Senador boliviano no Brasil participa de estreia de filme crítico a Evo em SP

Por Bruna Carvalho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Roger Pinto Molina afirma ser um perseguido político, denuncia uma 'judicialização da política" na Bolívia e diz que "teria sido mais fácil ficar um ano na prisão"

O senador de oposição da Bolívia Roger Pinto Molina, que está temporariamente asilado no Brasil, deixou Brasília neste sábado (19) para participar da estreia, em São Paulo, do documentário "Um Minuto de Silêncio", que faz duras críticas ao governo Evo Morales. Após ter ficado mais de 450 dias na Embaixada do Brasil em La Paz, Pinto Molina foi pivô de uma crise que provocou a demissão do então chanceler Antonio Patriota ao fugir para o Brasil com a ajuda do diplomata Eduardo Sabóia sem que as autoridades bolivianas tivessem concedido um salvo-conduto.

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Agência Brasil
Senador boliviano Roger Pinto Molina acena de casa onde está abrigado em Brasília (26/8)

"Me considero um perseguido político. O governo boliviano considera que eu sou um delinquente. Um terceiro imparcial, como o Brasil, avaliou isso e chegou à conclusão de que eu merecia um asilo diplomático", disse Pinto Molina ao iG após o término da sessão, parte do Panorama Internacional da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Pinto Molina, que aguarda uma decisão do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) para obter asilo permanente no Brasil, alega que sofreu perseguição política após denunciar ligações de líderes do governo com o narcotráfico. O governo boliviano afirma que Pinto Molina é alvo de cinco processos e foi condenado a um ano de prisão por corrupção, sendo, portanto, um fugitivo da Justiça. A Bolívia acrescenta que algumas das acusações que pesam contra o senador foram anteriores à chegada de Evo Morales ao poder.

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Para o senador, os processos aos quais responde são parte de uma "judicialização política", que, segundo ele, tem como objetivo perseguir opositores do governo Evo Morales ao não lhes garantir acesso a um julgamento imparcial. "O Brasil me daria asilo diplomático se eu fosse um assassino? E se eu tivesse roubado, como diz o governo? Depois de um ano e meio que eu estava na embaixada, saiu uma sentença de um ano. Um ano, na Bolívia, não tem cárcere. Para mim, teria sido muito mais fácil ficar na prisão por um ano", disse.

Desde que chegou ao Brasil, em agosto, a avaliação do Planalto é de que Pinto Molina tem colocado "as asinhas para fora" ao, por exemplo, chamar a imprensa para a casa onde estava hospedado em Brasília para acenar aos jornalistas e por ter chegado a convocar entrevistas coletivas. Sua ação mais recente foi ir ao Congresso Nacional na semana passada para pedir apoio à bancada evangélica. "Muitos senadores me dão apoio, como o Ricardo Ferraço (PMDB), que foi muito ativo em todo processo, o senador Alvaro Dias (PSDB) e Jorge Vianna (PT). Toda bancada cristã, e eu sou evangélico, se somou a esse apoio para estabelecer e regularizar minhas condições legais aqui no Brasil", afirmou.

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Com os familiares vivendo no Acre depois de, segundo ele, terem sofrido ameaças de morte, o senador afirma que se mantém no Brasil com a ajuda de uma rede de amigos "que se uniram para me dar apoio" e que está na casa em Brasília de um amigo que o conhece desde criança.

O convite a Pinto Molina para participar da estreia de "Um Minuto de Silêncio" foi feito pelo diretor do filme, o italiano Ferdinando Vicentini Orgnani. O documentário aborda a situação da Bolívia desde o fim do governo Sánchez de Lozada, que renunciou ao cargo após uma grave instabilidade social por causa de sua política em relação aos recursos energéticos do país, até o episódio, em 2011, do protesto indígena contra a construção de uma estrada que atravessa a reserva natural Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis) no governo Evo Morales.

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O filme possui um tom crítico a Evo Morales, destacando problemas como o tráfico de cocaína e a violência no episódio do Tipnis. A dura repressão do governo Lozada contra os distúrbios, que deixou 27 mortos em 2003, é tratada do ponto de vista do próprio ex-presidente opositor a Evo e dos dirigentes do governo, com alguns depoimentos do atual vice-presidente do país, Álvaro García Linera.

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"Quando você faz esse tipo de filme você não pode ter um script. Eu fui influenciado pelas pessoas que eu conheci, e isso faz parte do documentário", afirmou Orgnani ao iG. "Tentei ser honesto, tentei dizer as coisas que achei que seriam certas. Mas são dez anos que você tenta traduzir em 89 minutos. Podem achar uma mentira. É uma interpretação."

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