War-Toys usa brinquedos para reproduzir experiências vividas por crianças de 8 a 12 anos em zonas do conflito

Os rabiscos feitos por uma criança na folha de papel podem revelar as experiências mais ocultas. Quando seu cotidiano é marcado por temor a mísseis, bombas e ataques aéreos, os traços ganham espessura e cores fortes, como o vermelho, escolhido para representar o sangue.

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Para o fotógrafo americano Brian McCarty, de 39 anos, inocentes esboços simbolizam as profundas marcas na mais nova geração, hoje rodeada por instabilidade e violência. Surgiu assim o projeto War-Toys como um “alerta global”, reproduzindo cenas de conflito em Israel e nos territórios palestinos da Cisjordânia e do Oriente Médio, mas com brinquedos como protagonistas.

Entre 2011 e 2013, McCarty visitou as regiões de conflito com o apoio de organizações humanitárias, como a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA, em inglês), Israel Trauma Coalition (ITC) e centro de Spafford (Jerusalém), todas especializadas em amparar e oferecer apoio psicológico aos refugiados. Com o apoio de terapeutas, as crianças são motivadas a compartilhar suas visões pela arte-terapia. Já com os desenhos em mãos, McCarty reproduz as tristes lembranças com os brinquedos.

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“No meu primeiro contato [em Spafford], achei que estava pronto. Dominava a metodologia, mas tudo foi pela janela quando uma menina de 9 anos começou a desenhar uma mancha de sangue. Tudo ficou tão real”, explica ao iG o fotógrafo nascido em Memphis, no Tennessee.

McCarty entre destroços em zona de conflito
Brian McCarty / War-Toys Project
McCarty entre destroços em zona de conflito

A relação de McCarty com os brinquedos não é nova. Ele já realizou grandes projetos comerciais com Disney, Cartoon Network e MTV. “[Os brinquedos] são símbolos universais que representam a infância. Meu objetivo é mostrar ao mundo a cruel realidade e a marca profunda nessas crianças.” Foram analisados desenhos de refugiados entre 8 e 12 anos. Em Gaza, por exemplo, o índice de crianças com quadro de estresse pós-traumatico chega a 80%, cita o americano. 

Cenas de bombardeios aéreos, tiroteios, procedimentos de rotina em postos de controle integram o livro War-Toys volume 1, vendido no site do profissional . A meta agora, segundo o fotógrafo, é expandir o projeto ao Afeganistão, Paquistão, Colômbia e Sudão do Sul, palco de uma sangrenta guerra civil.

McCarty também não esconde a possibilidade de visitar o Brasil. “Seria muito interessante analisar outros níveis de violência, como nas favelas do Rio e o impacto do crime organizado. Fora todo o contexto de apartheid social.” O trabalho do americano já foi exposto em galerias da Alemanha, Londres e Nova York.

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