da comissão, o Vaticano "sistematicamente" adotou políticas que permitiram aos padres estuprar e molestar dezenas de milhares de crianças durante décadas, conclamando-o a abrir seus arquivos sobre os pedófilos e os religiosos que esconderam seus crimes.

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Em um relatório devastador saudado pelas vítimas de abuso, a comissão da ONU também criticou duramente a Santa Sé por suas atitudes em relação ao homossexualismo, à contracepção e ao aborto e disse que a Igreja deveria mudar seu direito canônico para assegurar os direitos das crianças e para que seu acesso à assistência à saúde seja garantido.

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O relatório, que pegou o Vaticano de surpresa, põe uma nova pressão sobre o papa Francisco para atuar de forma mais decisiva na questão do abuso e cumprir promessas de criar uma comissão do Vaticano para estudar o abuso sexual, recomendando melhores práticas para combatê-lo. A comissão foi anunciada em dezembro, mas poucos detalhes foram revelados desde então.

A comissão fez suas recomendações depois de submeter a Santa Sé a um interrogatório de um dia de duração no mês passado sobre sua implementação da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, o principal tratado internacional para garantir os direitos infantis, que a Santa Sé ratificou em 1990.

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De forma crítica, a comissão da ONU rejeitou o antigo argumento do Vaticano de que não controla os bispos ou seus padres abusivos, dizendo que a Santa Sé era responsável por implementar o tratato não apenas na Cidade do Vaticano, mas ao redor do mundo "como o poder supremo da Igreja Católica por meio de indivíduos e instituições postos sob sua autoridade".

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Kirsten Sandberg, presidente da comissão de direitos humanos da ONU sobre direitos das crianças, fala durante coletiva em Genebra, Suíça

O arcebispo Tomasi, que chefiou a delegação do Vaticano na sessão de 16 de janeiro em Genebra, ficou claramente surpreso com o tom do relatório. "É como se esse documento tivesse sido preparado antes da reunião, na qual o Vaticano deu respostas detalhadas em vários pontos que não foram relatos nesse documento final ou parecem não ter sido levados em conta", afirmou.

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Em seu relatório, o órgão criticou o "código de silêncio" que há muito tempo é usado para calar as vítimas, afirmando que a Santa Sé tem "sistematicamente colocado a preservação da reputação da Igreja e do alegado agressor acima da proteção das vítimas infantis". O documento pede que a Santa Sé ofereça uma indenização às vítimas e faça com que prestem contas não apenas os autores dos abusos, mas também os que encobriram seus crimes.

"A comissão está gravemente preocupada que a Santa Sé não reconheceu a extensão dos crimes cometidos, não adotou as medidas necessárias para lidar com os casos de abuso sexual infantil e para proteger as crianças e estabeleceu políticas e práticas que levaram à continuidade do abuso pelos perpetradores e à sua impunidade", disse o relatório.

O documento pede que a incipiente comissão de abuso sexual do papa conduza uma investigação independente de todos os casos de abusos e da forma como a hierarquia católica respondeu com o passar do tempo, requisitando que a Santa Sé crie regras claras para a denúncia mandatória de abuso à polícia.

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Nenhum bispo católico foi alguma vez punido pelo Vaticano por proteger um padre abusivo, e apenas em 2010 a Santa Sé ordenou que os bispos denunciassem os autores de abuso à polícia quando requerido por lei. Funcionários do Vaticano reconheceram que a prestação de contas dos bispos continua um grande problema e sugeriram que, sob Francisco, as coisas podem começar a mudar.

As recomendações da comissão não são obrigatórias e não há nenhuma mecanismo que force o cumprimento das medidas. Em vez disso, a ONU pediu que o Vaticano implemente as recomendações e entregue um relatório sobre a questão até 2017. O Vaticano teve um atraso de 14 anos em submeter seu relatório mais recente.

Enquanto a maior parte da atenção do documento deu ênfase ao abuso sexual infantil, as recomendações da comissão vão bem além, entrando em questões como discriminação das crianças e seus direitos a uma adequada assistência à saúde.

A comissão, por exemplo, conclamou o Vaticano a emendar seu direito canônico para identificar circunstâncias em que o acesso ao aborto possa ser permitido às crianças, tal como salvar a vida de uma jovem mãe. Ela pede também que a Santa Sé garanta que a educação sexual, incluindo o acesso à informação sobre contracepção e a prevenção do HIV, seja mandatória nas escolas católicas. Além disso, requisitou que a Santa Sé use sua autoridade moral para condenar a discriminação contra crianças homossexuais ou crianças criadas por casais do mesmo sexo.

A Igreja ensina que a vida começa na concepção. O Vaticano, que portanto se opõe ao aborto e à contracepção artificial, pede o respeito aos gays, mas considera os atos homossexuais como sendo "desordenados de forma intrínseca". O Vaticano tem um histórico de confronto diplomático com a ONU em tais questões.

Tomasi disse que o pedido para que a posição sobre o aborto seja reconsiderada vai contra os próprios objetivos do tratado de proteger a vida das crianças antes e depois do nascimento e acusou grupos de defesa dos direitos gays e do casamento gay de ter "reforçado uma linha ideológica" com a comissão.

*Com AP

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