Presidente enfrenta desafio em ano que seu partido tenta não perder controle do Congresso nas eleições legislativas

No seu discurso logo após a reeleição em 2012 , o presidente dos EUA, Barack Obama, mostrou que confiava plenamente no futuro ao afirmar " o melhor está por vir ". Ao iniciar nesta segunda-feira os três últimos anos de seu governo, Obama terá o desafio de provar que sua promessa ainda tem chance de ser cumprida apesar do legado deixado pelo primeiro ano de seu segundo mandato, o difícil 2013.

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Há um ano:  Obama toma posse oficial para segundo mandato

Presidente dos EUA, Barack Obama, ouve atentamente durante encontro do Conselho Nacional de Segurança na Casa Branca, Washington (5/4/2013)
Pete Souza/ Casa Branca
Presidente dos EUA, Barack Obama, ouve atentamente durante encontro do Conselho Nacional de Segurança na Casa Branca, Washington (5/4/2013)

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E o desafio terá de ser iniciado no ano das chamadas "eleições de meio de mandato", quando os americanos comparecerão às urnas para definir a composição do Congresso nos dois últimos anos do mandato de Obama.

Com falta de avanço em 2013 em importantes itens de sua agenda doméstica, como reforma fiscal, controle de armas , mudança climática e a reforma de imigração , as chances de Obama de concretizar as expectativas sobre seu governo desde que chegou ao poder, em 2009, ficarão ainda menores se seu Partido Democrata for derrotado em novembro.

Depois de os opositores republicanos terem empregado com força total seu poder de obstrução no Congresso em outubro, quando forçaram a  paralisação parcial do governo  por divergências sobre o Orçamento e aproximaram os EUA de um calote , os democratas terão a tarefa de manter o controle do Senado se quiserem ver algum avanço nas propostas de Obama até 2017, quando ele transfere ao sucessor a faixa presidencial. 

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Para atingir esse objetivo, ou até mesmo conquistar as 17 cadeiras necessárias para obter o controle da Câmara dos Representantes na votação de 4 de novembro, os democratas apostam no fato de a paralisação parcial do governo ter sido uma medida muito impopular entre os americanos.

Os republicanos, por sua vez, depositam as esperanças de manter a Câmara e até conquistar os seis assentos que precisam no Senado no lançamento desastrado do site do Obamacare, programa de assistência à saúde que é a principal bandeira do primeiro presidente negro dos EUA.

Depois de o programa ter sobrevivido a contestações judiciais e legislativas, esperava-se que seu lançamento em 1º de outubro fosse um sucesso. Mas o que se viu foi um site cheio de problemas, com quedas constantes do sistema, que não permitia a inscrição dos interessados.

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Como o governo só conseguiu fazer com que o site funcionasse relativamente sem problemas dois meses depois, a confiança dos americanos no programa e no próprio presidente caiu. E é nisso que os republicanos apostam suas fichas.

"O falho lançamento do Obamacare foi o maior problema de Obama em 2013, porque essa medida é seu legado e é por ela que será lembrado no futuro de uma forma ou de outra", disse ao iG  o advogado Robert J. Kabel, presidente do Comitê do Partido Republicano na capital dos EUA, Washington.

Para Kabel, a falhas no site serão relembradas no longo prazo. "Os americanos lembrarão porque é uma medida que se refere a uma questão crucial, a saúde. O Obamacare será a principal questão nas eleições de 2014", afirmou.

Repercussão da espionagem

Além dos problemas no Obamacare, outra questão que dominou as manchetes em 2013, trazendo saias-justas domésticas e internacionais para Obama, foi a revelação de um indiscriminado programa de espionagem mundial conduzido pela Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês).

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De acordo com documentos vazados desde junho pelo ex-prestador de serviços da NSA Edward Snowden , milhões de dados telefônicos e de internet de americanos e estrangeiros são monitorados, incluindo de líderes como a presidente Dilma Rousseff e a chanceler alemã, Angela Merkel .

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As revelações levantaram uma forte discussão sobre o direito à privacidade nos EUA e estremeram as relações dos EUA com seus aliados e parceiros internacionais. Dilma, por exemplo, cancelou uma visita de Estado programada para outubro e fez um duro discurso sobre a questão durante a Assembleia Geral da ONU. O Brasil também uniu esforços com a Alemanha e conseguiu aprovar na ONU uma resolução contra a espionagem .

Sul-africanos celebram enquanto Obama espera em túnel para entrar em estádio para homenagem a Mandela (10/12/2013)
Pete Souza/ Casa Branca
Sul-africanos celebram enquanto Obama espera em túnel para entrar em estádio para homenagem a Mandela (10/12/2013)

"Uma premissa central da candidatura do Obama em 2008 e do início de seu primeiro mandato era a de que o mundo amaria os EUA assim que ele fosse presidente", disse ao iG o analista político conservador Michael Barone, do American Enterprise Institute. "Isso não aconteceu", completou.

Perante a repercussão negativa do caso, Obama se viu forçado a anunciar ainda no ano passado uma revisão dos programas que, diz, têm como objetivo principal o combate ao terrorismo. Com base na revisão, anunciou na sexta-feira que  buscará tirar do governo o controle sobre a ampla coleta de registros telefônicos dos americanos e prometeu que "não monitorará as comunicações de chefes de Estado e governo dos nossos aliados e amigos mais próximos".

Perspectivas futuras

Apesar da repercussão negativa da espionagem no exterior, Obama experimentou na política externa resultados relativamente mais positivos do que na área doméstica no ano passado.

Um dos exemplos é a Síria. Depois de entregar ao Congresso a decisão de atacar o regime de Bashar al-Assad pelo uso de armas químicas , viu-se salvo de uma vexaminosa votação negativa depois que seu secretário de Estado, John Kerry, alcançou com o chanceler russo, Serguei Lavrov, um acordo para destruir o arsenal químico sírio .

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Além disso, embora a retomada do diálogo de paz entre Israel e palestinos venha se arrastando sem sinalizar um fim positivo, os EUA conseguiram algum avanço no Oriente Médio com um acordo para frear o programa nuclear iraniano .

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Presidente dos EUA discursa sobre reforma nos programas de espionagem da Agência Nacional de Segurança em Washington (17/1)
AP
Presidente dos EUA discursa sobre reforma nos programas de espionagem da Agência Nacional de Segurança em Washington (17/1)

Como no caso sírio o acordo ainda tem de ser implementado até meados deste ano, enquanto no do Irã só foi alcançado um pacto temporário até que se negocie um acordo definitivo sobre o programa nuclear do país persa, há ainda muito chão para que Obama consiga declarar sucesso total nas duas instâncias. Por enquanto, porém, conseguiu acalmar um pouco as águas.

Para Julian Zelizer, professor de História e Questões Públicas da Universidade de Princeton, os duros momentos de 2013 deveriam ser para Obama uma oportunidade de aprendizado de como impulsionar sua agenda no resto de seu governo e corresponder às expectativas criadas com sua chegada ao poder em 2009.

"Obama pode sentir algum otimismo com o fato de que enfrenta um Partido Republicano profundamente dividido cujos índices de popularidade são até piores do que os dele", afirmou em um artigo publicado no site da CNN, referindo-se ao movimento ultraconservador Tea Party, principal responsável pelo impasse político e econômico de outubro. "A boa notícia para o presidente americano é que ainda há tempo para reconquistar o apoio público e construir seu legado para os livros de história", completou.

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