Após demissão, Stanton passou a abordar pessoas, pedir um retrato e contar suas histórias em site que virou livro

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Essa é a forma como Brandon Stanton passa a maior parte do seu dia. Ele vai em direção a completos estranhos na cidade de Nova York, nos EUA, pede permissão para tirar uma fotografia de seus rostos e, então, faz perguntas tão pessoais que eles acabam se sentindo no palco do programa da Oprah Winfrey.

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Brandon Stanton fotografa Jonathan Cummings enquanto ele descarrega caixas de cerveja em Nova York, EUA
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Brandon Stanton fotografa Jonathan Cummings enquanto ele descarrega caixas de cerveja em Nova York, EUA

"Qual foi o momento mais triste da sua vida?", perguntou Stanton a Jonathan Cummings, um rapaz de 29 anos do Queens que estava carregando caixas de cerveja para dentro de um restaurante em East Village. Cummings, que deixou ser fotografado e parecia encantado por Stanton, não exitou antes de dar a resposta. (Envolvia uma prisão após uma briga em Las Vegas.)

Com habilidades fotográficas desprendidas - ele não se considera um especialista -, Stanton alcançou uma das mais improváveis histórias de sucesso em uma cidade cheia delas. Após publicar as fotos e citações de seus retratados em sua página do Facebook, Tumblr e site (HumansOfNewYork.com) , ele acumulou mais de 1 milhão de fãs em três anos.

Agora, centenas daquelas fotos e entrevistas viraram um livro, "Humans of New York" ("Pessoas de Nova York", em tradução livre), que se tornou um instantâneo fenômeno editorial. Após sua primeira semana de vendas no mês passado, o livro chegou ao topo dos mais vendidos de não-ficção na lista de best-sellers do The New York Times .

Durante um evento em uma livraria de Manhattan, Stanton atraiu uma multidão interessada em comprar seu livro.

Stanton - um híbrido de entrevistador, fotógrafo e cronista da vida nas ruas - disse que ainda estava aturdido com o sucesso de seu livro, que teve 145 mil cópias impressas.

"Parecia uma ideia idiota, apenas tirar fotos das pessoas nas ruas", disse. "Mas há um conforto, uma afirmação, uma validação em ser exposto a pessoas com problemas parecidos."

Stanton, 29 anos, nasceu em Geórgia e nunca frequentou um curso de jornalismo. Ele teve duas câmeras em toda sua vida e admite nunca ter aprendido a forma técnica correta de usá-las. Quando se mudou para Nova York em 2010, não tinha amigos, estava quase sem dinheiro e havia perdido pouco tempo antes seu emprego no mercado financeiro em Chicago.

Três anos depois, ele se tornou um rosto conhecido - é abordado por fãs várias vezes ao dia - e possui uma renda incomum para um jovem e inexperiente fotógrafo.

Stanton foi criado em um subúrbio de Atlanta e estudou na Universidade da Geórgia. Depois de se formar como cineasta, ele arranjou um emprego como trader em Chicago, e, nos finais de semana, passava horas fotografando a cidade.

Mas depois que ele foi demitido em 2010, Stanton decidiu embarcar em uma carreira completamente diferente. Ele se mudou para Nova York, onde não conhecia ninguém e passava grande parte de seu tempo trabalhando em um projeto ambicioso: fotografar 10 mil pessoas e mapear seus paradeiros em uma espécie de mapa virtual de Nova York.

Após vários meses, ele mudou o direcionamento de seu projeto e começou a entrevistar esses personagens perguntando para eles sobre suas vidas, suas lutas, suas esperanças e frustrações.

A maioria das pessoas era grosseira quando Stanton pedia permissão para tirar um retrato. "Foi um desgaste emocional muito grande no começo", disse. "Eu ficava muito desapontado quando as pessoas diziam: 'Não'."

Mas, aos poucos, seu projeto ficou conhecido, e a maioria das pessoas de 20 e poucos anos deixavam comentários entusiasmados em seu site. Quando sua página no Facebook possuía mais de 200 mil seguidores, Stanton decidiu que era o momento de pensar em um livro com aquelas fotografias. A St. Martin's Press, parte da Macmillan, foi a única editora disposta a imprimir o livro em capa dura.

Yaniv Soha, a editora, disse que Stanton tem um raro dom de conseguir se conectar com as pessoas. "É tanto sobre histórias quanto sobre as fotos", disse Yaniv. "É realmente sobre sua capacidade de relacionar pessoas e destacar o que faz delas um ser único."

A Amazon avaliou sua coleção, que traz 400 rostos, como o "melhor livro do mês" de outubro. Em uma crítica, a Publishers Weekly disse: "Não há julgamento, apenas observação e, em muitos casos, reverência, o que leva a uma leitura inspiradora e uma experiência visual."

Veja algumas imagens do site Humans of New York:

Em uma manhã, Stanton se preparou para buscar mais material. Embora tenha tirado fotos em vários bairros, ele prefere se concentrar em Manhattan por causa de sua densa e variada vida urbana. Ele faz tudo o que pode para ambientar seus potenciais personagens, usando um boné de beisebol para trás, um moleton cinza e um par de tênis para parecer casual. Quando se aproxima de um estranho, arqueia as costas ou se agacha.

"Faço de tudo para parecer o menos ameaçador possível", disse. "Eu abaixo minha voz, eu me agacho no chão."

A primeira pessoa de quem Stanton se aproximou foi Ruben Lora, um funcionário da manutenção de 43 anos, que estava sentado do lado de fora do bar com quatro embalagens grandes de detergente no pé de sua mesa. Ele concordou rapidamente em ser fotografado, falando para Stanton sobre seu passado como um grande jogador de beisebol na República Dominicana, até que um acidente de moto colocou fim à sua carreira. Puxando uma das pernas de sua calça jeans suja de tinta, ele mostrou a Stanton uma cicatriz em sua panturrilha.

O acidente, segundo Lora, "arruinou minha vida". Ele fez uma pausa. "Não sei por que estou te contando isso."

Logo depois, Ignácio Quiles, um alfaiate de 60 anos, parou enquanto caminhava com seus cachorros para conversar com Stanton. Dentro de poucos minutos, ele estava relembrando a morte de um amigo próximo e as reviravoltas de sua vida profissional.

É essa intimidade, combinada com fotos simples e diretas, que faz com que os fãs de Stanton sejam tão fervorosos. Enquanto Stanton se preparava para encerrar suas andanças diárias, Jessica Ruvin, uma estudante do Fashion Institute of Technology, se aproximou dele na rua e pediu para que tirasse uma fotografia com ela.

"Eu sou uma grande fã", disse. "Ele mostra a melhor parte de Nova York - as pessoas nas ruas."

Por Julie Bosman

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