ONU pressiona Vaticano a revelar dimensão dos casos de abuso sexual

Por Reuters |

compartilhe

Tamanho do texto

Especialistas em proteção civil de organização questionam se Igreja permitiu abusos para proteger padres pedófilos

Reuters

Especialistas em proteção infantil da ONU questionaram representantes do Vaticano, nesta quinta-feira, sobre a forma como as autoridades da Igreja Católica lidaram com décadas de abuso sexual de menores por padres, fato que o papa Francisco chamou de "vergonha da Igreja".

Conheça a home do Último Segundo

AP
Ex-promotor-chefe de Abuso Sexual Clerical Charles Scicluna espera por início de questionamento em órgão da ONU em Genebra, Suíca

Arcebispo: Vaticano reconhece que 'não há desculpas' para o abuso de crianças

As autoridades, cobradas pela primeira vez desde que a Santa Sé assinou um tratado sobre direitos da criança da ONU em 1990, afirmaram que a Igreja reconhecia o problema e havia estabelecido regras claras para a proteger as crianças de abuso.

No entanto, integrantes do Comitê das Nações Unidas sobre Direitos da Criança presentes na sessão em Genebra exigiram bem mais transparência da Igreja sobre o escândalo.

"A visão do comitê é que a melhor maneira de prevenir abusos é revelar os antigos, é abertura em vez de varrer as ofensas para debaixo do tapete", disse Kirsten Sandberg, presidente do comitê da Organização das Nações Unidas, à delegação do Vaticano. "Parece que até agora os seus procedimentos não foram muito transparentes."

Auxílio às vítimas: Papa estabelecerá comissão para combater abuso infantil

Barbara Blaine, presidente de uma rede de pessoas que foram abusadas por padres, uma organização que conta com 15 mil integrantes nos EUA e 4 mil em outros países, disse que a resposta do Vaticano não foi suficiente para as vítimas.

"O que queremos ver é o Vaticano punindo bispos que acobertaram crimes sexuais e queremos que eles deem as informações que têm sobre esses crimes para a polícia", declarou.

O arcebispo Silvano Tomasi, líder da delegação do Vaticano, afirmou na sua fala de abertura que a Igreja havia estabelecido procedimentos claros para "ajudar a eliminar o abuso e colaborar com as autoridades na luta contra esse crime".

Julho: Vaticano reforma leis e amplia crimes de pedofilia

A especialista Sara de Jesus Oviedo Fierro contestou a declaração, dizendo que o Vaticano "não havia estabelecido nenhum mecanismo para investigar e processar os que cometeram abuso sexual".

Na manhã desta quinta, no Vaticano, o papa disse aos fiéis numa missa que os escândalos de abuso haviam "custado muito dinheiro", mas que pagar as compensações "era certo". Ele disse que bispos, padres e leigos eram responsáveis por essa "vergonha da Igreja".

As vítimas acusam bispos de acobertar crimes e mudar padres para outras paróquias para evitar processos. Tribunais ordenaram o pagamento de centenas de milhões de dólares pelas dioceses em compensações, quebrando algumas delas nos EUA.

Papa: Francisco pede 'determinação' contra casos de abusos sexuais na Igreja

Em dezembro, o papa Franciso criou uma comissão de especialistas para analisar o abuso sexual de menores na Igreja, na sua primeira importante medida para lidar com a crise.

O arcebispo Charles Scicluna, antes a principal autoridade do Vaticano para os casos de abuso, rejeita as acusações de acobertamento. "Não é a política da Santa Sé estimular acobertamentos. Somente a verdade vai nos levar a uma situação onde poderemos começar a ser exemplo de uma prática melhor", disse.

Miguel Hurtado, um espanhol que sofreu abusos de um padre, manifestou a sua decepção com as declarações do Vaticano.

"A transparência é uma ferramenta muito poderosa quando você está fazendo a coisa certa. Quando você tem algo a esconder, você se esconde atrás de palavras e não é direto com fatos e detalhes, porque fatos e detalhes não estão do seu lado", afirmou ele à TV Reuters.

Leia tudo sobre: igreja católicavaticanoabuso sexualpedofilia

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas