Assassinato de Kennedy provocou aumento na segurança do presidente dos EUA

Por Luciana Alvarez - especial para o iG |

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País multiplicou número de agentes do serviço secreto e blindagem super-reforçada faz porta da limousine do presidente Barack Obama ser tão pesada quanto a de um Boeing

Desde o assassinato do presidente americano Jonh F. Kennedy em 1963, o serviço secreto, órgão responsável pela segurança presidencial, cresceu de tamanho, incorporou novas tecnologias e mudou seu modo de atuação. Mas talvez pelo fato de Kennedy ter sido alvejado enquanto desfilava dentro de sua limousine, nada ilustra melhor as mudanças no esquema de segurança nos últimos 50 anos do que a evolução pela qual passou o carro que carrega o chefe dos Estados Unidos.

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Para começar, os automóveis conversíveis foram abolidos – o Lincoln Continental SS-100-X de 1961, no qual desfilava JFK quando foi atingido por um disparo, há 50 anos, até voltou à frota presidencial, mas com um teto blindado permanente. E dizer que a blindagem hoje está reforçada é pouco, muito pouco. Especialistas em segurança estimam que a limousine de Barack Obama, apelidada de the beast (a besta), tenha uma blindagem de 20 cm, fazendo com que as portas pesem tanto quanto as de um avião Boeing 757. Os vidros à prova de bala de qualquer calibre têm cerca de 12 cm de espessura. E nem adianta mirar nos pneus: grandes como os de um ônibus, eles são reforçados com um material chamado kevlar run-flat, que os tornam capazes de manter o carro rodando por grandes distâncias mesmo que tenham sido furados.

O presidente americano também estará seguro em caso, por exemplo, de ataque químico, já que o interior da ‘besta’ é isolado do mundo exterior. Para evitar uma tragédia em caso de impacto ou colisão, uma espuma especial rodeia o tanque de combustível, o que torna praticamente impossível que ele exploda.

O assassinato de Kennedy também trouxe outras consequências para o veículo presidencial, que supostamente carrega de tudo um pouco, de equipamentos contra incêndio e tanques de oxigênio, até bolsas de sangue com o tipo do presidente para uma transfusão e emergência. Isso sem contar o poder de fogo: são metralhadores, lançadores de granadas e gás lacrimogênio. O serviço secreto não confirma nem nega as informações vazadas por ex-agentes, alegando que são dados sigilosos. Se toda essa bagagem teria salvo a vida de JFK, tampouco ninguém pode confirmar.

Segundo o consultor em estratégias de segurança Christopher Burgess, que trabalhou na CIA por 30 anos, as novas tecnologias incluídas não só na limousine presidencial, mas em todo o esquema de trabalho do serviço secreto, fazem com que seja cada vez mais seguro ocupar o cargo de presidente dos Estados Unidos. “A tecnologia e a capacidade de processar dados sobre possíveis ameaças cresceram exponencialmente. E as ameaças basicamente continuam as mesmas – um indivíduo que deseja ferir”, afirmou ao iG. O presidente americano recebe em média 3 mil ameaças de morte ao ano.

O que também cresceu quase que exponencialmente no último meio século foram a verba e o tamanho do contingente da agência que protege o homem mais poderoso do mundo. Em 1963, o serviço secreto teve orçamento de US$ 4,1 milhões e contava com 200 agentes em todo o país – apenas 34 deles se revezavam na proteção a Kennedy. Para este ano, a verba da agência é de US$ 1,92 bilhão e há 4,5 mil agentes em campo, fora os 2,2 mil técnicos que trabalham nos escritórios.

Mas a multiplicação do número de agentes não significa que ficou fácil se tornar um. Mais do que estar disposto a levar um tiro pelo presidente, os interessados passam por uma rigorosa seleção, que avalia desde o condicionamento físico até o conhecimento de línguas estrangeiras. Isso sem contar a investigação sobre o passado dos candidatos, que devem ter a ficha limpíssima. Em 2011, menos de 1% dos inscritos foram aprovados para o cargo – um funil mais apertado até do que o da Universidade de Harvard, que aprova em média 6% dos candidatos.

Proteção em meio a multidões

Hoje, cada evento público que o presidente participa exige muita antecipação e planejamento – e é como se Obama viajasse numa bolha. As ruas e acessos no trajeto do presidente são interditados. Sobre os telhados de prédios na rota presidencial, é comum ver agentes com binóculos e armas de longo alcance; são os homens da equipe “anti-franco-atiradores”. Há times monitorando à distância as pessoas no local onde se encontra o presidente, graças a imagens feitas por câmeras de alta definição escondidas.

Se o evento é para um grande público, os preparativos para a chegada presidencial ficam grandiosos. Quando em novembro de 2012 Obama foi fazer campanha à reeleição na Universidade de Cincinnati, agentes à paisana vasculharam cada canto do campus uma semana antes de o reitor receber o telefonema sobre a possível visita do presidente. No dia, o forte esquema de segurança precisou ganhar escala: as 15 mil pessoas que participaram do evento precisaram chegar cedo, pois todas passaram por detectores de metal e tiveram bolsas e mochilas revistadas. Havia ainda um esquadrão antibombas de plantão, vários cães treinados para farejar explosivos e um número desconhecido de agentes à paisana em pontos estratégicos.

Foi a primeira vez que um presidente participou de algum evento em um campus universitário desde 1936. Apesar dessa aparente “ousadia”, não houve qualquer passeio – ou desfiles em carro aberto – em meio a pessoas que não foram revistadas.

Em qualquer evento de grande porte, o serviço secreto coordena as operações, mas conta com o apoio da polícia local e até do Exército dependendo do caso. No dia da posse de Obama, por exemplo, houve 42 agências envolvidas na segurança, o que levou alguns analistas a dizerem que naquele momento, Washington era o lugar mais seguro do planeta.

Mas nem todos concordam que a segurança presidencial evoluiu tanto assim. Para Ronald Kessler, autor de In the President’s Secret Service (Dentro do serviço secreto do presidente, em tradução livre), apesar das melhorias no aparato de segurança, um assassinato como o de Kennedy ainda poderia acontecer nos dias de hoje, devido a uma “gestão negligente” do serviço secreto –alguns agentes teriam dito a Kessler que é um “milagre” que nada de grave tenha acontecido até agora.

Segundo suas investigações, alguns agentes reprovados em requalificações de testes físicos e de tiro continuam na ativa – haveria alguns, por exemplo, que não teriam força para abrir a pesada porta da limousine presidencial. Outra questão grave é o fato de os chefes da segurança cederem à pressão dos gerentes de campanha ou do pessoal da Casa Branca e permitirem que pessoas entrem nos eventos sem passar pelos detectores de metal e magnetômetro quando as filas ainda estão grandes e o evento está prestes a começar. “Eles ignoram regras básicas de segurança”, falou ao iG.

Kessler lembra que é justamente esse tipo de erro – o de negligência – que levou à morte de Kennedy. Se os agentes secretos tivessem negado o pedido do então presidente e se mantido ao redor da limousine presidencial, algum deles poderia ter pulado sobre Kennedy e atuado como um escudo humano depois do primeiro tiro. Esse ato teria salvo a vida do presidente, acredita. Nem milhares de agentes ou toda tecnologia do mundo adiantam se não forem bem utilizados.

O iG apresenta essa semana um especial com repórtagens e infográficos sobre os 50 anos do assassinato de John F. Kennedy. Na sexta-feira (22), saiba o legado que o presidente deixou para Barack Obama

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