Declaração é feita em meio a protestos de ativistas que criticam pacto como aumento da dependência de Moscou

O governo da Ucrânia caracterizou nesta quarta-feira um resgate financiado da Rússia como uma estabilidade financeira, enquanto ativistas da oposição e críticos alegaram que o acordo aprofundará os problemas econômicos do país e aumentará sua dependência de Moscou.

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Manifestantes com bandeiras da Ucrânia caminham em trecho entre barricadas durante protesto pró-UE na Praça da Independência, em Kiev
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Manifestantes com bandeiras da Ucrânia caminham em trecho entre barricadas durante protesto pró-UE na Praça da Independência, em Kiev

Entenda: O que está por trás das manifestações na Ucrânia?

O presidente russo, Vladimir Putin, prometeu na terça-feira comprar US$ 15 bilhões de títulos ucranianos e cortar drasticamente o preço do gás natural em um esforço de aliviar a pressão política sobre o contestado presidente Viktor Yanukovych.

A econômica ucraniana arrisca um calote no próximo ano, e durante os últimos meses Yanukovych ativamente fez lobby perante a Rússia e a União Europeia (UE) para um salva-vidas financeiro, aparentemente jogando um contra o outro para ver quem ofereceria um melhor pacote de resgate.

Sua decisão no mês passado de aproximar-se da Rússia desatou uma onda de manifestações que se cristalizaram em um grande acampamento de protesto de 24 horas na Praça da Independência, em Kiev, a capital do país.

O primeiro-ministro Mykola Azarov disse a um encontro do gabinete que o acordo com a Rússia garante "a confiança do povo em uma vida estável", enquanto um pacto de comércio estratégico com a Europa teria dado à Ucrânia um "presente de ano novo" da "falência e do colapso social".

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O acordo com Moscou, que inclui um maior acesso ao mercado russo para os exportadores da Ucrânia e mais encomendas para a indústria manufatureira ucraniana, não fez nada para apaziguar os manifestantes, que reivindicam a renúncia de Yanukovych e Azarov e eleições antecipadas em 2014.

"O desconto do gás não trará absolutamente nenhum benefício para os ucranianos. Yanukovych simplesmente concordou com um desconto para os oligarcas que o cercam", disse em uma declaração Oleh Tyahnybok, líder do partido nacionalista de oposição Svoboda.

Em troca de um desconto aproximado de 33% no preço do gás, a Rússia conseguiu a promessa da Ucrânia de comprar até 20% mais gás no próximo ano e importar mais carvão russo.

Isso, juntamente com uma promessa de comprar US$ 15 bilhões em títulos ucranianos, apenas servirá para impulsionar a dependência da Ucrânia de seu maior vizinho, afirmam críticos.

Igor Burakovsky, diretor do Instituto para Pesquisa Econômica e Consultoria Política, um think tank com base em Kiev, disse que a participação russa na dívida soberana da Ucrânia poderia subir 50%, um nível em que Moscou terá um significativo poder de influência político e econômico.

"O dinheiro permite à Ucrânia fechar buracos no orçamento, mas isso também é um problema porque haverá uma tentação para gastar todo o dinheiro antes da eleição (presidencial) de 2015", disse Burakovsky.

O acordo é estruturado com o objetivo de que tanto o preço do gás quanto as compras de título sejam submetidas a revisões trimestais, permitindo ao Kremlin manter a pressão sobre Yanukovych, que deve concorrer à reeleição.

Putin disse na terça que os dois lados não discutiram a adesão ucraniana à União Alfandegária liderada por Moscou, uma aliança comercial que inclui Belarus e Casaquistão e que muitos ucranianos veem como uma tentativa de ressuscitar a União Soviética.

"Penso que cedo ou tarde a Ucrânia será requisitada a adotar o firme compromisso político de se unir à União Alfandegária", disse Burokovsky.

Segundo ele, apesar de ser legalmente possível para a Ucrânia ter acordos comerciais simultâneos com a União Europeia e a Rússia, Moscou não permitiria isso porque a ambição de Putin de criar um bloco comercial da Eurásia que sirva como um contrapeso para os EUA, UE e China não teria a menor chance de sucesso sem a Ucrânia.

*Com AP

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