Americano desaparecido no Irã trabalhava em missão não autorizada da CIA

Por AP |

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Levinson conduzia missão a mando de analistas que não têm autorização para gerenciar ações de espionagem

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Um americano que desapareceu há quase sete anos no Irã trabalhava para a CIA (Agência de Inteligência dos EUA) em uma missão não autorizada de compilação de informações que, quando o governo tomou conhecimento, produziu um dos escândalos mais sérios na história recente da agência - mas tudo em segredo, descobriu uma investigação da Associated Press.

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Foto sem data recebida pela família em abril de 2011 mostra o agente aposentado do FBI Robert Levinson, que desapareceu enquanto fazia trabalho para a CIA

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A CIA pagou à família de Robert Levinson, agente aposentado do FBI (polícia federal americana), US$ 2,5 milhões para abrir mão de um processo judicial revelador. Três analistas veteranos foram forçados a deixar a agência e sete outros foram disciplinados. Publicamente, os EUA descreveram Levinson como um cidadão civil. "Robert Levinson desapareceu durante uma viagem de negócios a Kish Island, Irã", disse a Casa Branca no mês passado.

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Essa era apenas uma história para encobrir os fatos. Em uma extraordinária quebra das regras mais básicas da CIA, uma equipe de analistas - com nenhuma autoridade para gerenciar operações de espionagem - pagou para Levinson compilar inteligência sobre um dos lugares mais obscuros do mundo. Ele desapareceu enquanto investigava o governo iraniano para o governo americano.

Detalhes do desaparecimento foram descritos em documentos obtidos ou revisados pela AP, enquanto outros foram obtidos por meio de entrevistas feitas durante vários anos com dezenas de atuais e ex-funcionários dos EUA e do exterior próximos à busca por Levinson. Quase todos falaram sob condição de anonimato por não ter autorização para discutir o caso.

Não há confirmação de quem capturou Levinson ou de quem o mantém preso atualmente. Embora as autoridades dos EUA tenham investigado um possível envolvimento de traficantes de drogas ou terroristas, a maioria dos funcionários acredita que o Irã o mantém preso ou sabe quem está com ele.

A AP primeiramente confirmou os vínculos de Levinson com a CIA em 2010 e então continuou investigando o assunto para obter mais detalhes. A agência concordou três vezes em adiar a publicação da história porque o governo americano disse que estava atrás de pistas promissoras para levá-lo de volta aos EUA.

A AP está divulgando a história agora porque, quase sete anos desde seu desaparecimento, esses esforços se mostraram repetidamente vazios. O governo não recebe há três anos nenhum sinal de vida dele. Além disso, importantes autoridades americanas disseram que seus captores quase certamente já sabem de sua associação com a CIA.

Imediatamente após o desaparecimento de Levinson em março de 2007, a CIA reconheceu ao Congresso que Levinson havia previamente feito trabalho como funcionário terceirizado para a agência. Na época, porém, a CIA garantiu aos congressistas de que não mantinha mais nenhum vínculo com Levinson e de que não havia nenhuma conexão com o Irã.

Mas em outubro de 2007 o advogado de Levinson descobriu emails entre Levinson e sua amiga Anne Jablonski, que trabalhava na CIA. Antes de sua viagem, Levinson disse a Jablonski que ele estava fazendo contato com uma fonte para acessar o regime iraniano e poderia marcar um encontro em Dubai ou uma ilha próxima.

O problema era que o contrato de Levinson havia expirado e, embora a CIA trabalhasse para autorizar mais dinheiro, ainda tinha de fazê-lo.

"Gostaria de saber se eu gasto meu próprio dinheiro para fazer esse encontro, considerando-se que haverá reembolso em algum momento futuro, ou se abro mão desse contato, assim como de quaisquer outros projetos similares, até a renovação (do contrato) em maio", escreveu Levinson.

Não há provas de que Jablonski tenha respondido esse email. Ela disse não ter nenhuma ideia de que ele ia para o Irã.

O voo de Levinson pousou na ilha iraniana de Kish no fim da manhã de 8 de março. A fonte de Levinson em Kish, Dawud Salahuddin, disse que se encontrou com Levinson durante algumas horas em seu quarto de hotel. A ilha é uma área de livre comércio, fazendo com que não seja necessário a um americano tirar um visto para visitar o local.

Salahuddin era um fugitivo americano procurado pelo assassinato de um ex-diplomata iraniano no Estado de Maryland em 1980. Desde que fugiu para o Irã, Salahuddin se tornou próximo a alguns no governo iraniano, particularmente àqueles vistos como reformistas ou moderados.

Segundo o registro do hotel, que foi visto pela mulher de Levinson, ele saiu do local em 9 de março de 2007. O que aconteceu com ele depois continua um mistério.

Assim que a Comissão de Inteligência do Senado viu os emails entre Jablonski e Levinson, os congressistas reivindicaram mais informações. Isso desatou uma investigação interna da CIA, que descobriu que seu relacionamento com Levinson havia sido incomum desde o início.

Em vez de mandar por email seu trabalho à CIA, ele enviava pelo correio pacotes para a casa de Jablonski na Virgínia. Sua correspondência era em sua maioria feita por meio da conta de email pessoal de Jablonski. Ela afirmou que os analistas simplesmente queriam evitar o longo processo de triagem de mensagens da CIA. "Não pensei duas vezes sobre isso", disse em uma entrevista.

O ilegal Finance Group também não seguia a rotina típica para viagens internacionais. Antes de alguém viajar para o exterior pela agência, a principal autoridade da CIA no país normalmente a autoriza. Dessa forma, se um funcionário é preso ou cria um incidente diplomático, a agência não é pega de surpresa.

Isso não aconteceu antes das viagens de Levinson. Ele foi ao Panamá, Turquia a Canadá e foi pago depois de retornar, disseram pessoas familiarizadas com suas viagens. Depois de cada viagem, ele apresentava suas contas, e a CIA o pagava pela informação e o reembolsava pelos gastos.

Todos o arranjo foi tão peculiar que os investigadores da CIA que realizaram o inquérito interno mais tarde concluiriam que isso representava um esforço para manter funcionários graduados da CIA sem conhecimento de que os analistas realizavam uma operação de espionagem. Jablonski nega isso veementemente.

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