Jornalistas desenvolvem táticas para escapar da morte no Afeganistão e no Iraque

Por Leda Balbino - em Nova York* |

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Ocultar identidade e vínculos com estrangeiros garantem sobrevivência em países invadidos pelos EUA após o 11/9

O afegão Hares Kakar, 26, às vezes tem de deixar a barba crescer e usar roupas tradicionais para passar pela inspeção da milícia islâmica do Taleban. Em viagens fora de Cabul, não carrega no bolso o celular com contatos estrangeiros, enquanto na capital não fala inglês no transporte público. Por sua vez, a iraquiana Mayada Daood, 35, usa um pseudônimo, proíbe a publicação de suas fotos, revela a poucos a sua profissão e já teve de mudar de casa duas vezes no período de dez anos. Para os dois, as medidas de segurança não são uma mera escolha no exercício do jornalismo. Elas são a diferença entre a vida e a morte em países invadidos pelos EUA após o 11 de Setembro.

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Leda Balbino
O repórter afegão Hares Kakar, 26 anos, evita falar inglês em locais públicos para não levantar suspeitas a militantes do Taleban

Fluente nas línguas afegãs dari e pashtun e com conhecimentos do usbeque e do urdu, falado na Índia, Kakar tornou-se intérprete de jornalistas estrangeiros há seis anos, mesmo período em que começou a trabalhar como repórter. A função o ajudou a complementar a renda que recebia como freelancer de um jornal britânico, mas também lhe impôs o risco de ser visto como espião em um país historicamente palco de ocupações.

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Por isso, Kakar evita falar inglês fora de ambientes privados e, quando viaja para certas regiões do Afeganistão, abandona as roupas ocidentais e o creme de barbear e carrega apenas um celular simples, com poucos números afegãos.

“Os militantes do Taleban mantêm postos de controle nas estradas, em que nos revistam”, relata. “Se encontram escutas sob as roupas ou números estrangeiros nos celulares, sabem que você tem contatos com o exterior. Então, te sequestram ou matam”, diz, acrescentando que nessas viagens é importante ter cuidado até com oficiais fardados. Muitos deles são apenas combatentes disfarçados como soldados afegãos.

Outro desafio que Kakar enfrenta são as condições precárias de trabalho. Atuando sem contrato entre 2010 até setembro deste ano para a agência de notícias alemã DPA, o jornalista afegão afirma que tinha de ficar 24 horas à disposição. Quando recebia uma ligação para cobrir algum atentado do Taleban ou de outro grupo militante em Cabul, trabalhava sem nenhuma proteção, seja um capacete ou um colete à prova de balas.

AP
Menino afegão recolhe pedaços de veículo após explosão de carro-bomba na província de Kandahar, ao sul de Cabu (14/9)

“Esses ataques às vezes demoram horas para ser controlados pelas forças de segurança, e temos de ficar no local por todo o tempo em que duram: uma, duas, três, 24 horas. Às vezes conseguimos que alguém nos substitua se estivermos muito cansados”, conta. Segundo Kakar, os cinegrafistas e fotógrafos estrangeiros só cobrem grandes ataques, como ações contra a sede da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) ou contra missões diplomáticas dos países ocidentais. Mas, quando o fazem, vão com a máxima proteção possível.

No front iraquiano

A iraquiana Mayada também tem de ocultar sua identidade para cobrir temas como crianças e mulheres recrutadas para lançar ataques suicidas ou as atividades da Al-Qaeda no Iraque.

Mesmo amigos e vários parentes não sabem que ela é jornalista investigativa: pensam que trabalha em um banco por ser formada em Economia. Para conseguir apurar muitas das histórias que despertam seu interesse, apresenta-se como pesquisadora de uma ONG ou do Ministério do Trabalho. Até um de seus irmãos desconhece sua verdadeira profissão. “Ele tem muitos filhos e temo que as crianças falem”, afirma.

Durante os dez anos em que atua como jornalista, outra precaução que teve de tomar foi mudar de casa por duas vezes para despistar grupos armados cujas atividades no Iraque foram descritas em matérias de sua autoria.

Publicando majoritariamente suas reportagens no Al-Hayat, que tem edições em vários países árabes, a jornalista só revela ser autora de determinada matéria um ou dois anos depois da publicação - “quando as pessoas já esqueceram a história”. Ela também abre exceções quando é agraciada com algum prêmio, como nos três anos consecutivos (2010 a 2012) em que matérias suas venceram como melhor trabalho do mundo árabe. Mas, mesmo nesses casos, ela não deixa que publiquem sua foto.

Apesar dos conflitos sectários entre xiitas e sunitas e do aumento da militância islâmica após a invasão americana no Iraque, a jornalista vê a liberdade de imprensa como um fator positivo da ação militar em seu país. “Virei repórter depois de 2003, ano da invasão”, relata. “Antes havia basicamente quatro jornais e duas TVs, e todos eram comandados pelo próprio filho de Saddam Hussein. Não havia nenhuma liberdade para dizer nada”, afirma.

AP
Mohammed Moses chora no túmulo de seu pai, que foi morto por um ataque de carro-bomba no vilarejo xiita de Qabak, perto da cidade de Tal Afar, Iraque (7/10)

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A iraquiana trabalha com o auxílio da International Media Support (IMS), ONG com sede na Dinamarca que apoia a mídia em países com conflito armado. A organização paga o valor fixo de US$ 500 para cada matéria de Mayada, independentemente de quanto tempo o trabalho demore, e cobre gastos como o custo de eventuais viagens, taxista, guarda-costas, internet.

Na apuração de sete meses de uma reportagem sobre mulheres-bomba no Iraque, conta a iraquiana, a IMS investiu US$ 2,9 mil. Para complementar sua renda, a jornalista trabalha como freelancer de matérias econômicas para outros jornais iraquianos. “Não se consegue muito dinheiro com jornalismo investigativo. Realmente não faço pelo dinheiro”, afirma.

Vida no exterior

Entre 3 de setembro e 4 de outubro, Kakar e Mayada participaram do Programa Reham Al-Farra, bolsa que anualmente leva 11 jornalistas internacionais para aprender o funcionamento da ONU em Nova York e em Genebra (Suíça). Após voltar a seu país natal, Mayada previa tentar um mestrado na Jordânia para escapar do aumento da violência com o fortalecimento da Al-Qaeda iraquiana na esteira do conflito sírio.

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“Entre 2008 e 2010, a Al-Qaeda se enfraqueceu, mas agora está mais forte”, diz, relatando que há uma longa fronteira aberta entre a Síria e o Iraque pela qual combatentes entram e saem dos dois países. “Os militantes sunitas da Síria acusam o governo xiita iraquiano de apoiar o regime de (Bashar) al-Assad."

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Kakar, por sua vez, planejava assumir como repórter do New York Times ao voltar a Cabul, deixando de lado a cobertura diária para se concentrar em matérias especiais. Questionado se alguma vez havia pensado em sair definitivamente do Afeganistão para morar no exterior, o jornalista rejeita a ideia.

Mesmo com a perspectiva de que a violência piore com a retirada das forças internacionais em 2014, o afegão planeja fazer no máximo um mestrado fora, para depois voltar ao Afeganistão. Uma mudança definitiva, diz, implicaria deixar sua carreira, família e amigos para trás. Representaria inventar uma nova vida.

AP
Policiais afegãs riem de piada durante sessão de treinamento na Academia de Polícia de Cabul, Afeganistão (25/9)

2014: Otan anuncia cúpula sobre retirada de tropas do Afeganistão

Pensar nisso também lhe traz à mente que anseia ser um jornalista e um escritor em seu próprio país. E um dos motivos vem da própria dinâmica da violência no Afeganistão – e das histórias que resultam dela. Há um ataque, conta Kakar, mas logo depois as lojas reabrem, a vida volta ao normal. Há um atentado em um extremo de Cabul, mas no outro um casamento é celebrado, há festas, pessoas em restaurantes. “Nos acostumamos com a violência”, diz. “O Afeganistão é um lugar muito interessante.”

*Repórter viaja como bolsista da Dag Hammarskjöld Fellowship, da ONU

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