Assassinado há 50 anos, Kennedy deixa a Obama legado de inspiração e fardo

Por Luciana Alvarez - especial para o iG |

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Atual presidente usou similaridades com JFK em seu favor em 2008, mas popularidade de ex-líder adiciona pressão

Mesmo antes de eleito, o presidente Barack Obama tem sido constantemente comparado ao ex-presidente John F. Kennedy, cujo assassinato completa 50 anos nesta sexta-feira (22). As semelhanças dos democratas começam já nas questões superficiais. Kennedy e Obama são considerados homens charmosos, bons de oratória, e foram eleitos presidentes ainda jovens - Kennedy tinha 43 anos e Obama, 47.

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John Kennedy gesticula durante cerimônia na Avenida Wharf, em Nova Orleans (4/5/1962)

Há também algumas coincidências em suas carreiras: ambos estudaram em Harvard, lançaram livros antes de serem eleitos e chegaram à presidência quando eram senadores, concorrendo contra republicanos mais experientes. E os dois assumiram após oito anos de governo do Partido Republicano.

Até na vida pessoal existem similaridades – Obama é um ávido jogador de golfe, assim como foi JFK.

As comparações, portanto, são inevitáveis. E, mais do que inevitáveis, elas foram estimuladas por Obama desde o lançamento de sua primeira campanha presidencial, em 2008.

“Desde Kennedy, todo o presidente esteve à sua sombra e tentou recuperar um pouco de sua mágica. Obama não é diferente. Isso ficou especialmente evidente quando usou o apoio de Ted e Caroline Kennedy na campanha de 2008”, afirmou ao iG David Greenberg, professor de história e estudos de mídia da Universidade Rutgers e autor de três livros de história política dos EUA.

Na época, Caroline Kennedy, filha de JFK, endossou Obama como o “hedeiro legítimo” do legado de seu pai. Não é de se estranhar que Obama tenha buscado esse tipo de apoio e comparação. Pesquisas apontam que até hoje Kennedy se mantém como o presidente mais admirado pelos americanos.

A imagem de Kennedy foi evocada por Obama também recentemente. Em junho desde ano, convidado para a comemoração o 50º aniversário do discurso de Kennedy em Berlim, o atual presidente usou a frase exata que marcou a fala do antigo: “Ich bin ein Berliner (Eu sou berlinense)”.

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O presidente dos EUA, Barack Obama, tira o paletó por causa do calor na área do Portão de Brandenburgo, onde discursou em Berlim, Alemanha

O discurso de Kennedy em 1963, durante a Guerra Fria, se tornou célebre ao expressar solidariedade aos moradores de Berlim, cidade que havia recentemente sido dividida. Cinquenta anos mais tarde, Obama disse que o conceito de “paz e justiça” então defendido por Kennedy pode ser aplicado ao mundo contemporâneo, citando a pobreza e o desemprego, que se seguiram à crise global.

Desde JFK, já haviam discursado no mesmo local, o Portão de Brandenburgo, os presidentes americanos Ronald Reagan (que em 1987 pediu ao líder soviético Mikhail Gorbachev a “destruição deste muro”) e Bill Clinton (que em 1994 “celebrou a unidade”).

Contudo, as constantes comparações com o presidente assassinado muitas vezes se tornam um fardo para Obama. “Infelizmente, ele não tanto charme quanto Kennedy e não conseguiu estabelecer um leque de prioridades claras como Kennedy fez. O legado de JFK é tanto inspiração quanto fardo”, afirmou Greenberg.

Obama, por exemplo, até hoje não conseguiu fechar a prisão de Guantánamo, em Cuba, algo com que se comprometeu nos primeiros dias de mandato. Mas a verdade é que mesmo para o admirado Kennedy nem tudo era fácil. A ampla reforma dos direitos civis que ele enviou ao Congresso só foi promulgada por seu sucessor.

Presidente estrela

Assim como JFK, Obama se preocupa com sua imagem pública. Kennedy nunca se deixou ser fotografado dentro do avião presidencial pois, vindo de família rica, não queria parecer um playboy em seu jatinho de luxo. Obama, por sua vez, não se deixa fotografar fumando. Esse tipo de preocupação rendeu bons frutos para ambos.

“Kennedy e Obama exalam um toque de glamour ao desempenhar seus papéis de chefe de Estado e se tornaram queridinhos de Hollywood. Como presidente, cada um trouxe para a Casa Branca uma primeira-dama realizada e antenada com a moda, dois filhos adoráveis ​​e até seus animais de estimação já roubaram a cena”, ressaltou a biógrafa Kitty Kelley, em artigo para o Huffington Post.

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O presidente reeleito dos EUA, Barack Obama, celebra vitória com a família em Chicago (7/11/2012)

Habilidosos como políticos, eles sabem que cada detalhe conta pontos entre o eleitorado – e logo reconheceram que a família é um desses “detalhes”. “Quando os presidentes são relativamente novos – Roosevelt, JKF, Clinton e Obama – isso costuma significar esposas jovens e filhos pequenos. Mulheres bonitas e crianças adoráveis são um atrativo natural para a imprensa”, avaliou Greenberg, que lembra que Jackie Kennedy tinha apenas 32 anos quando se tornou primeira-dama.

Clinton, porém, assim como George W. Bush, sempre se esforçaram para manter seus filhos longe do foco da imprensa. “Já Obama tem se mostrado muito mais disposto a falar sobre as filhas em discursos e entrevistas”, disse o professor da Universidade Rutgers.

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